Fetiche Core: a tendência polêmica do mundo da moda retorna aos holofotes

por Izabela Suzuki

Ela não chegou abruptamente, mas foi reconquistando seu espaço aos poucos, primeiro com a volta da estética sexy e tudo o que envolvia o sex appeal — g-stringsbodycon cut-out são apenas algumas das tendências que vimos ao longo desses últimos dois anos. Depois, foi reaparecendo em alguns desfiles e, agora, passou a ser adotado por inúmeras celebridades — especialmente em tapetes vermelhos. De quem estamos falando? Do fetiche core

De tempos em tempos, o fetichismo volta para a moda, e se engana quem pensa que ele é coisa da “nova geração”, afinal, desde que as vestimentas passaram a ser usadas e vistas como uma forma de sedução e jogo de poder, o mundo pareceu entender que o termo “sex sells” é inegável. 

Apesar de ser um taboo para muitos, essa ideia do fetiche core é algo pautado desde o início da década de 20 e não parece ter data de validade quando o assunto é flertar com a moda:

Look Yva Richard fotografado em 1935 - corset de couro, botas de cano longo, luvas e chicote - Fetiche Core - Inverno  - foto em sépia tirada em frente a uma cortina - https://stealthelook.com.br
Foto: Peças da marca Yva Richard (Reprodução)

Não podemos dizer com extrema precisão, no entanto, ao que tudo indica, o termo “fetiche” foi criado no século 18 e popularizado na década de 1920, com a ajuda da marca francesa Yva Richard, que, na época, vendia lingeries e sapatos voltados para o fetishwear. A marca atingiu um sucesso absoluto naquele ano e ficou muito conhecida pelo seu sutiã em formato de cone — sim, o mesmo que, anos depois, foi usado de inspiração para a cantora Madonna. 

Kim Kardashian - trench coat de couro, botas, máscara fácil e luvas - Fetiche Core - Inverno  - em pé na frente de uma porta branca - https://stealthelook.com.br
Foto: Kim Kardashian (Reprodução/Instagram)

Kim Kardashian e sua relação com a Balenciaga é uma das maiores amostras do fetiche core mais atual. As peças feitas em látex, macacões justos, luvas de couro e botas de cano bem longo são alguns dos códigos adotados pela empresária ao longo dos últimos anos. As máscaras faciais que cobrem todo o rosto e possuem spikes também são uma marca registrada dessa estética. O uso dessas roupas, especialmente pelas Kardashians, pode ser visto como a mulher “dominatrix” — que domina e se autodenomina como dominante.

Violet Chachki em desfile para Richard Quinn - macacão de látex preto - Fetiche Core - Inverno  - andando em uma passarela rosa - https://stealthelook.com.br
Foto: Violet Chachki em desfile para Richard Quinn (Reprodução/Instagram)

Na última semana de moda de Londres, o designer Richard Quinn apostou em uma peça bem interessante para o seu desfile. Ele convidou a drag queen Violet Chachki para entrar na passarela com um one piece feito de látex bem justo e segurando outro modelo por uma coleira. O figurino usado por ambos é bem característico da moda fetichista, especialmente pela presença dos harness. 

Evan Mock - bermuda preta, camisa, paletó e máscara de couro com spikes - Fetiche Core - Inverno  - em pé no tapete bege do Met Gala - https://stealthelook.com.br
Foto: Evan Mock (Reprodução/Instagram)

De forma mais sútil, mas ainda assim brincando com a ideia de um clímax envolvendo o fetiche core, o ator de Gossip Girl, Evan Mock, compareceu ao MET Gala usando uma máscara preta com spikes assinada pelo designer Thom Browne. 

Julia Fox - vestido de couro com uma mão segurando o pescoço - Fetiche Core - Primavera - Em pé no tapete azul da Vanity Fair - https://stealthelook.com.br
Foto: Julia Fox (Reprodução/Instagram)

No último final de semana (27), na festa pós Oscar da Vanity Fair, Julia Fox marcou presença usando um vestido longo de couro assinado por Han Kjobenhavn e Naomi Gilon. A produção tinha tudo para ser mais "sútil", no entanto, um detalhe na peça chamou toda a atenção. A mão envolvendo o pescoço da atriz, apesar de poder ser relacionada com uma estética mais gótica, também possui forte influências do fetiche core.

