Mulheres representam 50,6% dos inadimplentes no Brasil. Como mudar esse cenário?

por Vitória Fernandes

No Brasil, existem 83,9 milhões de pessoas inadimplentes. Desse total, as mulheres são responsáveis por cerca de 50,6% das dívidas, segundo dados divulgados pela Serasa no último mês. Nós precisamos (e vamos) mudar esse cenário. 

Apesar dos estereótipos, esse número não tem relação nenhuma com as mulheres serem “gastonas” ou não saberem lidar com dinheiro. A verdade é que grande parte do público feminino (34%) ocupa a posição de líder de família e única provedora, o que faz com que os gastos se multipliquem de forma exponencial, deixando de caber no bolso. 

“Nós vemos muitos relatos de mulheres que são chefes da família e tentam equilibrar todos os pratinhos. Seja o pratinho do trabalho, do cuidado com os filhos ou às vezes do cuidado também com os pais, né?”, afirma Larissa Chidiac, especialista da Serasa em educação financeira. “Infelizmente, um desses pratinhos acaba caindo e normalmente é o pratinho das finanças, já que o salário está cada vez mais espremido e ela não tem para onde correr”. 

E é nesse momento que o cartão de crédito e o empréstimo bancário aparecem. Segundo a Serasa, eles correspondem por 27,2% do valor devido pelos brasileiros, enquanto as contas básicas como água, luz e gás ocupam a segunda posição, com 21,1%. 

“O que nós vemos é que, apesar de ser cartão de crédito, não são gastos supérfluos e sim necessidades do dia a dia, como supermercado, farmácia… Ao pagar no cartão, os usuários buscam por mais prazo e muitas vezes optam por pagar o mínimo da fatura, esperando conseguir recuperar no próximo mês, o que muitas vezes não acontece”, diz a especialista. 

Como evitar as dívidas?

Para Larissa, o ponto principal é a organização. Em sua visão, com o aumento da tecnologia e dos aplicativos, muitas pessoas deixaram de lado esse controle das despesas, algo que precisa ser feito de forma periódica. 

“Pega um papel e uma caneta e faça essa conta. É preciso ter claro quanto entra de salário, qual é o seu custo fixo [água, luz, aluguel, alimentação], quando você gasta com lazer e outros tipos de despesas”, conta. 

Com a visibilidade desses gastos, é preciso entender quanto de dinheiro seria possível guardar mensalmente, para a construção da sua reserva de emergência. 

“Antigamente, nós falávamos sobre guardar de 20% a 30% do salário, mas hoje é muito difícil guardar essa quantia. Então, se for possível separar R$ 5 ou R$ 10 por mês, já está ótimo. E o ideal é que, logo que esse dinheiro “sobrar”, ele seja direcionado para algum tipo de investimento de liquidez diária”, explica. 

Com essa estratégia, é possível evitar que o dinheiro se perca novamente no orçamento e, ao mesmo tempo, se houver qualquer emergência, ele estará na mão no mesmo dia. 

Para encontrar esse tipo de investimento, sempre procure por aqueles que possuem resgate D+0 (ou D0). É possível encontrar essa nomenclatura em produtos como Tesouro Selic, CDBs e fundos de renda fixa, além das populares caixinhas e cofrinhos dos bancos. 

Lembre-se, nenhuma quantia é pequena demais. O importante é começar. 

Já estou endividada. Como me organizar para pagar? 

Os dados da Serasa mostram que as mulheres também estão em maior número quando o assunto é renegociação de dívidas (ufa!). Mas, como organizar o orçamento para pagar essas dívidas? 

Segundo a especialista, essas dívidas costumam ser pagas com dinheiro que não estava sendo contabilizado no orçamento mensal, como uma renda extra ou até mesmo o 13º salário. 

“Com essa injeção de dinheiro na carteira dela, é possível se planejar financeiramente e entender qual é a melhor maneira de sair da dívida”, diz Larissa. “E as mulheres, no geral, acabam tendo esse planejamento um pouco mais claro do que os homens, o que explica essa diferença no estudo”. 

Ela complementa que, para a mulher, existe a mentalidade de “agora que paguei minhas dívidas, não quero nunca mais ficar devendo”, o que cria uma motivação a mais. 

A especialista ainda explica que a renda extra tem se tornado uma verdadeira alternativa para os brasileiros. Segundo relatório da empresa, 46% da população usa a renda adicional para complementar o salário mensal, enquanto 26% destina o valor ao pagamento de contas básicas. Já 23% veem na renda extra um caminho para conquistar maior autonomia e estabilidade financeira.

Na visão de Larissa, o meio do ano é o momento perfeito para traçar rotas e preparar o orçamento dos próximos meses. 

“Os brasileiros estão otimistas com o fim do ano e veem uma perspectiva melhor para 2027, o que é muito bom. Mas, não dá para ser otimista sem planejamento. É preciso estar preparado para todas as situações, boas ou ruins”, complementa. 

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