Será que as pessoas estão voltando a falar sobre regras de etiqueta?

por Isadora Abreu

Passar pelo feed das nossas redes sociais favoritas pode ser uma caixinha de surpresas em relação aos assuntos abordados. Alguns temas são mais efêmeros e duram poucos dias nos trending topics, outros parecem persistir e até se conectarem com padrões maiores de comportamento fora das telas, seja na moda, no consumo, entre outros.

Old money, etiqueta à mesa, sofisticação, quiet luxury, capital cultural e o viralizado mais recente “coisas que eu acho chique”, onde pessoas listam formas de vestir, comportamentos, hábitos alimentares e até formas de falar que as fazem olhar para alguém com admiração. Assuntos que contornam o universo da “elegância” de alguma forma parecem estar recebendo cada vez mais atenção de gerações mais jovens. Todo esse movimento nos levantou uma curiosidade: será que as pessoas estão voltando a falar sobre regras de etiqueta? 

Regras de etiqueta em mesa posta bege com louça branca ondulada, talheres prateados e mãos com pulseiras douradas ajustam

Foto: Queremos saber por que o Tiktok está interessado em regras de etiqueta (Reprodução/Pinterest)

se estão falando, por que as regras de etiqueta estão em alta?

Talvez para algumas pessoas o assunto seja rotineiro e as boas maneiras à mesa sejam uma cobrança muito natural. Cruzar os talheres ao terminar a refeição, garfo na mão esquerda e faca na mão direita, não apoiar os cotovelos na mesa, como segurar a taça de vinho são pequenos hábitos que podem ser citados como exemplo de etiqueta e vem aparecendo como ensinamentos entre influenciadores do nicho nas redes sociais, com perfis que ultrapassam 15 milhões de curtidas.

Mas quando falamos de outros hábitos que tradicionalmente fazem parte do “livrinho de etiqueta”, como aguardar que o homem faça o pedido de uma mulher em um restaurante, eles soam ultrapassados, como se não fizessem mais sentido para o estilo de vida que levamos hoje. Outros como esperar que todos estejam servidos para começar a comer parece simpático e educado.

Enquanto o TikTok vende o desejo do quiet luxury, não podemos ignorar também que as regras de etiqueta não são um manual que fez parte da criação da maioria dos brasileiros. Muito pelo contrário: a maioria das famílias estava olhando para o momento da refeição como um momento de descontração e reposição de energia das atividades que vieram do dia ou ainda estavam por vir. Para quem cresceu em lares onde o jantar era o único momento de reunir todo mundo após a jornada de trabalho, a posição dos talheres parece uma preocupação de outro planeta. Nessas mesas, o sinal de que a refeição terminou era simplesmente o prato vazio e a satisfação de estar alimentado.

Mesa posta com pratos brancos, talheres de metal e copos âmbar sob luz dourada, evocando regras de etiqueta elegantes

Foto: Influenciadores do nicho ensinam regras de etiqueta nas redes sociais (Reprodução/Pinterest)

Essa busca por comportamentos mais tradicionais não é apenas estética. Segundo um estudo da Ipsos em parceria com o King’s College London, as novas gerações têm demonstrado uma inclinação a enxergar sentido em padrões do passado como forma de lidar com um mundo de incertezas socioambientais e econômicas. Ao resgatar rituais de etiqueta e elegância, esses jovens tentam acessar, de certa forma, o poder e a estabilidade que observaram em seus pais e avós. Segundo a pesquisa, em tempos instáveis, o “tradicional” surge como um porto seguro.

Regras de etiqueta em mesa posta: mulher de vestido rosa ajusta talheres entre flores claras, velas e porcelana refinada

Foto: E afinal, as regras de etiqueta são essenciais? (Reprodução/Pinterest)

Essa redescoberta da etiqueta pelas gerações mais novas traz um desafio: como adotar o cuidado e a polidez sem importar uma exclusão que não combina com a nossa realidade e diversidade? Afinal, não estamos julgando quem prioriza ou tem curiosidade de buscar por essas regras de comportamento, mas ficamos reflexivas sobre como o ressurgimento desses códigos entre a Geração Z e Millennials traz à tona uma discussão curiosa sobre o capital cultural.

Uma explicação de forma breve: o capital cultural é um conceito do sociólogo Pierre Bourdier, onde ele diz que não é só o dinheiro que pode ser acumulado e visto como status de riqueza, mas também o acesso a cultura e as referências que as pessoas carregam. 

Em um mundo onde o acesso a bens materiais se tornou mais democrático, saber “como se portar” virou a nova forma de distinção. E a discussão que nasce nas redes sociais é exatamente essa, de um lado, há quem defenda que a etiqueta é meramente um direcionamento para criar um ambiente mais confortável entre as pessoas, de outro usuários defendem ser um comportamento elitista e até “cafona”.

Educação vs status

Talvez o que possamos concluir no momento é que a etiqueta que realmente faz sentido para o nosso tempo é aquela que funciona como ferramenta social de conexão, e não de distanciamento. Se saber que a colher de sopa deve deslizar da borda para o centro ajuda a evitar manchas em um jantar de trabalho, ótimo. Mas se esse conhecimento for usado para olhar com superioridade para quem não o possui, ele perde toda a sua suposta elegância.

Regras de etiqueta em jantar formal: mulher de vestido rosa ajusta talheres à mesa posta com flores, velas e porcelana

Foto: E afinal, as regras de etiqueta são essenciais? (Reprodução/Pinterest)