A verdade sobre a fofoca nos relacionamentos que ninguém quer admitir
“Eu vou te contar uma coisa, mas não conta pra ninguém…” Vamos falar sobre o que importa: a fofoca nos relacionamentos é um pseudo mecanismo de conexão que só destrói nossa sororidade.
A real é que a gente não aprende a fofocar do nada. Isso é uma construção cultural e social. Crescemos vendo, em filmes, séries e narrativas bem americanizadas, grupos de mulheres que se conectam a partir de um “inimigo em comum”, piadinhas internas e comentários maldosos pelas costas uma das outras. Aos poucos, isso vai moldando uma ideia torta de intimidade: a de que falar mal de alguém juntas cria laço, aproxima, gera pertencimento. E, de fato, cria mesmo — mas é um tipo de conexão frágil, rasa e tóxica, porque nasce da exclusão do outro, não da construção entre duas pessoas.

Normalizamos a fofoca como forma de interação social. Está nas mesas de bar, nos grupos de WhatsApp, nas conversas “inofensivas” que começam com um “não conta pra ninguém, mas…”. A gente faz com os outros, mas odeia profundamente quando percebe que quem é assunto na boca alheia somos nós mesmas.
Existe aí uma incoerência que a gente finge não ver: o que fazemos em nome da conexão é exatamente o que mais machuca quando fazem com a gente. Fofoca tem gosto agridoce — parece gostoso no começo, cria aquela sensação de cumplicidade, mas depois muda de sabor. Fica ácido. Fica um resíduo estranho no corpo, como se algo ali não tivesse caído bem (isso se você é uma pessoa minimamente conectada com seus valores).
Admiramos a honestidade e fidelidade como valores fundamentais – mas será que fazemos jus a eles no nosso dia a dia?
Conversas pelas beiradas, aquele famoso “disse me disse”, intoxicam trocas que poderiam acontecer no 1:1, no diálogo direto, no encontro verdadeiro. Ela cria ruídos, distorce narrativas, quebra pontes antes mesmo de alguém atravessá-las. E o mais sutil: ensina o ambiente a não ser seguro. Porque, quando você fala da vida de alguém que não está presente, você mostra — mesmo sem dizer — que também é capaz de falar de quem está ali quando essa pessoa virar ausência.
Então, corta, evita, se segura minha filha! Falar da vida dos outros quase nunca é sobre o outro. É sobre a nossa própria falta de conteúdo e de coragem de olhar para a própria bagunça. Pessoas que só sabem interagir através da fofoca alheia, em geral, ou estão desconectadas da própria vida, ou estão preenchendo um vazio interno com barulho dos outros. E isso cobra um preço: relações baseadas em desconfiança, não em intimidade real.
Agora sendo honesta com vocês já que esse é o tema dessa conversa: ninguém está imune a isso. Todas nós já escorregamos nesse lugar (e provavelmente vamos escorregar outras vezes). Fofocar é fácil, rápido, “gostozinho”... É preciso muita coragem para bancar um segredo, falar a verdade mesmo que ela doa, expressar seus sentimentos sem medo da reação alheia.
Desejo que nós paremos um pouco para refletir sobre esse hábito que parece tão inofensivo, mas que enfraquece as nossas próprias relações umas com as outras.
Então, da próxima vez que alguém te disser:
“Eu vou te contar uma coisa, mas não conta pra ninguém…”,
seja inteligente e diga: prefiro, então, nem saber.
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