É o fim de New York e London Fashion Week?

por Natalia Brisolla

Houve um tempo em que só se sabia sobre uma nova coleção através dos desfiles, e aquele momento era praticamente sagrado. A passarela era o primeiro contato com o que viria a definir a próxima estação, e as imagens demoravam dias para circular. Para ver aquelas roupas pessoalmente, só meses depois, quando finalmente chegavam às lojas. Existia um tempo considerável entre criação, apresentação e consumo

Mas os tempos mudaram, hoje a informação é instantânea, a imagem é replicada em segundos e o desejo é construído (e esgotado) na mesma velocidade. Vivemos em um mercado movido por drops, colaborações-relâmpago e lançamentos digitais estrategicamente cronometrados. Nesse novo cenário, estar em uma fashion week deixou de ser a única e talvez até a mais eficiente maneira de apresentar novidades. Além de caro, o formato tradicional precisa disputar atenção com transmissões ao vivo, campanhas virais, creators e ativações que falam diretamente com o consumidor final. 

Semanas como a New York Fashion Week e a London Fashion Week estão sentindo essa virada na pele através de um calendário que parece estar se esvaziando de grandes nomes. Marcas estão pulando temporada, escolhendo formatos próprios ou simplesmente fazendo as malas rumo à Paris Fashion Week e à Milan Fashion Week, onde ainda se considera haver um prestigio maior.

A lista de ausências é grande: Em Londres, J.W. Anderson, Molly Goddard, Chopova Lowena, KNWLS. Em Nova York, nomes como Thom Browne optaram por apresentar fora do calendário; Rachel Comey e Brandon Maxwell pausaram; marcas que migraram para Paris, como Willy Chavarria, Vaquera e The Row, não dão sinais de retorno.

London Fashion Week
Foto: London Fashion Week (Reprodução/Hollie Adams/Reuters)


Em um cenário em que um desfile pode ultrapassar facilmente US$ 200 mil, muitos designers simplesmente não veem mais ROI (Retorno sobre investimento) em faze-lo nas cidades que não tem atenção total do mercado. Isso quer dizer que NYFW e LFW morreram? Não necessariamente. Mas elas estão atravessando uma transformação que pode redefinir completamente o que representam dentro do sistema de moda.

Existe um cenário possível em que essas semanas passam a assumir o papel de laboratório criativo. Menos sobre tradição e grandes maisons, mais sobre energia cultural, inovação e construção de comunidade. Algo muito próximo do que aconteceu com a Copenhagen Fashion Week: sem nomes gigantes no line-up, mas com identidade forte, curadoria coerente e uma estética tão reconhecível que virou referência global.

Milão Fashion Week
Foto: Milão Fashion Week (Reprodução/GoRunway)

qual o futuro das fashion weeks?

Copenhagen não tem as maiores casas do mundo, mas tem os olhos do mundo. Porque soube transformar limitação em narrativa. Sustentabilidade virou regra. A nova geração virou protagonista. A cidade virou sinônimo de “cool”. Nova York e Londres podem trilhar um caminho parecido: menos exclusividade e elitismo, mais foco em quem está construindo agora, em abrir portas para os amantes de moda

Mas também existe o outro cenário, o de continuarem perdendo nomes, relevância comercial e atenção midiática até virarem apenas etapas protocolares no calendário. Não mortas, mas esvaziadas e sem relevância cultural. No fim, talvez a pergunta não seja se elas vão sobreviver, mas qual versão delas vai sobreviver.

O que você acha? Estamos vendo o fim de NYFW e LFW… ou o início de uma fase muito mais interessante?