Planejamento sucessório: por que você deveria pensar nisso antes do que imagina

Você já parou para pensar o que vai acontecer com o seu patrimônio quando você não estiver mais aqui? Aquela casa que batalhou tanto para comprar, o carro que foi seu sonho por tantos anos ou mesmo o dinheiro guardado no banco, para onde eles vão?
A resposta óbvia você sabe. Se tiver filhos ou familiares, a sua herança será destinada à eles, por lei. Porém, esse processo pode ser longo, doloroso e muitas vezes resultar em brigas familiares desnecessárias. Os dados não mentem: três em cada quatro casos de inventário envolvem disputas familiares, segundo o Jusbrasil.
É exatamente para evitar situações como essas que o planejamento sucessório existe. Com ele, é possível destinar, em vida, quem serão seus sucessores, ou seja, quem você quer que fique com cada pedacinho do seu legado, independentemente do tamanho dele.
Esse planejamento, que pode ser feito de diversas formas, está sendo cada vez mais procurado pelos brasileiros. Em 2025, o país registrou 38.740 testamentos, o maior volume da história, segundo levantamento do Colégio Notarial do Brasil.
Camila Gozzi, advogada de família e sucessões no Pinheiro Neto Advogados, também notou esse movimento. Segundo ela, nos últimos cinco anos, a procura por esse segmento do direito cresceu de forma significativa — e as mulheres têm forte participação nisso.
“A crescente participação de mulheres nisso é muito visível e combina com a força feminina no mercado de trabalho”, afirma, em entrevista ao O que tem na sua carteira?. “Quando pensamos no cargo de CEO hoje, ele não é ocupado só por homens. Vemos inúmeras mulheres CEOs, tocando bancos e instituições enormes, que estão construindo o seu patrimônio e preocupadas em como organizar o que vai acontecer no futuro”.
Segundo a especialista, o mais comum é que mulheres a partir dos 35 anos procurem por serviços como esse no escritório. Porém, esse dado também está mudando, com o avanço do acúmulo de patrimônio dos jovens.
Como fazer esse planejamento?
Existem alguns formatos utilizados pelo direito brasileiro para essa sucessão. Entre eles estão: testamento, doação em vida, holding familiar, previdência privada… Você provavelmente já deve ter ouvido falar alguns desses nomes, mas cada um tem uma finalidade específica. Entenda os mais utilizados para pessoa física.
Testamento:
Com ele, você define o destino de até 50% do seu patrimônio, ou seja, essa quantia fica com quem você quiser. Porém, os outros 50% são garantidos para os chamados “herdeiros necessários”, que são os filhos, pais e cônjuges.
O ponto positivo é que esse documento pode ser alterado a qualquer momento, permitindo mudanças de ideia de acordo com a fase da sua vida.
Nessa modalidade, será incluído um imposto, o ITCMD (Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação), que varia entre uma alíquota de 2% a 8% sobre o valor dos bens deixados. Esse imposto não é pago por você, e sim por seus beneficiários. Além disso, é preciso incluir os gastos com inventário, que não deixam de existir.
“O testamento é um instrumento que já existe há muito tempo e às vezes é deixado de lado por ser considerado simples, mas ele resolve muitos problemas”, afirma Camila. “Eu sou muito fã de testamento, eu sou muito fã dos instrumentos simples”.
Doação em vida:
A doação em vida é exatamente o que o nome diz: doar seus bens em vida para os seus herdeiros. Com ela, é possível reduzir burocracias como o inventário e possíveis congelamento de bens.
Segundo Camila, muitas clientes chegam ao escritório com essa vontade, de doar em vida, até pela pressão da sociedade de que as mulheres precisam cuidar do futuro dos filhos. Porém, ela afirma que é preciso ter cuidado.
“Eu gosto da doação em vida, mas é preciso ter a garantia de usufruto”, diz.
Ela explica que, na prática, ter o usufruto é ter o direito de utilizar o seu patrimônio em vida, apesar dele já ter sido doado. Ou seja, ninguém vai te tirar de casa ou cobrar aluguel de uma coisa que é sua.
“Eu reservo isso, continuo dona de uma parte, não da propriedade em si, mas podendo usar e fruir daquele bem. Assim, quando eu morrer, o usufruto é extinto automaticamente, e a propriedade se concretiza na mão dessas pessoas que receberam e está tudo certo”, afirma Camila.
Nessa modalidade, os impostos são os mesmos do testamento. A única diferença é que eles são pagos no momento da doação dos bens e não após o falecimento.
Quando começar a pensar nisso?
Kelly Gusmão, Co-Founder & CRO da Ella Wealth, multifamily office direcionado para mulheres, o ideal é começar muito antes do que a maioria imagina.
“Planejamento sucessório não é um assunto para o fim da vida, mas uma etapa natural da construção do patrimônio. A partir do momento em que a mulher começa a acumular bens, investir, empreender ou constituir uma família, já faz sentido organizar como esse patrimônio será protegido e transmitido no futuro”, afirma, em entrevista ao O que tem na sua carteira?.
Kelly relembra, também, que esse planejamento começa muito antes de pensar na transferência de patrimônio. Para chegar lá, é preciso ter organização financeira, governança familiar e preservação de legado, pontos pouco falados.
Pensando na vertical de investimentos, ela afirma que não existe um veículo “correto” para construir e preservar esse patrimônio. Apesar disso, o importante é construir uma carteira diversificada, alinhada aos objetivos familiares, ao horizonte de longo prazo e ao perfil de risco.
“Como cada família possui uma realidade patrimonial, tributária e sucessória diferente, a definição dessa estratégia deve ser personalizada. Por isso, é fundamental contar com uma gestora patrimonial capaz de integrar investimentos, planejamento financeiro e proteção patrimonial”, afirma.
Na sua visão, uma boa estratégia costuma equilibrar três dimensões fundamentais: preservação patrimonial, crescimento do capital e liquidez para diferentes momentos da vida.
“Nesse contexto, a previdência privada merece destaque”, diz. “Muitas pessoas ainda acreditam que ela é destinada apenas aos mais ricos, mas, quando bem estruturada, pode ser um instrumento eficiente do ponto de vista sucessório e tributário. Dependendo da modalidade e da legislação aplicável, ela pode facilitar a transmissão patrimonial e contribuir para a organização financeira da família”.
Nesse mesmo sentido, Kelly lembra que o seguro de vida também desempenha um papel relevante dentro do planejamento sucessório.
“Além de funcionar como instrumento de proteção financeira para a família, determinadas modalidades de seguro de vida de longo prazo podem trazer liquidez imediata aos beneficiários e ajudar a custear despesas relacionadas ao processo sucessório, como honorários, tributos e custos do inventário, sem que os herdeiros precisem antecipar valores significativos do próprio bolso ou liquidar ativos em um momento delicado”, complementa.
Uma opinião é unânime entre as especialistas: a falta de planejamento é o pior cenário para as mulheres. Então, comece a pensar no assunto!

