Se você estiver em uma roda de amigas e o assunto “livros” surgir, em algum momento é muito provável que o tópico smut apareça. Não necessariamente com essa palavra, já que ela não faz tanta parte do nosso vocabulário no dia a dia, mas é bem possível que o tema de livros com cenas picantes entre em pauta.
Nessas ocasiões, três coisas podem acontecer: sorrisinhos interessados, olhares de confusão ou narizes torcidos. Os sorrisos surgem no rosto de quem já estava acostumado com o tema na época das fanfics. Os olhares de confusão vêm de quem provavelmente ainda não pegou um livro com smut em mãos. Já os narizes torcidos são de quem não tem interesse no assunto — e, para deixar bem claro, está tudo bem.
Seja como for, o interesse por histórias com cenas picantes ou descrições mais explícitas cresce exponencialmente entre mulheres de todas as idades e isso tem seus porquês.
antes de tudo, o que é smut?
Por definição, “smut” é um termo informal (originalmente em inglês) usado para descrever ficção focada em romance + erotismo explícito, tratada de forma aberta e sem rodeios.
Sabemos que, historicamente, mulheres foram reprimidas sexualmente. Em uma sociedade onde o prazer feminino (ainda) é visto como um tabu, consumir obras literárias em que o foco central é o desejo da mulher vira quase um ato de “emancipação feminina” contra uma ideia conservadora de que mulheres não devem explorar seus próprios desejos.
Além disso, essas obras abrem espaço para conversas mais abertas sobre sexualidade — muitas leitoras relatam até mais facilidade de falar sobre sexo na vida real. E, por muito tempo, esse consumo aconteceu de forma mais discreta.
“Eu leio esse tipo de conteúdo há anos, desde a época das fanfics no Orkut com a tag #HOT (risos). Mas nunca foi um assunto que eu comentava. Com o Kindle, ficou mais fácil consumir sem julgamento e aí mergulhei de vez. Recentemente, li quase 30 livros seguidos de autoras como Elle Kennedy e Ali Hazelwood. Não largava o aparelho, até meu marido ficou curioso”, conta Gabi, de 30 anos.*
Mas, para além da quebra de tabu, essas leituras também podem funcionar como ferramenta de autoconhecimento.
“Outro ponto que, para mim, é muito positivo é que esses livros também ensinam. Eu, por exemplo, nascida e criada em um contexto religioso — onde, apesar da minha família não ser conservadora, o tabu em relação à vida sexual sempre esteve presente —, encontrei na leitura um espaço para questionar o que de fato me agrada ou não nesse sentido.
Os livros sempre tiveram um papel importante na minha vida, como fonte de descoberta e reconhecimento. Eles me ajudaram a entender quem eu sou e quem posso ser, enquanto mulher negra e sáfica, com todas as camadas que isso envolve. A partir disso, acredito muito no potencial dessas histórias de irem além e contribuírem para o feminino de muitas mulheres”, diz Nathalia Araújo, de 20 anos.
o aumento do ‘female gaze’
Fora isso, outro fator que ajuda a impulsionar o interesse por livros eróticos é o crescimento do female gaze, ou seja, do olhar feminino. Menos objetificado, mais sensível. São histórias feitas por mulheres e para mulheres, onde o foco está na subjetividade e na experiência. Diferente de conteúdos visuais, o smut aposta na construção de narrativa, no desenvolvimento de personagens e, principalmente, na tensão.
Isso cria um espaço onde a leitora participa ativamente da história por meio da imaginação. É aí que entra um dos pontos mais citados por especialistas: a sensação de segurança. Ao consumir esse tipo de conteúdo, é possível explorar fantasias, preferências e até curiosidades sem qualquer tipo de exposição ou consequência no mundo real.
Maria Antônia, de 26 anos, compartilha do mesmo sentimento sobre o olhar feminino. “Em muitas dessas cenas escritas no livro, o prazer é totalmente voltado para o feminino. Na indústria pornográfica, não é exatamente assim que acontece. Ali, o prazer é centrado apenas no homem. Nos livros não é assim, acima de tudo, nós nos conectamos porque é uma mulher escrevendo”, afirma.
