Tudo sobre a história da Calvin Klein

por Beta Weber

Minimalismo, jeans, underwear, uma estética visionária baseada em uma ideia de simplicidade moderna, Kate Moss e Carolyn Bessette-Kennedy. De quem estamos falando? Da Calvin Klein, tema da nossa história da moda da vez.

Foto: Reprodução/WWD

Calvin Richard Klein nasceu em 1942, no Bronx, em Nova Iorque. Filho de imigrantes húngaros, as roupas entraram na sua vida desde cedo. A avó Molly era costureira e ensinou o ofício ao neto ainda criança.

Foto: Reprodução/Vogue

Sinônimo dos anos 90, a história começa bem antes, em 1968, quando o recém-formado Calvin, munido de um diploma do Fashion Institute of Technology (FIT), e o melhor amigo Barry Schwartz decidem abrir a Calvin Klein Inc., inicialmente focada em casacos e vestidos em tecidos nobres. Como várias outras parcerias na história da moda, Klein era o responsável pela parte criativa, e Schwartz, pelo lado mais business, e a sociedade perdurou até a venda da empresa, 35 anos depois.

Kourken Pakchanian/Conde Nast Collection

A linha inicial foi bem recebida e, em 1969, a Vogue US colocou uma das criações do jovem em sua capa. Apesar do reconhecimento, a década seguinte ainda seria de estruturação do negócio como um todo e também de busca por uma identidade distinta para a marca, que seria desenvolvida em seguida, calcada nos pilares que a gente conta a seguir.

Foto: Cindy Crawford/Reprodução

Em oposição ao ideal europeu baseado na alta-costura, Calvin partiu do conceito de sportswear americano (uma moda de peças casuais, confortáveis e coordenáveis), estabelecido por nomes como Claire McCardell, Bill Blass e Anne Klein, mantendo os princípios de praticidade e versatilidade, mas adicionando sensualidade e foco no corpo.

Trevor Gillespie/Getty Images

Ao contrário de tantos designers que se ancoram na nostalgia, Klein sempre manteve o olhar no presente, concentrado em atender às necessidades da mulher americana naquele momento e sendo guiado mais por um estilo de vida do que por marcas ou estilistas. Seu interesse maior era por comportamento e atitude. Entre suas influências, a própria cidade de Nova Iorque, com sua cena agitada e múltipla.

Foto: Bruce Weber⁣/Reprodução

Transformou básicos em objetos de desejo, focando na mensagem mais do que na inovação de design: O melhor exemplo para ilustrar esse ponto é o case do jeans. A empresa foi pioneira no conceito de designer jeans e, mesmo que marcas como Fiorucci já tivessem introduzido o item como algo almejável, foi a Calvin Klein que, aliando o produto a um marketing certeiro e provocativo, o consolidou como símbolo de status.

Foto: Reprodução/Calvin Klein

O mesmo aconteceu com o universo da lingerie e das roupas de baixo nos anos 80 e 90. Até então, os modelos simples (que não fossem os rendados e decorados de ocasiões especiais) mal apareciam em anúncios e, quando presentes, surgiam em uma estética puramente funcional. Pelas mãos de Klein, passaram a invocar intimidade, sensualidade e provocação.

Foto: Condé Nast Archive/Gorunway

minimalismo com sex appeal

A linha fashion, intitulada Calvin Klein Collection, era onde o estilista exercia seu lado mais alta moda e luxuoso. Apesar de rejeitar elementos decorativos e preferir construções simples e sem excessos, Klein não se encaixava no minimalismo austero ou severo. Suas criações tinham apelo clean e funcional, mas também flexibilidade, com materiais maleáveis que permitiam mobilidade, sempre permeadas por um ar sexy. Buscando naturalidade em tudo o que fazia, sua visão era urbana, cool e, por vezes, subversiva.

Klein não considerava a palavra comercial como algo ofensivo, bem pelo contrário. Ao lado do sócio Schwartz, provou que moda e apelo popular poderiam coexistir. Seu desejo era alcançar o maior número de pessoas, levando o lifestyle da Calvin Klein para o público em massa por meio de jeans, camisetas e, eventualmente, fragrâncias.

A primeira coleção completa foi lançada em 1973, mas o ano da virada foi 1978, com o lançamento da linha masculina e novas divisões de licenciamento de jeans e fragrâncias debutando no negócio.

Foto: Reprodução/Calvin Klein

Os perfumes foram fundamentais para a construção do império, representando os valores e o universo da Calvin Klein para além do vestuário. Os primeiros hits vieram na metade dos anos 80, com Obsession e Eternity, mas foi em 1994, com CK One, que o segmento explodiu.

