Será que Sex And The City ainda é apropriado em 2021?

por Giulia Coronato

A título de curiosidade, antes de começar esse texto, sinto necessidade de dizer que me considero uma grande fã de Sex And The City. A série do final da década de 90 foi uma grande divisora de águas na época, e trouxe para todas as mulheres um senso de liberdade e aceitação na hora de explorar a sua sexualidade, assim como para os homens gays. Além disso, não podemos deixar de comentar do impacto que a série teve na moda, criando tendências, moldando toda uma geração e apresentando para nós, personagens de mulheres autênticas, estilosas e confiantes, que não tinham medo de ser quem eram. Mas, será que Sex And The City ainda é apropriado nos dias atuais, 23 anos depois? 

A primeira temporada da série foi ao ar no ano do meu nascimento, então claro que eu só fui assistir décadas depois. Durante essa segunda fase de lockdown, com o tédio batendo na porta, resolvi reassistir todos os episódios e para minha surpresa, não foi assim tão libertador como eu achava. Apesar de termos quatro mulheres protagonistas, falando abertamente de sexo e vivendo a vida com poucos pudores, Sex And The City não é lá um show muito feminista. O que na época parecia ser revelador e libertador, era na verdade uma nova forma constrangedora de privação e preconceito. Em um episódio em particular, vemos Carrie rotulando pessoas bissexuais como sexualmente incontinentes e indecentes; em outro, prostitutas transexuais são retratadas como um incômodo espalhafatoso; Samantha vive uma espécie de “racismo inverso” da irmã de um homem negro com quem está namorando e a representação de gays no programa é sempre rasa e condescendente. 

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Foto: Sex And The City (Reprodução/HBO)

Esses poucos exemplos já mostram que talvez devemos começar a olhar com novos olhos para Sex And The City, com um pouco mais de ceticismo. Não tem como negar a importância e a amplitude da série há 20 anos atrás, mas hoje, assistindo novamente aos eternos debates das quatro amigas em torno dos estereótipos das relações heterossexuais, me peguei constantemente constrangida e pensando que muitas vezes, Sex and the City parece tão bidimensional e irreal quanto os estereótipos pornográficos que homens heterossexuais possuem, até hoje, da mulher e do sexo com ela. 

Eu, como pertencente de uma geração completamente diferente das telespectadoras originais da série, não me enxerguei naquilo e talvez, muitas das que se enxergaram e se relacionaram com os dilemas de Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda, não se identifiquem mais. Os tempos são outros, e apesar de 23 anos parecer pouco, muita coisa mudou na forma como mulheres se relacionam, com elas mesmas, com homens, com outras mulheres e com as amarras que a sociedade tanto nos impõe. 

Sex and the City parece tão bidimensional e irreal quanto os estereótipos pornográficos que homens heterossexuais possuem, até hoje, da mulher e do sexo com uma mulher. 

Foi então, através de minha própria experiência, do conteúdo que eu consumo, das pessoas que eu me relaciono e principalmente da minha exposição às mídias sociais e ao discurso da minha geração em geral, que eu fui capaz de fazer uma re-análise da série. Assim como as protagonistas, eu também sou uma mulher jovem, branca, de classe média, com um grupo de amigas heterossexuais passando por dilemas amorosos constantemente. Mas, pra mim, Sex And The City não tomou a posição de um bloco de construção essencial da descoberta e compreensão de mim mesma e das minhas experiências de sexo e relacionamentos, mas me fez refletir sobre mim e meus privilégios​​ e os preconceitos que tenho enraizado. 

É claro que não vou descartar a série da minha vida, eu ainda gosto dela e ainda a considero uma das minhas favoritas. O que mudou foi somente minha percepção do programa, ainda aprendo coisas novas quando assisto aos mesmos episódios pelas décima vez e ainda sou capaz de criar diálogos com minhas amigas a respeito de temas que foram tratados na série, mas sei que aquilo não é uma representação real, nem próxima da realidade atual. 

Dessa forma, Sex and the City se tornou uma série de conforto, uma fuga alegre e boba que uso quando quero dar boas risadas e ver bons looks. Em 2021, eu ainda amo Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte, apesar de enxergar todos os seus defeitos e preconceitos. Então, a resposta para minha pergunta inicial é não, é claro que Sex And The City não é apropriado para os dias atuais, mas ainda assim podemos abraçar sua besteiras e suas falhas e usar a série como um lembrete nostálgico do quão longe chegamos. 

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