Escapismo Tropical: tudo sobre o desfile da MISCI na Sapucaí

por Izabela Suzuki

O fundo azulado da Marquês de Sapucaí, hipnótico, abriu alas para o som dos ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis, que ontem (17), no penúltimo dia do Rio Fashion Week, levou sua bateria para a avenida, que recebeu a coleção de verão 2027 da MISCI, onde moda, cultura e arquitetura se encontram.

A coleção, batizada de Escapismo Tropical, transformou um dos maiores símbolos da cultura brasileira em um cenário que celebra o Brasil como um território de respiro, quase como se a vida por aqui acontecesse de outra maneira. O corpo, a festa, os movimentos e a música não representam fuga, mas sim formas de seguir em frente e reorganizar a vida. 

Desfile da MISCI na Sapucaí com modelo posa em polo preta de tricô e óculos lilás futuristas. Texto: misci
Foto: Desfile Verão 2027 MISCI (Reprodução/Instagram)


o que você precisa saber sobre o desfile da MISCI na sapucaí

E qual lugar melhor do que o Rio de Janeiro? Consolidado no imaginário de muitos como a vitrine dessas percepções, o desfile parte da premissa de alguém que vem de alguma parte do Brasil (ou do mundo) e encontra aqui um paraíso: a paisagem mítica do litoral. Daí o fundo azulado do Sambódromo, que evoca o mar.

Entre as referências que moldaram a coleção, surge o Rio na década de 1970. Das Dunas do Barato ao Píer de Ipanema, cenários que evocavam experimentação na época, a coleção reinterpreta a alfaiataria e brinca com uma espécie de alta-costura carnavalesca, onde proporções e materiais são reimaginados junto ao compromisso com o fazer manual da marca.

Gal Costa e Maria Bethânia também serviram como fontes de inspiração, assim como códigos do interior — origem de Airon Martin, fundador e diretor criativo da MISCI. Seja na paleta de cores, na atitude ou como forma de potência cultural, esses elementos reforçam o encontro entre culturas, paisagens e formas de viver o Brasil.

Os destaques ficam por conta das parcerias com o Instituto do Bordado Filé de Alagoas, com o qual a marca desenvolve novas peças que exploram a técnica tradicional do bordado filé, e também com o grupo Redeiras, formado por artesãs da Colônia de Pescadores São Pedro, onde redes de pesca descartadas são restauradas e transformadas em tecidos e acessórios.

A coleção ainda dá continuidade à parceria com Lenny Niemeyer, que apresenta novas estampas inspiradas no universo marítimo, além do desenvolvimento de peças de beachwear em tricô. Enquanto isso, o jeans aparece com novas propostas por meio de processos de upcycling.

Entre as colaborações, a MISCI amplia sua narrativa com nomes que tensionam moda, arte e design. O destaque vai para o encontro com o designer de joias Alan Crocetti, que traduz o “Escapismo Tropical” em três brincos de formas orgânicas inspiradas na Oca do Ibirapuera, em conchas e em uma pérola envolta por prata fluida — peças que evocam movimento e água, funcionando como extensões da coleção. Já a bordadeira Wendy Cao, com passagem por maisons como Dior e Schiaparelli, conecta a alta-costura ao fazer manual brasileiro, explorando bordados sobre couro, seda e palha de buriti.

Já nas colaborações com marcas, a MISCI reforça seu diálogo entre indústria e identidade. A parceria com a Riachuelo evolui com o uso de uma nova fibra sustentável, enquanto Havaianas surge com versões exclusivas do modelo Top e a Casio Vintage integra o styling com relógios que dialogam com a estética da coleção.

No eixo global, a VEJA apresenta um sneaker inédito que combina couro de pirarucu, design assimétrico e referências a paisagens brasileiras, transformando território em linguagem contemporânea. 

No desfile da MISCI na Sapucaí, modelo posa com jaqueta vinho e minissaia de crochê colorida em clima marcante.
Foto: Mel Maia (Reprodução/Instagram)

Para acompanhar tudo isso de perto, a primeira fileira estava repleta de nomes de peso. Mel Maia, Débora Nascimento, Anttónia, Letícia Spiller, Pedro Novaes e Tiago Iorc foram alguns dos convidados da noite.

A MISCI já passou por muitos lugares. Mostrou seu Valor Latino e apresentou a Dama do Interior que, agora, pousa em solos cariocas em busca do seu Escapismo Tropical. Do funk ao samba, Airon segue mostrando que a moda brasileira contemporânea é capaz de ampliar todas as narrativas, conectando cultura, territórios e coletivos de criação. Qual será a próxima parada?