Klein e Schwartz encontraram uma forma de diversificar sem perder a essência, dividindo o negócio em categorias. Collection era a linha apresentada na passarela e vendida em boutiques selecionadas; jeans e underwear funcionavam como conectores com o universo mais jovem; e as fragrâncias atingiam todas as gerações de forma ainda mais ampla e acessível.

o jeans

Do primeiro modelo reto e mais ajustado ao corte baggy do início dos anos 90, o material é indissociável da marca. As calças ocupam o topo mais alto do pódio, mas shorts, jaquetas e saias também figuram no mix.

logomania

Reza a lenda que a ideia de escrever o logo por tudo surgiu das camisetas estampadas com o nome da marca, criadas como espécie de uniforme para as garotas que trabalhavam nos desfiles, no início dos anos 70. Verdade ou não, o fato é que a sacada reforçou ainda mais a genialidade para branding de Calvin. As peças estampadas com o nome da grife se transformaram em desejo absoluto, além de funcionarem como outdoors em movimento, propagando ainda mais o nome Calvin Klein.

underwear

O sucesso do logo ganhou outras proporções quando chegou à linha de underwear. As lingeries, cuecas e samba-canção, com branding bem visível no cós, viraram best-sellers e se mantêm como elementos fixos na cultura pop. O sucesso foi tão grande que as peças deixaram de ficar restritas às camadas escondidas, passando a fazer parte do look, aparecendo propositalmente sobrepostas por jeans, à la styling das campanhas da marca.

unissex

No início dos anos 90, a ideia de ambiguidade e fluidez entre gêneros passou a conquistar espaço, e a marca prestou atenção: o conceito unissex foi aplicado tanto no perfume CK One quanto no jeans, idealizados para serem usados por todos os sexos. Somado a isso, a influência de designs masculinos em coleções femininas e o incentivo a misturar itens do guarda-roupa sem restrições reforçaram o ideal de valorizar individualidade ao invés de padrões.

Acreditando que produto e storytelling ocupavam lugares igualmente importantes, o marketing tinha peso enorme na empresa, com a maior parte das campanhas sendo planejadas internamente. Não restam dúvidas de que a comunicação visual foi decisiva para calcar o espaço da marca no imaginário popular, muitas vezes se valendo de propostas polêmicas e percebendo, antes da maioria, o poder de usar celebridades em seus anúncios.

Brooke Shields/Richard Avedon

Nos anos 80, Brooke Shields posou para a emblemática campanha “Me and My Calvins”, fotografada por Richard Avedon, controversa, já que a atriz ainda era menor de idade. A ação viralizou, e mais de 200 mil pares de jeans foram vendidos na primeira semana.

Mark Wahlberg e Kate Moss/Herb Ritts

O hi-lo e a interseção entre as ruas e a sofisticação da moda eram mais explicitamente explorados nas campanhas, como na escolha do então rapper Mark Wahlberg como estrela, algo inusitado para uma grife, ajudando a popularizar a recém-lançada cueca boxer e, com isso, uma nova imagem de masculinidade.

Kate Moss, Calvin Klein e Christy Turlington/Kevin.Mazur/Getty Images

Além de usar celebridades na comunicação, a marca se tornou tão influente que passou a criar suas próprias estrelas. No final dos anos 80, Christy Turlington consolidou seu status de supermodelo, embalada pelo contrato de exclusividade com a CK.

Kate Moss/Calvin Klein

Depois dela, na virada da década, a jovem britânica Kate Moss, ainda pouco conhecida, foi alçada aos holofotes ao se tornar o rosto da Calvin Klein. Kate e seu jeito cool ascenderam como alternativa à estética vigente. O visual natural, sem polidez e glamour, ajudou a redefinir os padrões de beleza e resultou em diversas imagens icônicas, amplamente celebradas e igualmente discutidas. A aparência frágil e a silhueta diminutiva fizeram parte da tendência que ganharia o nome de “heroin chic”.

A fama veio no final dos anos 70, graças ao tino para negócios e campanhas controversas; nos anos 80, a transformação em uma marca de lifestyle, se aventurando também no mundo de cosméticos e decoração; mas foi na década de 90 que a Calvin Klein se consolidou no epicentro do zeitgeist, transitando entre o luxo e a cultura de massa, vestindo tanto celebridades no tapete vermelho quanto jovens anônimos nas ruas.

Vogue/Steven Meisel

O exagero e o power dressing dos 80s cederam território para uma moda mais clean e moderna. Ao lado de Donna Karan e Helmut Lang, a Calvin Klein, através da linha Collection, foi uma das principais propulsoras do movimento. Vestidos slip, alfaiataria, tons neutros, atitude nonchalant e um refinamento sem esforço atualizaram as noções de luxo e marcaram época.

