Precisamos falar sobre métodos contraceptivos: DIU

por Lara Lincoln

O ano era 1962 e o Dispositivo Intrauterino - para as íntimas, DIU -  chegava oficialmente ao mercado dois anos após o début da pílula anticoncepcional. Apesar de parecer um método inovador, tentativas similares à implementação do DIU já marcavam o histórico dos métodos contraceptivos. De acordo com a farmacêutica Bayer, possivelmente, o primeiro dispositivo intrauterino foi usado em pacientes há mais de 2.500 anos, quando objetos de chumbo eram implantados no útero causando extremo desconforto e dor para as mulheres. 

O primeiro DIU clinicamente aceito, nomeado como “Alça de Lippes”, só foi amplamente adotado no início da década de 60 e reforçava a liberdade sexual das mulheres que passavam a ter mais um método disponível para a sua escolha. De acordo com Quetie Mariano, coordenadora Pedagógica do curso de Educação, Saúde e Terapia Sexual no Hospital Pérola Byington, o DIU não teve o mesmo impacto social da pílula com a sua chegada, que foi a responsável por toda mudança no cenário sexual e social da época. No entanto, as polêmicas religiosas em relação ao dispositivo eram muito significativas. “O DIU chegou e revolucionou no sentido de ter uma segunda proposta de método contraceptivo e, claro, ter essa opção de escolha do método empoderou ainda mais as mulheres socialmente e sexualmente”, contou Quetie. 

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Ainda segundo a sexóloga, o DIU foi considerado por muito tempo (sem qualquer base científica), abortivo pela sociedade e igreja. Acreditava-se, erroneamente, que durante uma relação sexual o óvulo era fecundado pelo espermatozóide e o DIU apenas impedia que o óvulo fecundado chegasse ao útero, dessa forma, tornando-se, abortivo. De acordo com um estudo sobre a “História da Ciência”, da PUC-SP, a postura da igreja sobre o DIU era rígida: tratava-se de um método abortivo e inaceitável, portanto, sem maiores necessidades de debates. Diferente da pílula, em que alguns cristãos alegavam ser uma importante arma contra o aborto e para o bem-estar sexual do casal. 

Após diversas explicações e comprovações da comunidade científica sobre o real funcionamento do DIU, reforçando que o dispositivo tem como função impedir a fecundação entre óvulo e espermatozóide (e não a implantação do óvulo fecundado no útero), o método começou a ser mais bem aceito socialmente. 

Mesmo com tantas comprovações científicas, o DIU ainda não é um método de primeira escolha se comparado com a pílula. Segundo um estudo realizado pela Bayer, com apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Thing About Needs In Contraception, envolvendo 7.140 pacientes, apenas 10% utilizam DIU de cobre, DIU hormonal ou implante hormonal. O estudo também mostra que 33% das brasileiras recorrem à pílula como método anticoncepcional. Segundo Ilza Monteiro, ginecologista da Unicamp, membro da diretoria da Febrasgo e uma das autoras do estudo, estamos diante de uma época na qual temos tecnologias contraceptivas excelentes que não são aproveitadas por falta de informação e acesso.

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No entanto, observa-se o DIU cada vez mais presente em realidades de mulheres que procuram alternativas anticoncepcionais com taxas de hormônio mais baixas (ou até opções não hormonais, como os DIU de cobre e cobre+prata) e também que desejam maior praticidade no dia a dia, já que o dispositivo entra na categoria de métodos contraceptivos de longa duração, definidos como aqueles que apresentam durabilidade igual ou superior a 3 anos. 

 

Diferentes tipos de DIU 

Atualmente, existem diferentes tipos de DIU para as diversas necessidades e preferências de cada mulher, como: DIUs de cobre, DIU de cobre + prata e o DIU hormonal, conhecido popularmente por Mirena e Kyleena. “A principal diferença entre eles é a presença de hormônio ou não, seu tempo de contracepção que pode variar de 3 a 10 anos e o tamanho do dispositivo”, explica Heloisa Marçon, ginecologista e obstetra especialista em reprodução humana no Hospital Pérola Byington.  

O funcionamento também é diferente: o DIU de cobre diminui a eficácia dos espermatozoides, pois libera íons de cobre que imobilizam o esperma e dificultam sua motilidade em torno do útero. Esse tipo de dispositivo fornece proteção durante um período, aproximado, de 10 anos. O DIU de cobre é composto por plástico mas revestido somente com cobre ou com cobre e preta.

