Por que uma gravidez depois dos 40 anos ainda vira notícia?

por Aldeiaaaaa

Quando Sabrina Sato anunciou sua nova gravidez aos 43 anos, o detalhe que mais se repetia nas manchetes não era exatamente a notícia da gestação, mas a idade da apresentadora. O mesmo aconteceu recentemente com Anne Hathaway, Sienna Miller e tantas outras mulheres que viveram uma gravidez depois dos 40 anos. Sempre que uma celebridade engravida nessa fase da vida, a idade parece se tornar protagonista da história.

Mas por que isso ainda desperta tanto interesse?

Mais do que falar sobre essas mulheres, essa reação diz muito sobre a forma como enxergamos a maternidade. Durante décadas, existiu um roteiro bastante conhecido para a vida feminina: crescer, estudar, casar e ter filhos — tudo isso relativamente cedo. A maternidade costumava acontecer antes da consolidação da carreira, da independência financeira e de muitas outras escolhas que hoje fazem parte da vida adulta.

Só que esse roteiro mudou.

Os dados mostram essa transformação de forma bastante clara. Segundo o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), do Ministério da Saúde, apresentados pelo IBGE, entre 2010 e 2022 o número de nascimentos entre adolescentes de 10 a 19 anos caiu de 552,6 mil para 315,6 mil — uma redução de 42,9%. No mesmo período, os nascimentos entre mulheres de 40 a 49 anos cresceram de 64 mil para 106,1 mil, um aumento de 65,8%.

O próprio IBGE relaciona essa mudança ao aumento da escolarização feminina e à maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Em outras palavras, não foi apenas a idade de ser mãe que mudou. Mudou tudo aquilo que passou a caber antes da maternidade.

Hoje, para muitas mulheres, os anos entre os 20 e os 40 são ocupados por graduação, especializações, crescimento profissional, estabilidade financeira, viagens, novos relacionamentos e diferentes projetos de vida. A maternidade deixou de ocupar, necessariamente, o início da vida adulta e, para algumas, passou a fazer sentido mais tarde.

Ao mesmo tempo, os próprios 40 anos também ganharam um novo significado.

A mulher de 40 retratada pela moda, pela cultura e pela publicidade ocupa um espaço muito diferente daquele reservado a essa idade algumas décadas atrás. Carreira, desejo, estilo, novos relacionamentos, recomeços e, para algumas, a maternidade continuam fazendo parte da narrativa. Não mudou apenas quando se pode ser mãe. Mudou também a ideia do que significa ter 40 anos.

Mas existe um relógio que não acompanha essa transformação social no mesmo ritmo: o biológico.

Embora as possibilidades de escolha tenham aumentado, a fertilidade feminina continua sofrendo alterações naturais com o passar do tempo. Ela começa a diminuir a partir dos 30 anos, com um declínio mais significativo entre os 35 e os 37 anos. Além disso, uma gestação em idade materna mais avançada pode envolver riscos maiores tanto para a mãe quanto para o bebê.

Os avanços da reprodução assistida ampliaram as possibilidades de gravidez, mas não eliminaram os efeitos da idade nem oferecem garantia de sucesso. Como explica a médica Bianca Altieri (CRM 234179), a sociedade mudou muito mais rápido do que a biologia.

Existe ainda uma camada importante nessa conversa que nem sempre aparece.

Dizer que “as mulheres estão escolhendo ser mães mais tarde” pode esconder uma desigualdade profunda. Porque escolher pressupõe condições. Acesso à informação, métodos contraceptivos, atendimento de saúde, renda, estabilidade financeira e planejamento reprodutivo ainda estão longe de ser uma realidade para todas. Adiar a maternidade também pode ser um privilégio.

Talvez, então, a pergunta não seja por que tantas mulheres estão sendo mães depois dos 40.

A pergunta mais importante seja: quem realmente pode escolher quando ser mãe?

Hoje convivem, ao mesmo tempo, duas histórias diferentes. A de mulheres que conquistaram mais autonomia para decidir quando a maternidade cabe em suas vidas. E a de milhões de outras mulheres cuja decisão continua profundamente atravessada pelas condições sociais, econômicas e estruturais em que vivem.

As duas histórias fazem parte da transformação da maternidade no Brasil.

Por isso, uma gravidez aos 40 pode até continuar virando manchete. Mas a história mais interessante está fora dela. Está nas mudanças da vida das mulheres, nas novas possibilidades que foram conquistadas e, principalmente, na distância que ainda existe entre poder desejar e realmente poder escolher.

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