Precisamos falar sobre métodos contraceptivos: pílula!

por The Look Stealers

9 de maio de 1960, a primeira pílula anticoncepcional, Enovid, chegava ao mercado americano revolucionando o comportamento sexual feminino. As mulheres conquistavam o seu direito da escolha do momento da maternidade e, com o uso do anticoncepcional, reforçavam o sexo como prazer e não apenas para fins reprodutivos. 

Comemorava-se mais uma conquista para o feminismo que ganhava um anticoncepcional exclusivamente feito para mulheres, já que até então, tínhamos apenas a camisinha disponível como contraceptivo. “A pílula teve um papel fundamental na emancipação feminina, as mulheres conseguiram ter muita liberdade para exercer sua sexualidade de forma plena e sem tanta preocupação”, explica a sexóloga e psicóloga Quetie Mariano, coordenadora Pedagógica do curso de Educação, Saúde e Terapia Sexual no Hospital Pérola Byington. 

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A pílula se consolidou nos EUA, seguindo da Europa e dominando o cenário ocidental, sendo de extrema importância para o movimento do “Sexual Revolution”, na época do Woodstock. Já no Brasil, a medicação chegava em 1962 com forte resistência e em período de efervescência política. Inicialmente, só era possível o acesso ao anticoncepcional com a liberação do marido, o que limitou a pílula apenas às mulheres casadas. De acordo com Quetie, existiu e ainda existem tabus em relação à pílula já que sua chegada foi o momento no qual a mulher conseguiu fazer o link entre vida profissional e exercício da sexualidade de forma autônoma em que a maternidade só viria no momento mais apropriado.  

Maio de 2020, 60 anos depois do Enovid ser comercializado, temos 10 métodos anticoncepcionais disponíveis para mulheres. O que causa grandes questionamentos: a pílula ainda é a melhor opção? Quais são os riscos de seus altos níveis hormonais para a saúde feminina? O acesso à pílula é eficaz em diferentes classes sociais? A libido é prejudicada? Quais são os custos? Essas são só algumas das perguntas que cercam o tema e nos fazem refletir sobre as melhores opções contraceptivas atuais. 

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Foto: Foto: (Frasco de Enovid, primeira pílula comercializada em 9 de maio de 1960.)

Vivendo exatamente neste cenário, começamos a série “Precisamos Falar Sobre Métodos Contraceptivos” aqui no Steal The Look. O assunto virou pauta quando Eu, Lara Lincoln, e Joana Sondermann - minha dupla dinâmica de comercial! - começamos uma conversa despretensiosa sobre o quanto gastamos em pílula anticoncepcional e o resultado dessa conta assustou: R$ 5.212,00 em 10 anos de medicação para cada uma de nós

Além do impacto financeiro ao longo desses anos, a reflexão parte para outros patamares: durante 10 anos de pílula anticoncepcional, me peguei pensando sobre como não conheço o meu corpo. Será que eu realmente sou essa pessoa em relação à líbido ou muito das minhas atitudes sexuais (ou melhor, não atitudes sexuais) são consequência de anos ininterruptos de medicação? Fui atrás de uma ginecologista para me explicar um pouco mais sobre esse e outros pontos sobre a pílula. 

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“Os anticoncepcionais que contém estrogênio em sua composição fazem o fígado produzir uma quantidade grande de uma substância chamada SHBG (proteína carregadora de hormônios sexuais). Essa proteína se liga a nossa testosterona, diminuindo a quantidade livre deste hormônio no organismo”, explica Heloisa Marçon, ginecologista e obstetra especialista em reprodução humana no Hospital Pérola Byington.  

Porém, mesmo com o hormônio sendo um dos responsáveis pela diminuição do desejo sexual, esse desejo também é afetado por fatores psicológicos e emocionais. “Por questões hormonais, a pílula pode tirar um pouco da resposta natural e fisiológica ao sexo, mas, se tiverem estímulos na relação e motivação para exercer a sexualidade, nosso corpo irá responder a esses estímulos”, complementa a sexólga Quetie Mariano. 

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Foto: Pílulas anticoncepcionais Volidan nos anos 60. (Mirrorpix / Getty Images / Buzzfeed Brasil)

Fica, assim, o questionamento sobre a saúde sexual mental: nós mulheres estamos abertas ao sexo sem barreiras sociais e preconceitos? Afinal, conquistamos o direito ao anticoncepcional próprio, mas ao longo de muitos anos fomos colocadas - e ainda somos - em papéis completamente diferentes em relação ao próprio corpo e sexualidade do que a realidade masculina. Precisamos ser livres, amar nosso corpo de dentro para fora e nos jogarmos nas infinitas possibilidades e prazeres do sexo consensual. 