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Já os DIUs hormonais, por ação do hormônio levonorgestrel (um tipo de progesterona), atuam por meio da liberação contínua de uma dose baixa de progesterona no útero. Sendo assim, ele torna o muco do colo uterino mais espesso, o que dificulta a motilidade do esperma para alcançar o óvulo. O DIU hormonal fornece proteção durante 5 anos. 

De acordo com a ginecologista, Heloísa Marçon, o corpo também reage de maneiras diferentes aos tipos de DIU. “Os DIUs não hormonais (cobre, cobre + prata) podem levar a um aumento do fluxo menstrual e dismenorréia (cólica no período menstrual). Já os DIUs hormonais geralmente diminuem o sangramento e as cólicas, porém podem aumentar a oleosidade da pele e levar ao aparecimento de acne”, explica.

É importante reforçar que os diferentes tipos de DIU, sejam eles hormonais ou não, apresentam uma eficácia de 99%. O acompanhamento periódico com a sua ginecologista é essencial para verificar as condições e posicionamento do dispositivo e, também, acompanhar a aceitação do DIU pelo corpo, principalmente no primeiro ano de uso. 

Procedimento de implantação 

Segundo a Dra. Heloísa Marçon, a colocação do DIU pode ser realizada no consultório médico (sem anestesia ou anestesia local) ou em ambiente hospitalar (com sedação), isso irá depender do limiar de dor de cada paciente. A inserção é bem simples, porém, pode ser um pouco desconfortável e causar cólicas. É realizado a histerotomia (medição do tamanho da cavidade uterina), e então é liberado o dispositivo dentro do útero. 

Após o procedimento, aconselha-se realizar um ultrassom para avaliar a posição do DIU dentro do útero e após 30 dias (não obrigatório), realizar um novo ultrassom.  Após isso, o controle do DIU é feito anualmente. “A colocação é rápida, em menos de 5 minutos já é feito todo o procedimento. Converse bem com seu ginecologista para decidir qual a melhor forma de inserção: sem anestesia no consultório? com sedação?”, explica Heloísa.

A melhor época para a inserção do DIU é durante o período menstrual, momento em que o colo uterino está mais entreaberto e há, teoricamente, a certeza de ausência de gravidez. No entanto, garantindo a ausência da gravidez, o DIU pode ser inserido a qualquer momento. Possui como pré-requisito para a sua colocação a realização de um exame ginecológico minucioso para a exclusão de processos inflamatórios, gravidez ou malformações uterinas.

No primeiro mês de uso é mais comum as pacientes apresentarem sangramentos frequentes, cólicas mais intensas e existe um risco maior de infecção e expulsão do dispositivo. Após esse período geralmente o organismo já se adaptou e esses sintomas melhoram.

O DIU é contraindicado em casos de gravidez, doença inflamatória pélvica (DIP), DST atual ou nos últimos 3 meses, alergia ao cobre, infecção pós parto, pós aborto infectado, alterações anatômicas na cavidade uterina, sangramento vaginal sem diagnóstico, câncer de colo uterino ou de endométrio, doença trofoblástica gestacional (mola hidatiforme), câncer de mama (para os DIUs com progesterona).

É importante procurar um médico caso sintomas como febre, calafrios, inchaço na região genital, cólicas abdominais fortes e sangramento durante as relações sexuais sejam percebidos. Dessa forma, o seu médico poderá avaliar o posicionamento do DIU, a saúde da paciente e tomar as medidas necessárias. 

Mulheres diferentes, experiências diferentes

Não existe um método contraceptivo feminino que seja 100% bem aceito no organismo de todas as mulheres. Cada mulher possui suas características físicas próprias, necessidades e, principalmente, realidades que façam sentido dentro do que cada método anticoncepcional proporciona. Muitas escolhem a pílula, por exemplo, por ser uma opção mais acessível e que não demanda um procedimento de implantação em consultório, outras preferem o DIU de cobre ou cobre + prata por apostarem em uma opção livre dos hormônios presentes em pílulas, já um outro nicho, escolhe o DIU de hormônio pela praticidade do dia a dia ao abrirem mão de uma rotina contraceptiva diária mas estão dispostas a terem um nível hormonal no corpo para a contracepção. 

Assim como qualquer outro método, o corpo feminino pode reagir de diversas maneiras ao DIU, por isso, trouxemos as experiências de duas mulheres que tiveram reações e opiniões diferentes em relação ao contraceptivo: nossas co-fundadoras do STL, Catharina Dieterich e Manuela Bordasch. A Catha escolheu o DIU de cobre + prata, enquanto a Manu usou dois métodos, primeiro o DIU de cobre e, depois, o Mirena. 

