Analisamos os figurinos das personagens de A Odisseia 

por Beta Weber

Depois de muita expectativa, A Odisseia, a ambiciosa adaptação do épico de Homero idealizada por Christopher Nolan, finalmente chegou aos cinemas e a gente precisa falar sobre o figurino.

Assinado por Ellen Mirojnick, que já havia colaborado com o diretor anglo-americano em Oppenheimer, o trabalho contou com mais de 5.000 peças confeccionadas por 675 artesãos. O cuidado com os tecidos utilizados teve peso duplo: pelo papel simbólico que desempenham por meio de Penélope, esposa de Odisseu, que usa a tecelagem como estratégia para adiar o casamento com um dos pretendentes que disputam o trono de Ítaca; e pelas exigências técnicas de um filme totalmente gravado em câmeras especiais IMAX, que fazem com que qualquer detalhe fique visível na tela gigante, tornando a qualidade de cada peça uma necessidade inegociável.

Ao assistir ao filme, foram os figurinos de algumas das personagens femininas que mais nos chamaram atenção. Entre deusas, rainhas e ninfas, cada uma traz uma interpretação distinta do que pensamos quando se fala do estilo da Grécia Antiga. Em comum, acessórios adornando os cabelos, comprimentos longos e esvoaçantes e diferentes leituras de arquétipos tradicionais.

A rainha de Ítaca, papel de Anne Hathaway, mantém a esperança de que Odisseu retorne para casa, e suas roupas traduzem essa espera. Em vez de tonalidades escuras associadas ao luto, usa tons alegres, sempre com algum toque de rubi. Os penteados elaborados denotam sua posição nobre e ajudam a construir a imagem de uma mulher “pronta” para a possível volta do marido. Seus looks são imponentes, com vestidos longos e detalhes de capa que se destacam mais pela silhueta do que pela riqueza. Acessórios dourados na forma de brincos e colares com medalhas arrematam as composições. Elegantes, mas nunca caindo no exagero, combinam com sua personalidade firme e a dignidade com que enfrenta todas as dificuldades.

Simplicidade é a palavra que melhor define o figurino de Atena, composto unicamente por um vestido off white drapeado e um véu cobrindo a cabeça, vestimenta que remete a algumas das estátuas em sua homenagem. A deusa da sabedoria interpretada por Zendaya mantém um ar de maturidade e nenhuma ostentação. As figuras divinas do Olimpo de Nolan trazem um lado mais humano, tanto no emocional quanto nas escolhas de vestuário.

Os looks mais deslumbrantes do longa pertencem a Helena de Troia, vivida por Lupita Nyong’o. O glamour em volta da personagem cujo rosto “lançou mil navios” é demonstrado pelas vestimentas douradas, sua marca registrada, além de acessórios de cabeça como argolas e joias esculturais. Quase sempre monocromáticos, seus vestidos têm texturas e designs diferenciados, com o brilho do ouro criando um contraste com seu estado emocional e sua beleza inquestionável.

A irmã gêmea de Helena tem o roxo como assinatura. A cor é o ponto em comum em seus vestidos, que variam entre modelos de decote profundo e cintura marcada e composições mais elaboradas com capas e volumes. As joias no cabelo são novamente onipresentes, mas as suas são ainda maiores e mais chamativas, compatíveis com sua posição como rainha de Micenas, casada com o rei Agamenon.

A ninfa encarnada por Charlize Theron vive isolada em uma ilha, e suas roupas carregam um toque náufrago, com uma cartela orgânica de cinzas e beges. As composições contêm assimetria tanto nos comprimentos quanto nos decotes. Um de seus looks, em que um vestido simples é sobreposto por uma espécie de rede, é quase idêntico a um modelo apresentado no desfile Cruise 2026 da Chanel.

Aliás, a influência da estética grega associada à mitologia é recorrente na moda e retorna mais uma vez na temporada de Outono 2026 de alta-costura. Os clássicos drapeados, plissados, pregas, acabamentos metálicos e ornamentação surgem reinterpretados sob um olhar mais contemporâneo e até um certo sex appeal.

Na Schiaparelli e na Standing Ground, o movimento dos plissados e drapeados é renovado graças a detalhes como vazados e transparências.

Designers como Pierpaolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri sempre carregaram influência greco-romana e referências históricas ao longo da carreira e das diferentes casas por onde passaram. Isso se repete em suas coleções mais recentes, respectivamente à frente da Balenciaga e da Fendi.

Já Iris van Herpen e Ashi Studio optaram por vertentes mais dramáticas, com figuras que remetem a entidades divinas e guerreiras, em designs que mesclam feminilidade e imponência.