Tudo sobre a relação entre o Carnaval e a moda

por Karen Merilyn

Desde sua origem, o Carnaval e a moda são indissociáveis. As fantasias são elementos essenciais para contar a história do enredo e, inclusive, possuem um processo de construção parecido com a dos designers nas semanas de moda. Elas funcionam como o fio condutor do desfile e, junto com o samba-enredo, as alas e os carros alegóricos, constroem a narrativa visual que cada escola apresenta na avenida. 

Desfile de escola de samba mostra relação entre o Carnaval e a moda.
Foto: Salgueiro (Alex Ferro/Riotur)


a história das fantasias nos desfiles

As escolas de samba surgiram na década de 1920, como uma evolução dos blocos. No entanto, foi a partir de 1952, com a profissionalização do julgamento dos desfiles e a criação de critérios mais rígidos, que as fantasias passaram a ser obrigatórias nos desfiles. 

Essa mudança ajudou a consolidar o papel do carnavalesco como responsável pela concepção estética da escola, além de criar uma divisão clara das alas. Antes disso, esses grupos desfilavam apenas com roupas parecidas, mas não com fantasias completas ou pensadas como linguagem visual. 

Assim, as peças se tornaram muito mais que um “uniforme", se transformando em um elemento essencial para a narrativa de cada escola, que resultou os desfiles em verdadeiros espetáculos visuais. 

o processo de produção

Com o passar dos anos, as fantasias passaram a ter um processo complexo de criação, que vai desde a definição do enredo, passando pelas referências visuais, primeiros esboços, peças piloto, análise da viabilidade, provas, até, por fim, chegar na avenida. É um trabalho minucioso, que leva muitos meses e que precisa considerar diversos fatores, do conforto à estética.

Em um desfile, há três tipos de fantasias: as de ala, de composição e de destaque. As de ala são feitas em grande escala, para grupos de aproximadamente cem componentes. As de composição são criadas para grupos menores, que compõem as alegorias. Por fim, as de destaque são as mais luxuosas, feitas sob medida para quem as veste, com nível de acabamento e exclusividade comparável ao da alta-costura.

Esses visuais são julgados por critérios como criatividade, significado e importância para o enredo. Uma escola do Grupo Especial, por exemplo, produz entre 2.500 e 4.000 fantasias por ano — um trabalho que exige precisão e uma logística certeira.

funcionalidade x estética

Ao contrário dos desfiles de alta-costura, as fantasias precisam ir além da estética: elas têm que permitir movimento e um conforto mínimo para quem desfila. Afinal, são entre 70 e 80 minutos atravessando a avenida, fazendo coreografias e, claro, passando pela avaliação dos jurados. 

Por isso, essas criações precisam não só ser visualmente bonitas e bem acabadas, mas também abraçar o corpo de quem veste e considerar todos os movimentos. 

carnavalescos que revolucionaram o figurino

Alguns carnavalescos atuaram como verdadeiros agentes de revolução quando se trata das fantasias das escolas de samba. Assim como os designers das grandes grifes, eles contribuíram para a evolução da moda nas avenidas. Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta e Rosa Magalhães são alguns nomes de destaque na história do Carnaval.

o legado do Carnaval na moda

O Carnaval deixa na moda um legado que valoriza o trabalho artesanal como luxo, a roupa como espetáculo, o corpo como parte da peça em vez de mero suporte, além do exagero e da ousadia como uma linguagem estética legítima, que, acima de tudo, valoriza nossa história, dá voz a ícones invisibilizados e mostra pontos de vista pouco explorados sobre a cultura brasileira. 

Mais do que inspiração visual, o Carnaval contribui para a construção e legitimação da estética brasileira no mundo. Ao unir música, arte, corpo e narrativa, ele revela um país diverso, criativo e profundamente conectado à sua história, rompendo fronteiras e ampliando as possibilidades do que a moda pode ser e representar.