Afinal, o que acontece na indústria da moda em 2026?

por Beta Weber

2025 foi caótico, marcado por troca-troca incessante, estreias, crises e reestruturações. Já a moda em 2026 promete outra energia, menos movida a rupturas e mais focada em consolidação de visões e estratégias. Ainda assim, a indústria como um todo passa a conviver com a necessidade cada vez maior de se adaptar a um cenário global instável, influenciado por mudanças econômicas, culturais e criativas que redefinem como a moda é produzida, comunicada e se conecta com seus consumidores

Se o fim do ano é sinônimo de retrospectivas, o início de outro abre espaço para previsões, e a seguir a gente conta as principais tendências da indústria da moda em 2026.

a nova ordem das principais maisons

O ano passado foi das estreias, mas 2026 será sobre consolidação. Depois de um 2025 repleto de mudanças, o foco agora é observar como os novos diretores criativos vão se adaptar e moldar suas visões nas casas que comandam.

Modelos caminham em estação com vestidos fluidos e texturizados, destacando cores vibrantes na indústria da moda em 2026
Foto: @matthieu_blazy (Reprodução/Instagram)


No final do mês, vamos descobrir como serão as primeiras coleções de alta-costura da Dior por Jonathan Anderson e da Chanel por Matthieu Blazy. Em fevereiro, Demna apresenta sua primeira coleção para valer na Gucci, durante a semana de moda de Milão. No assunto debuts ainda por vir, o mais aguardado é o de Grace Wales Bonner na Hermès masculina, que só rola em janeiro de 2027.

Modelo caminha em escada com top cropped e bermuda preta bordados em dourado, detalhes em vermelho vibrante e sapato azul,
Foto: @versace (Reprodução/Instagram)

Além disso, após a passagem relâmpago de Dario Vitale na Versace, agora oficialmente adquirida pelo grupo Prada, a especulação sobre quem vai assumir a direção criativa segue em alta. Muitos apontam para Pieter Mulier, atualmente à frente da Alaïa, mas nenhuma confirmação ou anúncio foi feito até agora.

Com a indústria mais cautelosa, as prioridades são continuidade e construção de longo prazo. Ou pelo menos a gente espera que sim. Mas e por que essa postura?

cenário econômico mundial

Segundo o State of Fashion da McKinsey, o crescimento global da indústria de moda para 2026 deve ser abaixo do esperado, em um ritmo mais contido do que o observado no período pós-pandemia. O entendimento atual entre executivos e líderes do setor é que os tempos de estabilidade se foram e que a mudança constante será o novo padrão. As tarifas comerciais impostas pelos EUA aparecem como o principal obstáculo para 2026, forçando marcas a reverem fornecedores, regiões de produção e estratégias de precificação.

Esse contexto, marcado pelo avanço das tarifas desde o ano passado, já vinha abalando estruturas e mudando a cadeia de produção mundialmente. As novas tarifas que os EUA acabaram de anunciar para alguns países europeus, em função da disputa pela Groenlândia, tendem a adicionar tensão, impactando ainda mais a indústria como um todo. Mas e por aqui?

luxo no Brasil

No Brasil, o mercado de luxo segue na contramão do pessimismo global e vive um momento de crescimento moderado, mas consistente. Relatórios de consultorias como Bain & Company e Euromonitor apontam o país como um dos mercados emergentes mais resilientes do setor, impulsionado tanto pelo consumo interno quanto pelo turismo internacional. Enquanto o setor global cresceu cerca de 3% entre 2022 e 2024, o Brasil chegou a uma média de 12% no mesmo período.

O fortalecimento do mercado interno se deve tanto ao público local demonstrando mais interesse nas criações próprias quanto aos turistas que vêm ao Brasil em busca de peças artesanais, moda autoral e produtos com identidade local. O crescimento internacional de nomes como Farm e Havaianas também traz os holofotes para o Brasil, reposicionando o país como fornecedor de valor simbólico, e não apenas de matéria-prima ou mão de obra.

Nesse cenário, a Rio Fashion Week surge como uma aposta estratégica para recolocar a cidade no circuito internacional e fomentar o diálogo entre moda, cultura e turismo, algo que já se mostrou eficaz em outros mercados globais, como Copenhagen.

luxo mais exclusivo, mas tem luz no fim do túnel?