Em um último ensaio para a revista Wonderland, a atriz Zoë Kravitz e o ator Robert Pattinson mergulharam em uma vibe mais sensual e que nos fizeram lembrar um pouco uma estética fetichista.

Desfile Thierry Mugler 1992 - macacão de couro com luvas pretas - Fetiche Core - Primavera - em pé na passarela - https://stealthelook.com.br
Foto: Desfile Thierry Mugler 1992 (Reprodução/Vogue Runway)

Thierry Mugler teve um papel importantíssimo na moda fetichista, afinal, foi ele quem trouxe uma visão hardcore para o universo fashion durante a década de 70. Seus corsets ficaram registados na história e, mais tarde, seu olhar livre de taboos envolvendo a sexualidade, fizeram com que mais pessoas prestassem atenção no fetiche core nos anos 90.

Vivianne Westwood - loja de artefatos BDSM - Fetiche Core - Outono - Londres - https://stealthelook.com.br
Foto: Boutique "Sex" (Reprodução)

De acordo com a matéria do site FFW, Vivienne Westwood e a contracultura punk também fizeram parte desse movimento. Em 1971 ela e seu parceiro, Malcom McLauren, abriam uma boutique intitulada “Sex” — aliás, foi lá que a famosa banda Sex Pistols surgiu. Com muitos artefatos inspirados no fetiche, nas subculturas londrinas e em motociclismo, a designer também foi uma precursora do fetishwear e rapidamente chamou a atenção de muitos jovens chegados em látex e couro na época.

Madonna - corset preto desenhado por Jean Paul Gaultier - Fetiche Core - Verão - dançando em cima do palco - https://stealthelook.com.br
Foto: Madonna na turnê "The Girlie Show World" (Reprodução)

Quando falamos em moda BDSM, também não podemos deixar de mencionar um dos maiores precursores dessa estética. Jean Paul Gaultier também incorporou o fetishwear na moda durante os anos 90. O uso de acessórios bondage, couro e outros elementos foram usados em várias de suas coleções e serviu como fonte de inspiração para diversas outras marcas, como a Versace, por exemplo.

Além disso, é impossível não se lembrar da Madonna. A cantora foi uma das responsáveis por abordar a libertação sexual de muitas mulheres, não só na indústria musical, mas também no cotidiano. Sua turnê “The Girlie Show”, foi recheada de produções relacionadas ao fetiche core e ficou consagrada como uma parceria inesquecível e super erótica entre a cantora e o designer

Naomi Cambpell - vestido preto com amarrações em couro na parte de cima - Fetiche Core - Outono - Desfile Versace - https://stealthelook.com.br
Foto: Naomi Cambpell em desfile para a Versace no ano de 1992 (Reprodução/Vogue Runway)

Gianni Versace também apresentou coleções com inspirações no BDSM, tais como o corpete com harness de couro usado por Naomi no desfile de 1992. A coleção era provocativa e foi intitulada como “Miss S&M”, naquele ano, o conceito do desfile chegou a dividir opiniões, teve quem acreditou que aquelas roupas foram uma forma de objetificar sexualmente as mulheres, no entanto, muitas gostaram e enxergaram aquilo como uma forma de poder escolher livremente o que usar e como se sentir.

De certa forma, a moda fetichista pode ser vista como provocadora e libertadora, já que uma das maiores “lutas dessa estética é contra o ultra conservadorismo — e isso é visto em qualquer lugar do mundo e durante todas as épocas, especialmente nas que os problemas econômicos, sociais e políticos falam mais alto. 

Atualmente, a Dion Lee também vem chamando a atenção de muitos famosos — incluindo das estrelas de Euphoria —, inclusive por seus designes cheios de sensualidade, couro e detalhes mais ousados. Suas últimas coleções incluem peças com aberturas, harness mais grossos, fivelas e metais.

Aqui no Brasil, a marca Bold Strap foi, inclusive, uma das responsáveis pelo figurino de Verdades Secretas 2 — já que a continuação da novela abordou bastante a ideia de fetiches. Além disso, eles vestem personalidades como Anitta, Marina Sena, Karol Koncá e Pabllo Vittar. Inicialmente dedicada às jockstraps, hoje, a Bold Strap apresenta peças de fetiche, acessórios, underwear streetwear. A marca celebra a diversidade da comunidade gay e todas as suas diferentes fantasias. 

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