Gravidez na pandemia: uma conversa com Mari Cyrne sobre estilo e maternidade

por Sofia Stipkovic

"A minha primeira reação foi 'mas eu ainda sou muito nova pra isso'!" Foi assim que a produtora de conteúdo e co-fundadora do Garotas Fora do Padrão, Mariana Cyrne, começou a nos contar sobre a descoberta da gravidez na pandemia. Na espera por Dom, que deve nascer em junho, Mari respondeu a um bate-bola nosso sobre estilo, maternidade e o que significa para ela criar um menino sob a perspectiva feminista. 

Sem mais delongas, vamos direto à nossa conversa sincera e, modéstia à parte, muito gostosa de ler. E se você também está passando pela gravidez na pandemia, se prepare para se identificar com vários relatos da Mari. "São muitos pensamentos que assombram, confesso. Mas também uma alegria infinita por esse serzinho que está chegando", comenta.

_mari, qual foi a sensação de descobrir a gravidez na pandemia?

M.C.: Quando descobri a gravidez, a minha primeira reação foi "mas eu ainda sou muito nova pra isso!". Só depois de pensar no que isso significaria, que fui raciocinar como seria todo o processo. E sim, dá muito medo. Moro em São Paulo há quase quatro anos, longe da minha família - que mora em Belo Horizonte. Estar assim distante significaria abrir mão da minha rede de apoio mais óbvia. Mas, com o tempo, fui descobrindo que não precisava ser assim. Meus pais, principalmente, se fazem muito presentes em ligações diárias e visitas esporádicas com todo o cuidado do mundo.
 
E antes de descobrirmos a gravidez na pandemia, eu e meu companheiro mudamos de casa (e de cidade). Foi a melhor coisa que fizemos, pois consigo ter acesso à minha médica e a laboratórios com muito mais tranquilidade, sem precisar encarar os hospitais, que estão lotados. Foi imprescindível para garantir nossa segurança e qualidade de vida nesse período. Mas, dá muito medo ainda assim do que está por vir. Estamos vivendo no meio do caos, onde os números de morte só crescem dia após dia, hospitais lotados, etc.

o Dom deve nascer em junho e me pego pensando até se vamos conseguir uma vaga para o parto, se a internação é segura.

E as questões nem de longe param por aí: temos um puerpério que promete ser ainda em isolamento total. Imagina! São muitos pensamentos que assombram, confesso. Mas também uma alegria infinita por esse serzinho que está chegando.
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Foto: Mari Cyrne (Instagram)

_você já sentiu mudanças no seu estilo desde o começo da gestação?

M.C.: De estilo, acho que não. Mas, de prioridades dentro do meu guarda-roupas, totalmente. Tenho privilegiado as roupas mais largas e confortáveis. É impressionante como tudo aperta (mesmo eu não tendo ganhado peso na gravidez) e a gente só quer fluidez! Os jeans ficaram de lado por enquanto - acho que tenho apenas dois que servem bem e consigo usar.

_qual peça você mais usou até agora e por quê?

M.C.: Não tenho uma peça específica. Tenho usado muito vestido, calça pantalona, cropped e camisões - até por conta das temperaturas.

algumas adaptações acabam rolando - uma roupa que seja fácil para amamentar, para brincar com o filho, etc. então a roupa vai ganhando essa funcionalidade à medida que as funções vão se acumulando. 

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Foto: Mari Cyrne (Instagram)

_mari, você acha que o seu estilo vai mudar de alguma forma uma vez que o Dom nascer?

M.C.: Como eu disse, não acho que vá mudar, mas algumas coisas vão precisar ser adaptadas. E tudo bem também se mudar. Não sou uma pessoa fechada a isso. Mas acredito mais na funcionalidade da roupa do que propriamente em encarar um "novo personagem", no caso, mãe.

_se pudesse falar, dividir algo com as mulheres que estão passando por uma gravidez na pandemia também, o que você diria?

M.C.: Que está tudo bem sentir medo, achar que não sabe de nada, se sentir só. A gente vê por aí muitos relatos de uma maternidade romantizada: nasce um bebê, nasce uma Mulher Maravilha. Isso dá muito medo - de não dar conta, de não ser suficiente. Tenho lido muuuuito para não cair nessa armadilha e não me frustrar. Inclusive, uma das leituras que eu posso recomendar de olhos fechados é "Eu não nasci mãe", da Lua Barros, que retrata bem todo esse processo.

_como você vê a relação entre maternidade e individualidade, isto é, conciliar a figura da Mari mãe e da Mari "só Mari", sem se anular?

M.C.: É uma linha tênue e ultra complicada. Acontece muito e eu consigo entender os motivos. Mas, acho que isso tem muito a ver com esse ideal de mãe que se criou: mãe onipresente e onisciente, mãe que dá conta de tudo, mãe perfeita. 
Somos muitas - e amo cada parte que sou: a Mari que trabalha, a Mari companheira, a Mari que tem amigos, e por aí vai. Sei que por um bom tempo, algumas dessas partes serão um pouco negligenciadas na minha rotina, que vai sim precisar ser mais mãe do que outra coisa. Mas aos poucos, a gente vai buscando o equilíbrio. O lance é não surtar e nem se cobrar tanto, o que é difícil, hahaha.

acho que cada pessoa tem o próprio estilo e não é porque ela se tornou mãe que passa a se enquadrar em algo. estilo precisa ser funcional também - não adianta só ser bonito.

_por fim, qual é a importância para você de criar um menino nos dias atuais?

M.C.: Olha, acho que é uma tarefa lindamente árdua: educar um menino, com os meus valores, sob a perspectiva feminista, na tentativa de termos um mundo mais justo para mulheres e homens. E esse papel não é só meu - faço questão de dividi-lo com o pai do Dom, meu companheiro. Ensiná-lo a não perpetuar o machismo e a misoginia. Ensiná-lo a questionar e também a rejeitar o privilégio que os homens têm há séculos e séculos. Tentar construir uma nova masculinidade, menos tóxica. Mostrar que força, resistência e confiança nada tem a ver com habilidades físicas. Ensinar sobre autocuidado e sobre cuidar dos outros também - papéis tão dados somente às mulheres na nossa sociedade. Ensinar sobre consentimento. Sobre sentimento. Sobre permitir que ele apenas seja, sem barreiras emocionais estereotipadas. É um trabalho de formiguinha, construído dia a dia, quando a sociedade como um todo diz o contrário. Mas há de valer a pena!

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Foto: Mari Cyrne (Instagram)
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