Modelo posa em três ângulos com look monocromático preto, casaco oversized de tecido estruturado e bolsa de couro
Foto: @therow (Reprodução/Instagram)

Nos últimos anos, o luxo se tornou significativamente menos acessível, com aumentos de preços frequentes e, em alguns casos, mais de um reajuste por ano em produtos-chave. Relatórios da Bain & Company mostram que, entre 2020 e 2024, os preços médios do segmento cresceram muito acima da inflação global. O foco se concentrou nos VIC, very important clients, que representam cerca de 2% da base de consumidores, mas respondem por aproximadamente 40% das compras no mercado. Para aumentar o desejo, as grifes optaram por ampliar a escassez e os preços, mas o resultado não foi exatamente o esperado, e a atitude teve um efeito colateral importante.

Segundo um estudo recente do grupo Les Echos, o setor de luxo perdeu entre 70 e 80 milhões de clientes nos últimos três anos, em sua maioria consumidores jovens, ocasionais e aspiracionais, que acabaram sendo gradualmente excluídos pelo aumento constante de preços.

Modelo caminha decidida com blazer e calça rosa pastel de tecido acetinado, combinando bolsa branca e scarpin preto,
Foto: @gucci (Reprodução/Instagram)

Em 2026, a tendência de valores elevados continua, mas sinais de resistência do consumidor começam a aparecer. Os primeiros lançamentos de Demna para a Gucci e de Jonathan Anderson para a Dior indicam uma tentativa de recalibrar essa relação, optando por uma estrutura de preços mais diversificada. Ao lado de peças altamente exclusivas e de valores elevados, surgem itens mais acessíveis, pensados como porta de entrada para um público mais amplo, sem abrir mão do desejo e da visibilidade.

Ainda é cedo para afirmar se isso vai representar uma mudança estrutural, mas indica que as marcas começam a testar com mais cautela os limites do que o consumidor está disposto a pagar, buscando novas formas de manter relevância sem aumentar ainda mais a distância entre produto e público.

indústria da moda em 2026
Foto: Adidas (Reprodução/The News Market)

luxo regionalizado e culturalmente específico

Vocês viram a coleção especial da Adidas para comemorar o Ano Novo chinês? Apresentada durante a semana de moda de Xangai, em outubro de 2025, muitas das peças viralizaram, em particular a jaqueta que é um mix do abrigo clássico da marca com as tradicionais jaquetas Tang. A coleção só está disponível em mercados específicos do continente asiático.

indústria da moda em 2026
Foto: Adidas (Reprodução/The News Market)

Esse movimento promete se tornar cada vez mais comum, com marcas globais desenvolvendo produtos pensados para regiões e culturas específicas, permitindo um diálogo mais profundo com públicos locais. A Vogue Business e o Financial Times apontam essa estratégia como uma resposta direta à saturação do modelo global padronizado.

Dois homens posam com aventais brancos Alaïa sobre malhas pretas e cinza, em ambiente metálico que sugere inovação na
Foto: @maisonalaia (Reprodução/Instagram)

o império das experiências

Nesse momento desafiador, é preciso pensar em alternativas para se destacar entre tanta oferta. E o caminho escolhido a gente já sabe: o das experiências. Aumentar valor agregado também passa pelo capital cultural, e os métodos empregados pelas principais marcas se diversificam cada vez mais.

Experiências gastronômicas, museus, objetos para a prática de exercícios físicos, podcasts,  playlists e grupos de leitura passam a fazer parte do ecossistema das grandes grifes. A Saint Laurent tem um braço para produzir filmes, o wellness, performático ou não, se tornou um tópico inescapável, trazendo acessórios para práticas de exercícios assinados pela Céline que mais parecem objetos de arte. A Dior vem investindo em spas, e a Missoma criando grupos de corrida. 

Para vender luxo, é preciso criar um universo completo, contado através do storytelling, ou, como o relatório da McKinsey cita, narrative branding. A tendência é apostar em terceiros espaços, que misturam cultura, lifestyle e varejo.

Modelo posa com postura confiante usando sobretudo e alfaiataria oversized em tons escuros, refletindo a indústria da moda
Foto: @zara (Reprodução/Instagram)

o upgrade das antigas fast fashion

Marcas como Zara, Mango e H&M tentam um reposicionamento estratégico. Pressionadas pela concorrência direta com plataformas como a Shein, cuja rapidez e precificação são quase imbatíveis, elas migram para o mid-market, mudando posicionamento, aumentando preços, qualidade percebida e valor agregado.

