O peso invisível: por que a ansiedade atinge mais mulheres

por Personare

A ansiedade é uma emoção natural, um tipo de alarme interno que prepara o corpo para desafios. Porém, quando desregulada e persistente, ela se transforma em um transtorno, que se manifesta desproporcionalmente entre os gêneros. Sim, a ansiedade atinge muito mais as mulheres do que os homens.

Estudos da OMS e do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) mostram que os transtornos de ansiedade são duas vezes mais frequentes em mulheres. Isso inclui quadros como ansiedade generalizada, pânico e fobia social.

Mas por que isso acontece? A resposta envolve fatores biológicos, psicológicos e, de forma contundente, sociais e culturais. Reconhecer e compreender esses fatores é o primeiro passo para desmistificar essa “epidemia silenciosa” e promover a mudança.

Ansiedade em café: modelo posa de perfil com tricô oversized bege e calça branca, em clima introspectivo junto ao laptop.
Foto: Linnea Levoskin (Reprodução/Instagram)


Principais causas da ansiedade em mulheres

A ansiedade nas mulheres é um fenômeno complexo, que não pode ser atribuído a uma única causa. Vamos explorar 5 dos principais elementos que contribuem para essa realidade. 

Junto com as explicações, trago relatos de pacientes de diferentes idades que exemplificam bem cada um deles.

1. Fatores Biológicos

A ciência tem investigado o papel dos hormônios sexuais femininos e da predisposição genética na maior vulnerabilidade à ansiedade. 

As flutuações hormonais ao longo do ciclo menstrual, na gravidez, no pós-parto e na menopausa são momentos de grandes mudanças no corpo feminino, e estudos indicam que essas variações podem impactar diretamente o humor e a regulação emocional.

Por exemplo, pesquisas mostram que o estrogênio e a progesterona, hormônios predominantes no corpo feminino, podem modular a atividade de neurotransmissores como a serotonina e o GABA, que estão diretamente envolvidos na regulação do humor e da ansiedade. 

Desequilíbrios nesses sistemas neurobiológicos, exacerbados pelas flutuações hormonais, podem contribuir para uma maior sensibilidade à ansiedade.

Além disso, embora menos conclusivo, alguns estudos sugerem que há uma predisposição genética que pode tornar as mulheres mais suscetíveis a ter um “alarme” interno mais sensível.

2. Dupla Jornada

2. Dupla Jornada

Além dos fatores biológicos, o peso das expectativas sociais e das responsabilidades cotidianas é um contribuinte significativo para a ansiedade feminina. 

A dupla jornada de trabalho é uma realidade para a maioria das mulheres, que frequentemente precisam equilibrar múltiplos papéis: mãe, esposa, profissional, dona de casa, cuidadora de pais, entre outros.

Essa sobrecarga de responsabilidades, muitas vezes invisível e pouco valorizada, gera um estresse crônico

Estudos sociológicos e psicológicos apontam para a “carga mental” que recai desproporcionalmente sobre as mulheres, que tendem a ser as principais planejadoras e organizadoras do ambiente familiar e social, além de suas carreiras profissionais. 

Essa tentativa constante de “dar conta de tudo”, sem tempo adequado para descanso ou autocuidado, é uma receita para a exaustão física e emocional, alimentando um ciclo de ansiedade e esgotamento.

“Eu saio do trabalho, pego as crianças na escola, chego em casa, preparo o jantar, ajudo na lição, arrumo a cozinha… Quando finalmente sento, parece que minha cabeça não para. Penso em tudo o que não fiz, no que tenho que fazer amanhã. É uma lista interminável e sinto que nunca sou boa o suficiente, o que me deixa exausta e ansiosa.” – Juliana, 41 anos.

3. Body Shaming e padrões de beleza irreais

A pressão para corresponder a padrões de beleza inatingíveis é outro fator que pesa sobre a saúde mental das mulheres.  Desde cedo, somos bombardeadas com imagens de corpos “perfeitos” em mídias tradicionais e, atualmente, de forma ainda mais intensa nas redes sociais. 