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STL: Por que você escolheu o DIU como método contraceptivo? Foi alguma motivação por deixar a pílula anticoncepcional de lado?

Catha: “Por 4 motivos principais, o primeiro é que já tomava pílula anticoncepcional há 17 anos (com idas e vindas) e sabia o quão mal ela fazia para mim. O segundo é porque buscava um método contraceptivo mais prático, eu sempre odiei o compromisso de tomar algo todos os dias, já o terceiro era a contracepção em si. O quarto e, último motivo, era o fato de encontrar algo em que conseguisse sentir o meu corpo, meus ciclos e minha líbido sem ter qualquer hormônio bloqueando.”

Manu: “Eu tomei pílula por mais de 10 anos seguidos e sempre foi super tranquilo, porém, nos últimos anos com o anticoncepcional comecei a ter muito melasma. Por indicação médica resolvi testar o DIU de cobre buscando uma melhora no melasma.” 

(algumas mulheres que usam pílula anticoncepcional, principalmente as que possuem altas doses de hormônios, podem apresentar melasma, uma dermatose na qual as células produtoras de melanina atingem seu ápice de atividade e criam manchas na pele).

STL: Como foi o período de adaptação pós-DIU? Como seu corpo reagiu aos primeiros dias?

Catha:Nos 3 ou 4 primeiros dias eu tive bastante cólica e fiquei inchada. Depois, nos primeiros meses, próximo à data da minha menstruação, eu tive cólica - que nunca tive na vida enquanto tomava pílula. Ainda sinto um pouco de cólica todo mês, mas não é nada muito forte.”

Manu: “Tive muita cólica nos dois primeiros meses mas depois passou completamente. Porém, tive três grandes problemas com o DIU de cobre. O primeiro deles foi o aumento no fluxo e na duração desse fluxo em que passei a menstruar 13 dias por mês. O segundo foi em relação à pele, nunca tinha tido acne na vida e tive acne adulta. Com isso, comecei um tratamento com roacutan (onde contei todo o meu processo em uma matéria aqui no STL). A terceira, e maior complicação, foi a descoberta de um mioma de 3cm (que deveria ter sido localizado antes da implantação do DIU e visto como uma contraindicação). O aumento do fluxo, causado pelo DIU, pode acelerar o crescimento do mioma e foi exatamente isso que aconteceu no meu caso: ele passou de 3 para 14 cm em um ano. Precisei operar e na cirurgia aproveitei para trocar para o Mirena, que já estou usando há um ano. Estou passando por uma nova adaptação e, ao invés de um fluxo muito alto, passei a praticamente não menstruar. Ainda penso em mudar mais uma vez e até voltar para pílula ou não usar um método de contracepção feminino (o que seria o ideal), porém,  não tomei essa decisão por mil receios. O de engravidar com certeza é o maior, pois não é algo que eu planejo para agora.”

STL: Você sentiu diferença em relação à libido, pele acneica e oleosidade? Demorou para o seu corpo encontrar um equilíbrio em relação a essas respostas fisiológicas?

Catha: “Sim. A libido aumentou, sem dúvidas, e eu sinto o meu ciclo. Sinto as fases dele, tenho mais tpm, sei em qual momento do mês estou! Até hoje a minha pele é mais oleosa (o cabelo também). E já faz mais de dois anos que parei com a pílula. Sinto que isso não vai nunca mais ser a mesma coisa do que quando eu tomava a pílula.”

Manu: “Completamente. Como mencionei anteriormente, tive acne adulta e mexeu muito com a minha autoestima mas resolvi relativamente rápido. O ponto muito positivo foi em relação à libido. Nunca tive problema em relação a isso, mas não existe comparação ao quanto ela aumentou sem o anticoncepcional. Lógico que não é uma regra, mas com todas as amigas que eu conversei relataram a mesma experiência depois de largar o anticoncepcional. 

STL: O processo de implantação do DIU foi doloroso? 

Catha: “Eu coloquei o diu ano passado, com anestesia e no hospital, pois eu não estava menstruada e, normalmente as ginecologistas não colocam na clínica (sem anestesia), a não ser que a pessoa esteja no período menstrual. Minha dica é colocar no hospital com anestesia, claro que cada mulher reage de uma forma, mas já recebi muitas mensagens de mulheres que tiveram muita dor sem a anestesia.”

