Seja por vontade própria de um público já saturado das estéticas minimalistas, seja como resposta direta da moda aos movimentos políticos e sociais que atravessam o mundo, o maximalismo dá sinais claros de retorno — dentro e fora das passarelas.
São muitas as camadas que explicam esse possível resgate. Para alguns, o maximalismo funciona como escapismo diante de uma sociedade que se acostumou com o pouco: pouca cor, pouca expressividade, pouca representatividade, poucas opções. Para outros, ele surge como reação. A partir do momento em que portais e marcas passam a cunhar microtendências baseadas em cores neutras e termos como quiet luxury, é quase inevitável que surja um movimento contrário ao normativo.
E é justamente aí que entram os desfiles que incomodam. Afinal, quem foi que disse que a moda precisa ser, única e exclusivamente, bela? Historicamente, a moda sempre transitou entre o desejo de agradar determinadas camadas da sociedade e o papel de refúgio — ou até de anarquia — para outras.

Basta observar o último desfile de Jonathan Anderson na semana de moda masculina. Perucas amarelo-neon, blusas de paetê, casacões puffer com detalhes em faux fur. Nada parecia fazer sentido — e talvez não precise mesmo fazer. O desconforto, aqui, é parte da narrativa. Rick Owens entende como poucos esse papel do desconforto e até do absurdo. Para ele, o escapismo não funciona por completo. Em seu último desfile em Paris, o estilista deixou claro outro papel fundamental da moda: o de ridicularizar aquilo que ameaça.

“Eu estava pensando muito em uniformes policiais. E quando você recebe uma ameaça, você a ridiculariza. É assim que você a processa”, disse Owens em entrevista à Vogue. Esse gesto, que nasce da moda como termômetro do cansaço coletivo diante da repressão e do medo, também ajuda a explicar por que o excesso volta a ganhar força.
E essa não é a primeira vez que a moda responde ao medo com excesso. Historicamente, momentos de instabilidade econômica, repressão política ou ansiedade coletiva costumam gerar movimentos estéticos mais barulhentos, exagerados e até desconfortáveis. Foi assim após a Grande Depressão, nos anos 80, marcados por crises e ostentação simbólica, e novamente no pós-pandemia. Em 2026, com os Estados Unidos atravessando um cenário de polarização extrema e impactos econômicos que reverberam globalmente, o maximalismo volta a surgir menos como tendência e mais como reação cultural.

Ainda assim, reduzir o maximalismo a uma resposta direta ao cenário político seria simplificar demais uma estética que sempre existiu. Há quem se vista em excesso por prazer, por identidade, por uma relação afetiva com cor, textura e volume. O que muda em tempos instáveis é o significado desse excesso. Em meio a conflitos contínuos, economias fragilizadas e uma ordem mundial cada vez mais imprevisível, a alegria de um de poder usar uma saia de tule cheia de babados ou uma bota colorida, ou da ousadia de misturar três cores diferentes em um único look ganha um novo peso simbólico. Mesmo que seja momentâneo, o maximalismo tem essa capacidade quase infalível de trazer uma nova perspectiva para encarar o cotidiano.
os elementos maximalistas nas últimas semanas de moda
Essa ousadia também tem aparecido de forma clara nas últimas semanas de moda. De texturas intrecciato na Bottega Veneta de Louise Trotter à dramaticidade quase teatral dos casacos napoleônicos na Dior, o que surge no horizonte são pequenos rótulos poéticos — como “a era dos poetas e dos piratas” — com direito a babados, volumes amplos e muito movimento. Soma-se a isso um flerte evidente com tons ácidos, que vão do verde-limão ao laranja Aperol, reforçando a ideia de excesso como escolha estética consciente.
O que tudo isso representa para a moda como um todo é uma possível mudança na forma como nos expressamos por meio das roupas. Microtendências sempre existirão — não há como fugir delas — e outros fatores seguem impactando diretamente o mercado, da inteligência artificial (e a aversão que se cria em torno dela) até a atual supervalorização e o hype em torno da América Latina. Mas a questão aqui é outra.
A expectativa é que diminua a necessidade de uma moda excessivamente “engessada” e pensada apenas para existir nas redes sociais, enquanto cresce o desejo por uma identidade própria. Uma moda que não necessariamente precisa beber da fonte europeia como referência absoluta, mas que olha para o que sempre esteve nos nossos quintais — nas culturas locais, nos excessos cotidianos e nas estéticas que nunca pediram permissão para existir.
No fim, seja como resposta política, estética emocional ou simples desejo de alegria, o excesso volta a ocupar espaço porque lembra algo essencial: a moda também pode ser caos, fantasia e liberdade. E talvez seja exatamente disso que a gente esteja precisando agora.