E não podemos esquecer o poder de influência direta da internet. Comunidades online, especialmente em plataformas como o TikTok, transformaram livros antes nichados em verdadeiros fenômenos de venda. O BookTok não só popularizou o termo, como também ajudou a normalizar o consumo desse tipo de narrativa, que antes era muitas vezes tratado como um gosto “secreto”.
Com isso, o que antes ficava restrito a círculos menores passa a ocupar um espaço mais amplo, diverso e, principalmente, mais aberto ao diálogo. Hoje, falar sobre livros com cenas picantes já não carrega o mesmo peso de julgamento de anos atrás.
Para Duda Giuntoli, de 22 anos, que trabalhou em uma livraria por quatro anos, o mercado de hoje é bem diferente. “Isso a gente deve ao TikTok, que vem influenciando e incentivando as pessoas a lerem e publicarem seus livros. Um público que tem crescido muito é o LGBTQIA+, tanto entre leitores quanto nas histórias. A representatividade tem aumentado”, explica.
a leitura como válvula de escape
Existe também a lógica do escapismo, que é um dos principais motores da leitura como um todo. Muitas mulheres são sobrecarregadas no cotidiano. Entre deveres de casa das crianças e a pressão no trabalho, às vezes tudo o que precisamos é de uma válvula de escape.
E, depois de um dia verdadeiramente cansativo — quando já estamos esgotadas do doomscrolling (ou seja, depois de passar tempo demais diante de uma tela) — pegar um livro em mãos pode ser uma das melhores coisas que fazemos pelo nosso sistema nervoso. Melhor ainda se envolver um Christian Grey que anda de dragão.
Na visão de Amanda Rodrigues, de 28 anos, a literatura assume um papel de abrigo. “Por trás de capas delicadas e discretas, guardam-se conteúdos eróticos e cheios de descobertas para as mulheres. É por meio dessas narrativas que acabamos entrando em contato com nossos gostos, medos e desejos, em um espaço seguro e que é só seu”, conta.
São nesses momentos que se torna possível escapar, ainda que por alguns minutos, do estresse do dia a dia, mergulhando em histórias cujo objetivo é justamente te transportar para um outro universo, muitas vezes idealizado, onde você pode se colocar no lugar da personagem.
E essa busca por respiro não acontece apenas entre leitoras mais jovens ou conectadas às tendências da internet. Para muitas mulheres, a leitura também acompanha todas as vezes da vida, assumindo diferentes significados ao longo do tempo.
“Tenho 45 anos, sou casada e mãe de dois filhos. Meu marido viaja muito a trabalho, então passo longos períodos sozinha com as crianças e os livros acabam sendo uma grande companhia. Sempre fui uma romântica, leio desde pequena, mas fiquei um tempo mais distante desse tipo de leitura,” divide a Lívia Roberta. “Agora, voltei com força total. Tenho lido romances e também histórias com cenas mais quentes, e confesso que estou até um pouco viciada (risos). O que sinto falta, às vezes, são histórias com mulheres mais maduras. Mas, no geral, essa retomada tem sido muito especial, como se eu estivesse me reconectando com uma parte minha que estava adormecida,” completa.
E no que diz respeito a colocar-se no lugar da personagem, esse é outro ponto-chave da discussão. Em muitas dessas histórias, o interesse masculino é retratado como intenso, complexo, emocionalmente disponível e profundamente dedicados à protagonista. Existe naquelas páginas uma construção clara de desejo que não mora só no físico, mas sim no afetivo.
Em contraste com dinâmicas contemporâneas que muitas vezes frustram expectativas no mundo real, essas histórias oferecem uma versão onde a mulher é, de fato, escolhida, desejada e priorizada. Isso revela também uma carência: a de relações com maior entrega emocional, comunicação e reciprocidade.
contradições, afinal, elas podem existir também
Ao mesmo tempo, porém, esse universo não está livre de contradições e são justamente elas que ajudam a complexificar o fenômeno.