A comparação constante e o “body shaming”, a crítica e a humilhação do corpo alheio, geram insegurança, baixa autoestima e uma profunda ansiedade em relação à aparência. Estudos como esse já comprovaram isso.

Pesquisas sobre o impacto das redes sociais na saúde mental feminina indicam uma correlação entre o tempo gasto em plataformas visuais e o aumento da insatisfação corporal, sintomas de ansiedade e depressão. 

5. Mito da Mulher Perfeita

Por fim, não podemos negligenciar os papéis sociais internalizados que as mulheres são, muitas vezes, compelidas a desempenhar. A ideia de que elas precisam ser “boazinhas”, altruístas, fortes e, acima de tudo, perfeitas em todas as esferas da vida pode ser esmagadora. 

A chamada “Síndrome de Cinderela” – um termo popularizado na Psicologia – descreve essa necessidade de agradar a todos, de ser sempre prestativa e de sacrificar suas próprias necessidades em prol dos outros, esperando por uma recompensa ou reconhecimento.

Essa pressão invisível para a perfeição, a dificuldade em dizer “não” e a internalização de que o valor da mulher reside em sua capacidade de servir e de se doar exaustivamente podem levar a um sofrimento psíquico silencioso, resultando em exaustão emocional, burnout e, claro, ansiedade crônica.

Desafiando a Epidemia Silenciosa

Como vimos, a maior prevalência de ansiedade nas mulheres não é um acaso. É um problema complexo, influenciado por uma interação entre biologia, psicologia e, crucialmente, as pressões sociais e culturais que moldam a vida feminina. 

O que podemos fazer para reduzir a ansiedade nas mulheres? A responsabilidade é coletiva e envolve:

  • Questionar ativamente os padrões de beleza irreais
  • Promover uma divisão de tarefas e responsabilidades mais equitativa no lar e na sociedade
  • Apoiar as mulheres em suas escolhas e em seu direito de priorizar sua saúde mental

Para as mulheres, a mensagem é clara: vocês não precisam ser perfeitas para serem amadas e valorizadas. Portanto:

  • Cuidem de si
  • Priorizem sua saúde mental
  • Não hesitem em buscar ajuda profissional quando necessário. 

Ser forte também é saber pedir apoio. A mudança começa com o reconhecimento, o diálogo e a ação de cada um de nós, construindo um ambiente onde a ansiedade seja compreendida, e não apenas suportada, especialmente pelas mulheres.

Tratamentos e Terapias para ansiedade em mulheres

  1. Fale sobre seus sentimentos com amigos, familiares ou profissionais. Conversar com alguém de confiança pode permitir que você se sinta ouvido e validado, o que reduz o estresse.
  2. Pratique exercícios físicos, mantenha uma alimentação saudável e durma bem. A saúde física está intimamente conectada à saúde mental. O corpo e a mente se influenciam mutuamente, e práticas saudáveis podem ter um impacto direto na redução da ansiedade.
  3. Relaxe! Experimente meditação, yoga, respiração profunda ou mindfulness. Relaxar é um componente essencial no controle da ansiedade. Técnicas como meditação e mindfulness podem ajudar a reduzir os níveis de estresse ao focar a mente no presente, interrompendo o ciclo de pensamentos ansiosos.
  4. Busque ajuda. Se a ansiedade estiver atrapalhando sua vida, procure um psicólogo ou psiquiatra. É fundamental reconhecer que, em alguns casos, a ansiedade pode se tornar debilitante e exigir ajuda profissional. A Psicoterapia oferece um espaço seguro para explorar as causas da ansiedade e aprender estratégias para lidar com ela de maneira eficaz.
  5. Superando o estigma – procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica não significa fraqueza. Ao contrário, é um ato de coragem e autocuidado. A saúde mental merece a mesma atenção que a saúde física, e buscar ajuda é o primeiro passo para um caminho de cura e bem-estar.

Este conteúdo foi escrito por Tatiana Magalhães, psicóloga clínica especialista em psicopatologia e pós graduanda em neuropsicologia. Oferece consultas de psicoterapia online no Personare.