Modelo posa com blusa de renda vinho translúcida, saia longa fluida marrom e casaco de pele marrom, refletindo a indústria
Foto: @mango (Reprodução/Instagram)

Segundo análises do Business of Fashion, esse movimento é uma tentativa de sobreviver em um mercado polarizado, onde o ultra barato domina de um lado e o luxo reforça sua exclusividade do outro. A esperança é atender à parcela, gigante, do público que se encontra nesse meio do caminho.

Modelo exibe três bolsas de luxo em azul, branco e preto com alças de corrente e couro, refletindo a indústria da moda em
Foto: @gringa (Reprodução/Instagram)

o mercado de segunda mão não pode mais ser ignorado

O mercado de segunda mão cresce de duas a três vezes mais rápido do que o varejo tradicional e deve manter esse ritmo até pelo menos 2027. O interesse por vintage pode ser explicado por diversos fatores, como a busca por autenticidade, o retorno de referências históricas às passarelas, a profusão de tendências nostálgicas, o aumento desenfreado de preços no varejo tradicional, que excluiu uma parcela dos consumidores, e, lógico, a mudança de comportamento e prioridades, cada vez mais atentas ao impacto ambiental de suas compras.

Indústria da moda em 2026 valoriza peças vintage como vestidos longos de modelagem ajustada em preto, unindo elegância e
Foto: @ralphlauren (Reprodução/Instagram)

Plataformas de resale se tornam parte fundamental do mercado global. O fenômeno também beneficia as marcas que, segundo relatório da McKinsey, se aproveitam do aumento de familiaridade e desejo, já que muitos consumidores usam o mercado de segunda mão como porta de entrada para adquirir marcas aspiracionais, posteriormente se tornando clientes diretos. A pergunta que fica é como as grifes vão incorporar o vintage em suas lojas e e-commerces. Está na cara que um segmento tão lucrativo vai atrair a atenção de executivos, e pode ser que a iniciativa da Ralph Lauren, de garimpar arquivos da própria marca online, restaurando, autenticando e revendendo em canais oficiais, inspire casos similares.

Jaqueta jeans azul escuro com modelagem oversized em ambiente minimalista e iluminação dramática destaca a indústria da moda
Foto: @hm (Reprodução/Instagram)

IA agora chega à parte criativa

Na moda, a inteligência artificial já vinha ganhando espaço em áreas como logística, previsão de demanda e planejamento de estoque. Agora, começa a avançar com mais força na parte criativa, alterando processos de design, comunicação e desenvolvimento de produto.

Ferramentas de realidade virtual e modelagem 3D, já destacadas como tendência em 2025, tornam-se padrão em 2026, especialmente nas etapas de ideação e prototipagem. Segundo a McKinsey, essas tecnologias reduzem o tempo de desenvolvimento, diminuem desperdícios e permitem testes visuais antes mesmo da produção física.

Além disso, campanhas parcialmente geradas por IA e o uso de modelos digitais passam a conviver com produções tradicionais, abrindo novas discussões sobre autoria, imagem e representação. Dados recentes mostram que mais de um terço dos executivos do setor já utiliza ferramentas de automação e inteligência artificial em áreas como criação de imagens, copywriting, busca por produtos e atendimento online, com impacto especialmente relevante nas frentes de marketing e vendas.

Se o avanço traz economia para diversos setores, ele potencialmente compromete a criatividade e levanta questões morais. As discussões a respeito do tema ainda vão render muitas reflexões.

diamantes são nossos melhores amigos?

Joias e relojoaria despontam como novos protagonistas do luxo, com mais consumidores dispostos a investir em objetos atemporais, com valor sentimental e potencial de passar de geração para geração, do que em itens baseados em tendências passageiras, que no cenário atual chegam a custar o mesmo, ou até mais, do que diamantes, brilhantes e afins. Com os aumentos constantes de preços no vestuário, as joias, com reajustes mais moderados, reforçam seu papel como investimento duradouro.

Modelo posa com postura elegante usando colar, anéis e pulseira dourados com pedras brilhantes sobre vestido preto,
Foto: @cartier (Reprodução/Instagram)

Segundo relatório do Business of Fashion, o segmento deve ser o que mais cresce na moda até 2028, com vendas em unidades avançando em ritmo cerca de quatro vezes superior ao de roupas e acessórios.

Outro fator que acelera esse movimento é a popularização dos diamantes cultivados em laboratório, que devem representar cerca de metade das vendas globais de joias com diamantes até 2030. Preços mais acessíveis, preocupações éticas e o afastamento da joalheria exclusivamente ligada a noivas ampliam o apelo da categoria e reforçam seu papel como um dos motores do luxo nos próximos anos.