Para Lorraine Cruz, de 26 anos, o contato com esse tipo de leitura também passa por um processo de reconexão. “Eu sempre adorei ler romance e, conforme fui crescendo, é claro que as histórias acabaram indo além do ‘felizes para sempre’. Em algum momento, comecei a sentir vergonha de tudo o que era considerado ‘coisa de garota’ — e acho que muitas de nós passaram por isso, tentando se encaixar para agradar homens que nem valiam nosso tempo. Demorei muito para fazer as pazes com o que me dá prazer. E, para mim, voltar a ler smut tem justamente a ver com isso: se reconectar comigo mesma”, conta.
Ainda assim, ela aponta um incômodo recorrente: a forma como algumas personagens femininas são retratadas. “Às vezes parece que evoluímos, mas essas histórias continuam presas a uma visão antiga — mulheres extremamente seguras na cama, mas ingênuas fora dela”, diz.
Essa ambivalência também aparece na experiência de Bruna Amani, de 28 anos. “No geral, são histórias de bilionários que encontram o amor da vida, mas percebo um padrão: mesmo sendo escritos por mulheres, muitos desses romances ainda colocam o homem como salvador, enquanto as protagonistas carregam históricos de sofrimento.”
Para ela, o interesse pelo gênero convive com uma leitura crítica. “Ao mesmo tempo em que acho a parte picante interessante — porque acredito que mulheres têm, sim, um imaginário sexual pouco explorado —, existe uma contradição. Muitas narrativas passam a ideia de que a mulher só descobre o prazer ao encontrar esse homem ideal, e aí tudo se resolve.”
Ainda assim, o consumo continua. “Vejo valor nesse exercício de explorar o imaginário. Só acho que é uma linha tênue: é preciso ter senso crítico para não absorver como verdade certas dinâmicas que podem ser problemáticas”, conclui.
Entre o escapismo e o autoconhecimento, a idealização e a crítica, essas histórias ocupam um lugar que vai muito além dos detalhes que estão descritos nas páginas. Funcionam como território seguro, emocional e, em muitos casos, ponto de partida para conversas que, por muito tempo, ficaram restritas ao silêncio de se ter um Kindle em mãos.
No fim das contas, o crescimento do smut diz mais mais sobre movimentos em curso. Especialmente em que mulheres estão cada vez mais interessadas em consumir, imaginar e narrar o próprio desejo, mesmo que hajam todas as suas contradições.
E talvez seja justamente aí que mora a força do fenômeno: não na fantasia em si, mas na liberdade de acessá-la sem culpa e sem vergonha.
livros com smut para conhecer!
Se você ficou curiosa para entender na prática como o smut funciona (e por que ele tem conquistado tantas leitoras) a boa notícia é que existem histórias para todos os níveis de interesse. Dos romances mais leves, com cenas pontuais, até narrativas mais intensas e provocativas, o gênero se desdobra em diferentes estilos.
Para quem quer começar com algo mais acessível, “Até que o Verão nos Separe”, de Meghan Quinn, lançamento da Intrínseca, é uma boa porta de entrada. O livro mistura romance e humor com cenas mais quentes na medida certa, além de trazer um diferencial divertido: ilustrações que acompanham a narrativa e deixam a experiência ainda mais envolvente.
Já para quem prefere histórias que constroem o desejo aos poucos, “No Fundo é Amor”, de Ali Hazelwood, é um dos maiores sucessos recentes. Aqui, o famoso slow burn faz com que a tensão e também a confiança entre os personagens seja tão importante quanto as cenas em si.
E, por fim, para leitoras que querem explorar um lado mais intenso do gênero — mas ainda dentro de um romance contemporâneo —, a série “Twisted”, de Ana Huang, é um dos maiores fenômenos recentes. Composta por títulos como Twisted Love, Twisted Games, Twisted Hate e Twisted Lies, a saga acompanha diferentes casais em histórias interligadas, marcadas por relações intensas, personagens moralmente ambíguos e uma boa dose de tensão e erotismo
