Precisamos falar sobre o uso de hormônios para fins estéticos

por The Look Stealers

Se você passa algum tempo nas redes sociais, provavelmente já se deparou com conteúdos que associam corpos extremamente definidos a rotinas de alta performance, disciplina e foco. Por conta disso, o uso de hormônios para fins estéticos parece cada vez mais normalizado, mas especialistas alertam que essa conversa costuma deixar de lado os riscos.

Segundo a Dra. Raquel Martins, médica pós-graduada em endocrinologia, a popularização desse tipo de conteúdo faz com que muitas pessoas enxerguem os hormônios como um caminho comum para alcançar determinados padrões estéticos.

“Hoje existe uma exposição muito maior de resultados rápidos, corpos extremamente definidos em rotinas vendidas como alta performance nas redes sociais.”

A médica explica que as plataformas digitais costumam destacar apenas os resultados visíveis, enquanto os efeitos colaterais raramente recebem a mesma atenção. Isso acaba contribuindo para uma percepção distorcida sobre o que é natural ou facilmente alcançável.

“Quando uma pessoa vê repetidamente corpos muito fora da média sendo apresentados como naturais ou fáceis de alcançar, ela começa a normalizar intervenções agressivas”, explica.

hormônios para fins estéticos
Wellness Stream Health/Pinterest

Uma das maiores confusões sobre o tema é tratar reposição hormonal e uso para estética ou performance como se fossem a mesma coisa. A Dra. Raquel Martins esclarece que a reposição hormonal é um tratamento médico indicado para corrigir uma deficiência hormonal comprovada por avaliação clínica e exames laboratoriais, enquanto o uso estético busca promover mudanças corporais, muitas vezes com doses que ultrapassam os níveis fisiológicos.

Embora os hormônios tenham papel importante em tratamentos como menopausa, hipogonadismo, hipotireoidismo, puberdade atrasada e alguns casos de infertilidade, a especialista reforça que a indicação deve sempre partir de uma avaliação médica individualizada.

O uso de hormônios sem necessidade clínica ou sem supervisão adequada pode afetar diferentes sistemas do organismo. “Os riscos possíveis são aumento de pressão arterial, remodelamento do coração, alteração do colesterol, infertilidade, acne, queda de cabelo, alteração menstrual e trombose, dentre outros.”

Além dos impactos físicos, a médica destaca um efeito que costuma ser menos discutido. “Um risco muito comum que vejo no dia a dia é o da dependência psicológica do hormônio.”

o mito da dose baixa

A crença de que pequenas doses seriam automaticamente seguras é uma das mais comuns quando o assunto é hormônio. Mas a Dra. Raquel Martins alerta que o risco não depende apenas da quantidade utilizada.

“O risco não depende apenas da dose, mas também da resposta individual, predisposição genética, tempo de uso, combinação das substâncias e doenças pré-existentes.” Por isso, não existe uma dose universal considerada segura para todas as pessoas. 

Outro ponto importante é que alguns efeitos podem permanecer mesmo após a interrupção do uso. “Podem ocorrer infertilidade, alterações cardíacas, perda de cabelo, ginecomastia, alteração de voz, aumento do clitóris, disfunção hormonal mesmo após a interrupção do uso e até alterações psiquiátricas.”

hormônios para fins estéticos
Susanne Schmalhofer/Pinterest

o que muda para as mulheres?

Segundo a especialista, para as mulheres, há possíveis efeitos colaterais que podem ser permanentes. “Impactos comuns incluem irregularidade menstrual, acne, aumento da oleosidade da pele, queda de cabelo acentuada e muitas vezes irreversível, crescimento de pelos em regiões indesejadas, alteração irreversível da voz e aumento do clitóris.”

A Dra. Raquel Martins afirma que não existe prescrição responsável sem avaliação clínica detalhada e exames. “Não tem como um médico ser responsável se ele prescreve uma medicação hormonal sem avaliação clínica detalhada e sem exames.”

Além disso, um acompanhamento sério não promete resultados rápidos nem transformações milagrosas. O papel do médico também é avaliar quando os riscos superam os possíveis benefícios.

Em um cenário em que o uso de hormônios é frequentemente apresentado como um atalho para determinados padrões estéticos, a médica reforça que é importante lembrar que hormônios são medicamentos. “Hormônio administrado é uma medicação e toda medicação precisa de indicação, contexto e acompanhamento.”

Por fim, é importante ressaltar que eles podem ser aliados, mas sempre com acompanhamento. “Os hormônios, quando bem indicados e utilizados com responsabilidade, melhoram a qualidade de vida, mas quando usados sem critério podem trazer consequências sérias, permanentes e com risco de vida.”