Por que tantos filmes de terror estão transformando relacionamentos em pesadelos?
Por muito tempo, os monstros do cinema de terror tinham rostos bem definidos: vampiros, demônios, fantasmas e serial killers eram os responsáveis por causar arrepios na nuca do público. Mas, nos últimos anos, uma nova leva de thrillers e filmes de terror parece ter encontrado um antagonista muito mais próximo da realidade. Em vez de apostar apenas no sobrenatural, produções recentes transformam em horror comportamentos que muitas mulheres conhecem bem: controle, manipulação, obsessão e a ideia de que uma parceira existe para atender às expectativas masculinas.
É claro que essas discussões não são exatamente novas para o gênero — basta lembrar de clássicos como O bebê de Rosemary (1968) ou Esposas em Conflito (1975). A diferença é que, agora, elas aparecem com uma linguagem muito mais direta, colocando o comportamento masculino no centro da narrativa e usando o terror como ferramenta para discutir poder, autonomia e relacionamentos.

É exatamente isso que acontece em Acompanhante Perfeita (2025). À primeira vista, o filme parece brincar com os avanços da inteligência artificial ao apresentar Iris, uma robô criada para ser a companheira ideal. Mas basta olhar um pouco além da ficção científica para perceber que a tecnologia nunca foi o verdadeiro assunto da história. O terror está em Josh, que literalmente programa a personalidade da parceira conforme suas necessidades. Inteligência, humor, comportamento, nível de submissão: tudo pode ser ajustado por um aplicativo. A metáfora é bastante clara. A mulher perfeita, na visão dele, é aquela que nunca discorda, nunca impõe limites e existe apenas para corresponder às suas expectativas.
Já em Obsession (2026), o horror assume outra forma. Bear recorre a um graveto mágico de salgueiro para realizar um desejo aparentemente simples: fazer com que Nikki o ame mais do que qualquer outra pessoa no mundo. O problema é que esse amor rapidamente se transforma em uma obsessão absoluta, anulando completamente a autonomia da jovem. Mas o aspecto mais perturbador da história surge quando ele percebe que foi longe demais. Em vez de desfazer o pedido e devolver a Nikki sua liberdade, Bear tenta apenas “ajustar” a magia, buscando uma versão mais conveniente do próprio desejo. Nem mesmo ao ver a garota — e até sua amiga, por quem acreditava estar apaixonado — sofrerem as consequências da possessão, ele cogita abrir mão daquilo que queria.

Essa reflexão ganha ainda mais peso em uma das cenas mais difíceis do filme, quando Nikki é estuprada enquanto permanece presa dentro do próprio corpo, incapaz de reagir ou impedir o que está acontecendo por causa da magia. Ao separar a consciência da personagem de suas ações, Obsession transforma o elemento sobrenatural em uma discussão direta sobre consentimento. Afinal, ainda que seu corpo aparente corresponder aos acontecimentos, a verdadeira Nikki nunca teve escolha — e é justamente nessa ausência completa de autonomia que o filme encontra um de seus comentários mais duros sobre controle, posse e a forma como o desejo masculino pode apagar completamente a vontade da mulher.
Essa tendência também aparece em outras produções recentes. Em Fresh (2022), um encontro romântico aparentemente perfeito se transforma em uma história sobre objetificação feminina levada ao extremo. Em Blink Twice (2024), a crítica mira diretamente o abuso de poder, a cultura do silêncio e a violência contra mulheres. Já O Homem Invisível (2020) reinventa um clássico do terror para mostrar como um relacionamento abusivo continua assombrando suas vítimas mesmo depois do fim, transformando a invisibilidade em uma metáfora para violências que tantas vezes passam despercebidas por quem está de fora.
O ponto em comum entre todos esses filmes é que seus vilões dificilmente se apresentam como monstros logo de cara. Pelo contrário. Eles costumam ser carismáticos, sedutores, atenciosos e, muitas vezes, parecem representar o parceiro ideal. O medo surge justamente quando a narrativa revela que, por trás dessa aparência, existe uma necessidade constante de controlar, manipular e transformar mulheres em extensões dos próprios desejos.

Talvez seja justamente por isso que essas histórias provoquem tanto desconforto. Diferentemente dos monstros tradicionais, elas não exploram um medo distante ou fantasioso. O horror nasce de situações reconhecíveis, inspiradas em comportamentos que fazem parte da realidade de muitas mulheres. No fim das contas, esses filmes sugerem que o verdadeiro terror talvez nunca tenha sido o sobrenatural, mas a ideia de que amor pode ser confundido com posse, cuidado com controle e desejo com direito sobre o outro.
Se antes o cinema perguntava “e se um monstro entrasse na sua casa?”, essa nova geração de thrillers parece fazer uma pergunta muito mais inquietante: e se o monstro já estivesse sentado ao seu lado?