Manu: “O de cobre eu coloquei no consultório mesmo. Não é a melhor sensação do mundo, mas foi super suportável. Já o Mirena foi durante a cirurgia do mioma, então eu estava sedada e não senti nada.”

STL: Cada método contraceptivo se adapta ao corpo de cada pessoa de maneira diferente, para você, o DIU foi uma boa opção?

Catha: “Muito! Não me arrependo e indico o de cobre ou cobre + prata principalmente por não ter hormônios.”

Manu: “Confesso que eu não tenho uma resposta. Eu acho que todos vão ter pontos negativos e positivos. Não me arrependo de ter trocado, mas não acredito que eu tenha encontrado o método ideal pra mim ainda. Acho que tudo é uma questão de prós e contras e tenho amigas que se dão muito bem com métodos completamente diferentes. Hoje, por todos os relatos: melasma, libido, acne, fluxo, mioma, entre outros pontos, o Mirena está sendo o melhor. Mas é uma decisão muito pessoal e que pode mudar completamente para cada mulher.”

A busca pelo fim hormonal nos métodos contraceptivos 

Desde a chegada da pílula no início dos anos 60, nós mulheres temos disponíveis diversos métodos contraceptivos exclusivamente femininos, como: implante anticoncepcional, adesivo, anticoncepcional injetável (vacina), diafragma vaginal, anel vaginal, DIU, pílula anticoncepcional, entre outros que foram desenvolvidos e pensados exclusivamente para a biologia reprodutiva feminina, contra dois exclusivos para o homem (camisinha e vasectomia). 

Atualmente, percebemos uma crescente não apenas no interesse de mulheres pela escolha do melhor anticoncepcional, como também um maior questionamento sobre a composição de cada método, principalmente em relação aos hormônios responsáveis por alterações no humor, libido, ciclos menstruais, respostas biológicas como inchaços nos seios e retenção de líquido. Afinal, quantas de nós mulheres realmente percebemos e sentimos nosso corpo e ciclos? Anos e anos de contraceptivos hormonais, claro, nos permitiram liberdade sexual mas nos tiraram a proximidade com sensoriais que perdemos no meio do caminho com os anticoncepcionais.

Relatos de mulheres que usam anticoncepcionais hormonais há anos e que se queixam de fortes variações de humor se tornaram cada vez mais frequentes. A depressão, por exemplo, é um dos efeitos colaterais da pílula que, inclusive, inclui “estados depressivos” em letras miúdas da bula. Mas as alterações de humor não ficam restritas apenas à pílula, um estudo a longo prazo com mais de 1 milhão de mulheres na Dinamarca indica que alguns anticoncepcionais hormonais estão associados a um risco pequeno, mas evidentemente mais alto, de depressão em relação às mulheres que não usam métodos hormonais.

Segundo reportagem do Huffpost Brasil, um estudo da Universidade de Copenhague, que acompanhou mais de 1 milhão de mulheres entre 15 a 34 anos, observou que 55% das mulheres e adolescentes que utilizavam anticoncepcionais hormonais, também tomou antidepressivos ou recebeu diagnóstico de depressão. Os anticoncepcionais incluíam pílula, adesivo, anel vaginal e DIUs hormonais. 

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A pesquisa não estabelece de forma definitiva que medicações hormonais causem depressão, porém, existem associações prováveis devido ao grande número de mulheres estudadas que tiveram casos depressivos combinados ao uso de anticoncepcional hormonal.

Portanto, fique atenta às variações de humor a partir do uso dos anticoncepcionais e escolha quais métodos se adaptam melhor ao seu corpo, estilo de vida, prioridades e objetivos. É inegável a importância do anticoncepcional para a prevenção da gravidez e o quão significativo é termos tantas possibilidades para a escolha. Porém, muita das decisões ainda se restringem à pílula, considerada um dos métodos principais pelo fácil acesso, compra facilitada, tempo de mercado e por ser um método passado de “mãe para filha”. A falta de informação em relação às possibilidades ainda é muito presente, principalmente quando falamos em opções não hormonais. Converse com o seu médico, se possível, para decidir o melhor contraceptivo para você e lembre-se: tenha consciência, use camisinha - ela ainda é o único método de prevenção à DST.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES: 

O SUS disponibiliza o DIU de cobre em Unidades Básicas de Saúde e Hospitais com atendimento ginecológico. É importante pesquisar a UBS mais próxima da sua casa e ligar para descobrir se o procedimento está disponível. Em matéria no G1, é possível conferir todos os passos a serem seguidos para colocar o dispositivo de forma gratuita. 

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