Fora todas as questões sobre desejos sexuais, também existe o uso da pílula sem acompanhamento profissional. Muitas das mulheres, principalmente em classes mais baixas, fazem o uso da pílula sem consultas periódicas ao ginecologista. “O ideal é consultar-se com seu ginecologista ao menos uma vez ao ano para avaliar a necessidade de manter a pílula, mudar para algum outro método que melhor se encaixe no seu estilo de vida atual ou até mesmo interromper a medicação”, explica Heloisa Marçon. 

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Foto: Publicidade do anticoncepcional Yasmin, um dos mais conhecidos até hoje no mercado farmacêutico. (Reprodução)

Com isso, muitas de nós optamos pela pílula simplesmente por rotina, sendo que nem sempre ela é o método mais indicado dentro da nossa realidade. Afinal, ressalto à pergunta: como seria a minha relação com o sexo e com o meu corpo sem o uso por tantos anos de pílula? 

Outras preocupações afligem mulheres que utilizam o método anticoncepcional: quais são os riscos de trombose e outras complicações relacionadas à pílula. De acordo com Heloisa Marçon, existe um risco, porém baixo, para trombose em usuárias de  anticoncepcionais com estrogênio em sua formulação (anticoncepcional combinado – estrogênio + progesterona).

 “A cada 10.000 mulheres, 4 a 5 terão um evento tromboembólico ao longo de 1 ano; nas pacientes que utilizam um anticoncepcional combinado (com estrogênio e progesterona) a cada 10.000 mulheres 8 a 9 apresentarão um quadro de trombose”, explica Heloisa. No entanto, existem outros fatores de risco mais expressivos e indicativos para trombose do que a pílula, como sedentarismo, tabagismo, obesidade, diabetes, câncer, idade superior aos 40 anos, genética, entre outros fatores. 

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Vale a ressalva sobre a evolução hormonal das pílulas anticoncepcionais, “do primeiro anticoncepcional formulado até os dias atuais, várias gerações de medicamentos foram lançadas, sempre em busca dos melhores resultados e das menores taxas de efeitos colaterais”, conta a médica ginecologista. De acordo com Heloísa, isso só foi possível devido às dosagens hormonais cada vez mais baixas, mas sempre preservando o efeito contraceptivo da medicação. 

Em sua maioria, as pílulas atuais possuem uma dose de hormônio muito menor do que as antigas e podem até contribuir para promover alguns benefícios dependendo de sua composição como: diminuição do sangramento menstrual, melhora a cólica do período menstrual, controle de oleosidade e acne e melhora dos sintomas relacionados à endometriose. Esses benefícios são fatores de grande destaque para a escolha da pílula como método contraceptivo por diversas mulheres.

Atualmente, existem inúmeros métodos contraceptivos disponíveis no mercado para a escolha da mulher contra dois exclusivo para homens: camisinha e vasectomia. Não existe uma medicação anticoncepcional para o corpo masculino, o que nos leva a pergunta: os homens estão prontos para assumir o lugar de contracepção em uma relação? Afinal, mesmo com todos os avanços sociais e da medicina para a liberdade sexual feminina, somos nós, mulheres, as grandes responsáveis pela contracepção e carregamos a responsabilidade de dependermos de medicamentos com hormônios e efeitos colaterais para prevenirmos uma gravidez indesejada - mas essa é uma discussão muito maior para outra hora! 

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Foto: Tomar pílula há 10 anos já a tornou onipresente no meu dia a dia. (Lara Lincoln)

Por fim, entre diversos pontos levantados por Heloisa Marçon, ginecologista e obstetra, e Quetie Mariano, sexóloga e psicóloga, um se destaca pela opinião comum entre as duas: os benefícios da pílula e o que ela representa socialmente são superiores aos malefícios da medicação. Sua existência representou uma das maiores evoluções sexuais para a mulher e questionou o momento da maternidade de uma forma na qual não havia se visto tão forte antes de 1960. Fica a critério da mulher escolher o método que mais funcione para  seu corpo.

Mas antes de fechar essa matéria, um recado importante para todas nós: a pílula, assim como outros métodos anticoncepcionais femininos, não pode ser utilizada sozinha. Tenham consciência, usem camisinha - ela ainda é o único método de prevenção à DST.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES: 

O SUS prevê a distribuição de 8 tipos de métodos contraceptivos: os preservativos masculino e feminino, pílula combinada, anticoncepcional injetável mensal e trimestral, DIU de cobre, minipílula, anticoncepção de emergência e o diafragma. O primeiro passo para ter acesso às medicações fornecidas pelo governo é procurar a UBS mais próxima de sua casa e agendar uma consulta com o ginecologista

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