Carolyn Bessette-Kennedy e Calvin Klein/Fairchild Archive/Getty Images

Com uma nova geração descobrindo a figura de Carolyn Bessette-Kennedy, graças ao sucesso da série Love Story, baseada em seu relacionamento com John F. Kennedy Jr., os holofotes se voltaram para a Calvin Klein, já que era lá que Bessette trabalhava quando conheceu o futuro marido. Carolyn iniciou como vendedora de uma loja da CK em Boston, até chegar ao cargo de RP, personificando a estética minimalista e elegante da Calvin Klein Collection.

Kelly Klein e Calvin Klein/Ron Galella, Ltd./Getty Images

Devido à febre pela produção, outra personagem importante na história da marca emergiu: Kelly Klein, musa e então esposa de Calvin, que também trabalhava na empresa e vestia as roupas como ninguém.

Calvin Klein/Reprodução

O escritório da marca, assim como o próprio designer, foram retratados com fidelidade na série, acendendo curiosidade sobre o universo. A pureza estética era exigência sine qua non do cofundador, com nenhum detalhe escapando. A lista de regras incluía flores brancas; lírios ou orquídeas, e nenhuma outra cor era admitida nos arranjos. Mesas de trabalho absolutamente vazias no final do dia, nada de decoração e até a proibição do uso de grampeadores (!), permitindo apenas o uso de clipes pretos. Recentemente, diversos profissionais que passaram pela marca vêm dando depoimentos nas redes sociais, contando mais sobre o funcionamento do negocio no seu auge e contribuindo para reconstruir a mitologia em torno da grife.

Em 2002, Calvin anunciou sua aposentadoria e a venda da empresa para o conglomerado PVH Corp., pelo valor de aproximadamente 400 milhões de dólares em dinheiro, mais ações.

Francisco Costa/Reprodução

a era Francisco Costa

O mineiro Francisco Costa foi diretor criativo da linha feminina de 2003 a 2016. Sua fase foi marcada por um naturalismo fluido, focado em construção e materiais artesanais. No cargo por mais de uma década, Costa chegou a ser eleito designer feminino do ano por duas vezes no prêmio CFDA.

Calvin Klein SS18/Lillie Eiger

a era Raf Simons

O belga Raf Simons foi diretor criativo de 2016 a 2018, trazendo uma abordagem mais conceitual e focada na cultura pop e arte, buscando inspiração no cinema, com filmes como Tubarão, fazendo parcerias com artistas como Sterling Ruby e na estética americana, com arquétipos como o cowboy, além de mudar o nome da linha fashion de Collection para Calvin Klein 205W39NYC, endereço do escritório da marca. Simons, hoje à frente da Prada ao lado de Miuccia Prada, trouxe para o seu time outros nomes que se tornariam lideranças da indústria: sua equipe incluía Pieter Mulier, hoje na Alaïa, e Matthieu Blazy, hoje na Chanel. Mas sua passagem seria breve, com sua proposta sendo considerada iconoclasta demais para os valores da Calvin Klein.

Pós-Raf, a empresa passou alguns anos sem desfilar, focando apenas no lado mais comercial do negócio. As campanhas das linhas jeans e underwear nunca saíram do zeitgeist, com a estratégia de trazer nomes da música, cinema e esporte, como Justin Bieber, Jungkook, Dakota Johnson, Bad Bunny e Rosalía, para estrelar lançamentos, comprovando na pratica que a formula de celebridades e apelo comercial criada por Calvin continua imbatível.

Veronica Leoni/@collierschorrstudio

a atual fase com Veronica Leoni

Em 2025, a marca decidiu voltar às passarelas e reviver a linha Collection, contratando a italiana Veronica Leoni para assumir a direção criativa. Com passagens por lugares como Céline, durante os anos de Phoebe Philo, e The Row, Leoni é a primeira mulher a comandar a Calvin Klein.

Calvin Klein Collection Primavera 2026 de Veronica Leoni/Juergen Teller.

Sua estreia contou com Calvin Klein, Kate Moss e Christy Turlington na primeira fila, mas, até agora, suas coleções vêm dividindo opiniões, com críticos apontando uma falta de identidade nas criações. Apesar disso, o fenômeno Love Story reacendeu o interesse pela Calvin Klein, impulsionando buscas, tráfego online e até vendas, comprovando que o poder cultural da marca segue ativo.

Recentemente, celebridades como Hailey Bieber, Teyana Taylor, Emma Stone e Sarah Pidgeon optaram por modelos feitos sob medida para aparições no tapete vermelho.