Afinal, o que são as coleções Cruise? Saiba tudo sobre os desfiles de meia-estação

por Amábile Zióli

Nos meses de abril e maio, a alta costura passa pelo período de meia-estação, que acontece entre o lançamento das duas principais coleções de pret-à-porter — de inverno, em fevereiro, e verão, em setembro. Nesse momento, os desfiles cruise ou resort tomam conta das passarelas ao redor do mundo e as coleções excêntricas são o destaque da moda de luxo. Mas você sabe como as coleções cruise surgiram e como se consolidaram como símbolo de opulência sazonal? Leia até o final para saber tudo.

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Coco Chanel em Biarritz (FPG/Equipe)

Em 1919, Coco Chanel criou a coleção Croisière (em francês, cruzeiro) em Biarritz, na França. A ideia era abraçar a necessidade da elite que viajava para destinos paradisíacos, como o próprio balneário francês, no início da primavera. Na época, a alta costura englobava apenas peças de inverno ou verão, lançadas nas respectivas Fashion Weeks em fevereiro e setembro — dessa forma, a novidade primaveril surgiu como escape, agradou o público e se tornou esperada entre os jet setters que fugiam do inverno europeu anualmente.

Desde então, as principais grifes aderiram ao conceito de forma estratégica. Além de ser uma forma de imergir clientes importantes no universo das maisons, também garante maior visibilidade e disponibilidade das produções, afinal, as peças desfiladas permanecem por mais tempo nas lojas, de novembro até março do ano seguinte.

Nesse formato, as peças desfiladas carregam, geralmente, roupas mais fluídas, soltas e voltadas para a praia, partes de baixo amplas, vestidos leves para a noite e calçados abertos e elegantes. A questão “O que vestir nessa época do ano?” não é mais uma preocupação.

chanel, biarritz

A Chanel inaugurou a temporada cruise de 26/27 com um desfile em Biarritz — sim, a mesma usada como inspiração por Coco Chanel na criação do formato de resort. O litoral francês recebeu o debut de Matthieu Blazy na meia-estação em 28 de abril e o diretor criativo da grife apresentou uma coleção pensada na origem da marca. A prova está na peça de abertura do desfile — uma releitura do icônico vestido preto que completa 100 anos em 2026.

Listras, peças de seda e maiôs são os destaques da temporada. Roupas com movimento tomaram conta da passarela, mas deixando espaço para os clássicos casacos de Tweed da grife.

dior, los angeles

No dia 13 de maio, Dior transformou o novo edifício do Los Angeles County Museum of Art em uma passarela para a coleção resort de estreia de Jonathan Anderson. A escolha do destino não foi por acaso, a aproximação da grife com o mercado estadunidense tem sido intesa — em 2025, a Dior abriu duas novas lojas no país: uma em Nova York e outra na Rodeo Drive, em Beverly Hills.

Quanto à coleção, o novo diretor criativo da maison vem deixando claro que o futuro da Dior é repleto de ousadia e modernidade, e o desfile comprovou o ponto. Vestidos de festa tomaram conta do cenário hollywoodiano — os recortes noventistas, a paleta floral e o mix de texturas resgataram referências à sétima arte já presentes em outras coleções da marca.

gucci, nova iorque

Também nos Estados Unidos, Demna apresenta sua primeira coleção resort para a Gucci depois assumir o cargo como diretor criativo da casa no segundo semestre de 2025, após o fim da temporada de alta costura da Balenciaga. Sabendo do fascínio da grife com locações monumentais — vide Semana de Moda de Milão de 2026 com um desfile icônico cercado de estátuas majestosas — não poderia ser diferente: Gvasalia entregou grandiosidade ao escolher a Times Square como passarela no dia 16 de maio.

A rotina frenética e caótica da cidade foi personagem no desfile de Demna, até mesmo propagandas fictícias foram criadas para a imersão do público. No styling, roupas sociais, ternos ajustados, acessórios inusitados como notebooks e livros, e muita (muita!) pele traduzem a vontade do diretor criativo de mergulhar no cotidiano comercial de Nova Iorque.

O casting também foi um ponto alto. Tom Brady, Paris Hilton e Cindy Crawford foram alguns dos personagens apressados da Gucci nova-iorquina.

louis vuitton, nova iorque

Ainda na Big Apple, Nicolas Ghesquière, diretor da vertente feminina da Louis Vuitton, desfila sua coleção no dia 20 de maio para fechar a temporada resort das principais casas de moda. Ainda não há detalhes sobre a locação, mas, se voltarmos aos últimos desfiles de meia-estação da marca, encontramos um padrão nas escolhas de cenário — marcos históricos são os favoritos da LV, Museu Miho em Kyoto, no Japão; Parque Güell em Barcelona, na Espanha e a Isola Bella, ilha da família Borromeo na Itália. Até o Brasil entrou como destino da maison, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói foi palco para a resort collection de 2016/17.