Charvet: tudo sobre a marca histórica que agora é da Chanel

por Beta Weber

Recentemente, a Chanel anunciou a compra da Charvet, considerada a camisaria mais antiga do mundo ainda em atividade e uma verdadeira instituição da alfaiataria francesa. 

@charvet_official (Reprodução/Instagram)

Os rumores começaram em outubro de 2025, durante o debut de Matthieu Blazy, quando camisas feitas em collab com a marca surgiram na passarela. A escolha não foi arbitrária. Além da qualidade excepcional, a parceria resgatou uma memória afetiva da história da Chanel: a fundadora Coco sempre gostou de incluir elementos masculinos em seus looks e costumava usar as camisas Charvet de seu grande amor, Arthur “Boy” Capel.

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@charvet_official (Reprodução/Instagram)

Somado a isso, a crescente presença de embaixadores masculinos da maison, como ASAP Rocky, Pedro Pascal e Jacob Elordi, frequentemente usando roupas e acessórios da linha feminina, levantou a dúvida: estaria a Chanel planejando expandir para o segmento? Segundo Bruno Pavlovsky, presidente da divisão fashion da Chanel, em entrevista ao New York Times, ao anunciar a compra: “Agora temos um nome: Chanel para as mulheres e Charvet para os homens.” Ele também admitiu a possibilidade de, no futuro, a casa ganhar seu próprio diretor criativo.

Mas antes de falar sobre o que possivelmente vem por aí, vamos descobrir como tudo começou. A Charvet foi fundada em 1838 por Joseph-Christophe Charvet. A título de curiosidade, seu pai era camareiro de Napoleão Bonaparte. Em 1965, Denis Colban, então fornecedor de tecidos da casa, comprou a operação, que ficou sob o comando da família até o mês passado.

Sofia Coppola (Reprodução/@gq)

Pioneira em camisas feitas sob medida, ao longo do tempo, a marca colecionou clientes como Marcel Proust, John F. Kennedy, Karl Lagerfeld e Yves Saint Laurent, mantendo-se como um endereço tradicional e, simultaneamente, um destino cult, conquistando admiradores como Sofia Coppola, que usa camisas Charvet como uniforme não oficial de trabalho.

Mas afinal, o que faz a Charvet tão especial? As camisas, o carro-chefe da grife, podem ser feitas sob medida ou compradas prontas. As peças permitem um grau de customização altíssimo, que inclui tecidos e padronagens desenvolvidos exclusivamente, colarinhos (eles inventaram o design clássico que conhecemos hoje) de construção impecável e uma atenção quase obsessiva aos detalhes de confecção. Praticamente tudo pode ser escolhido e complementado. E não para por aí: ternos, gravatas, abotoaduras, cintos, lenços e meias também figuram.

@elizagracehuber (Reprodução/Instagram)

Além da coleção de itens formais, a marca também é famosa pelo loungewear refinado, que inclui pijamas, lançados em 1920 e produzidos em rami, fibra natural primaveril semelhante ao linho, e chinelos de couro ou camurça, disponíveis em uma cartela de cores abundante, que se tornaram objetos de desejo de quem prioriza um estilo luxuosamente cool.

Entrar na boutique da Place Vendôme, um dos endereços mais emblemáticos do mundo, é uma experiência única. Esqueça aqueles ambientes minimalistas e clean. Ao contrário, uma profusão de cores, texturas e materiais te dá boas-vindas. A proposta é convidar o cliente a explorar, tocar e absorver com calma a riqueza de opções.

O atendimento personalizado é um diferencial fundamental, baseado no princípio de que o cliente é o designer: seu gosto e suas necessidades prevalecem, com os produtos servindo como ponto de partida. Só para camisas brancas, eles dispõem de mais de 100 tonalidades; de azul, em torno de 50; já em tramas, uma média de 400 tipos. 

@charvet_official (Reprodução/Instagram)

Essa filosofia é incompatível com uma lógica de escala tradicional. Os números causariam taquicardia imediata em qualquer analista de mercado, afinal faria mais sentido oferecer apenas os que mais saem. Porém, esse nunca foi o objetivo da Charvet.

E nem da Chanel, que vem há anos adquirindo ateliers especializados sob o guarda-chuva do Le19M, justamente com o intuito de preservar a prática artesanal e o savoir-faire, garantindo que ofícios cada vez mais raros não se percam. Não são decisões motivadas por produtividade ou lucro.

Aliás, você já ouviu falar no Le19M? O número representa o dia do aniversário de Coco e o arrondissement parisiense onde fica o prédio; já o M é de mode, mains, métiers d’art, maison e manufacture. A plataforma reúne tanto o grupo Métiers d’Art, integrado por ateliês como Lesage, de bordados, Massaro, de sapatos, Maison Michel, de chapéus, entre outros, quanto marcas que mantêm sua própria produção, como a escocesa Barrie e a Eres.

Os devotos da Charvet podem relaxar: a grife vai fazer parte da segunda opção. A ideia é manter a individualidade da etiqueta, que deve continuar operando de maneira independente.