Atrizes e produtoras: como elas estão reescrevendo seus próprios papéis em Hollywood

por Izabela Suzuki

Quando Meryl Streep completou 40 anos, recebeu três roteiros no mesmo ano para interpretar… bruxas. Não vilãs sofisticadas. Não protagonistas ambíguas. Bruxas. A metáfora é quase óbvia: em Hollywood, envelhecer como mulher significa deixar de ser desejável e, portanto, deixar de ser protagonista. Enquanto eles amadurecem como galãs sedutores e grisalhos charmosos, elas são automaticamente realocadas aos papéis de “mães” ou “bruxas”.

E não é só sobre etarismo. Durante décadas, a mulher foi posicionada como personificação do desejo — objeto sexual à la Bond Girl — ou como a figura materialista e fútil que existe apenas para reforçar estereótipos. Historicamente, tudo o que orbitava o universo feminino, do mais básico (como a cor rosa) ao mais complexo (nossas inseguranças e medos), era tratado como futilidade. Personagens muito femininas não eram levadas a sério; viravam piada, alívio cômico ou caricatura. Seus traços mais profundos eram apagados, suas vulnerabilidades suavizadas, sua ambição domesticada.

Deu para entender onde o problema morou por tantos anos? Não por acaso, atrizes começaram a assumir também o papel de produtoras. Existe hoje um movimento consistente de mulheres que passaram a criar — e financiar — os próprios projetos para escapar de personagens estereotipadas, especialmente depois dos 35, 40 anos. E não é só sobre protagonismo. É sobre poder narrativo.

Atriz e produtora usa vestido preto com gola de penas texturizadas, óculos escuros e sorriso sereno em fundo desfocado rosa.
Foto: Nicole Kidman (Reprodução/Stephane Cardinale - Corbis/Corbis via Getty Images)


atrizes e produtoras: quem são elas?

Muitas decidiram que era hora de segurar a caneta. A virada de chave não aconteceu por acaso: ela veio quando atrizes perceberam que protagonizar não era suficiente — era preciso produzir. Assumir o controle criativo, escolher quais histórias seriam contadas e, principalmente, quais mulheres poderiam existir na tela.

Nicole Kidman é um dos exemplos mais emblemáticos desse movimento. À frente da Blossom Films, ajudou a tirar do papel projetos como Big Little Lies, que colocou mulheres 40+ no centro da narrativa com desejo, trauma, violência doméstica e ambição sem suavizar suas contradições. O sucesso da série abriu caminho para outros títulos como The Undoing e Nine Perfect Strangers, todos orbitando figuras femininas complexas, emocionalmente densas e muito distantes da caricatura.

Atriz e produtora veste vestido vinho texturizado com bolsos frontais, posa sorridente e confiante em evento iluminado.
Foto: Reese Whiterspoon (Reprodução/Emma McIntyre/Getty Images para Hello Sunshine)

O movimento também ganhou força com Reese Witherspoon, que fundou a Hello Sunshine com uma missão clara: adaptar livros escritos por mulheres e garantir que essas histórias chegassem às telas. Ao produzir séries como Little Fires Everywhere — além de também participar da produção de Big Little Lies — ela entendeu algo essencial na engrenagem da indústria: quem controla a propriedade intelectual controla a narrativa.

Atriz posa com vestido rosa acetinado, mangas longas e gola de plumas brancas, em tapete rosa vibrante da estreia de Barbie.
Foto: Margot Robbie (Reprodução/Ian West/PA Images via Getty Images)

Margot Robbie, com a LuckyChap Entertainment, apostou em personagens femininas que fogem do ideal de “agradabilidade”. Em I, Tonya, deu espaço a uma anti-heroína caótica, ambiciosa e moralmente ambígua. Anos depois, com Barbie, transformou um ícone plástico da feminilidade em um debate global sobre identidade, expectativa social e autonomia.

Atriz e produtora veste camisa branca de algodão com modelagem ampla, cabelos presos em rabo volumoso.
Foto: Issa Rae (Reprodução/Paras Griffin via Getty Images)

Há ainda nomes como Issa Rae, que criou e estrelou Insecure, oferecendo uma representação honesta, vulnerável e imperfeita de mulheres negras — algo raramente visto no mainstream — e Phoebe Waller-Bridge, que escreveu e protagonizou Fleabag, consolidando a anti-heroína feminina como figura central, e não exceção.

o desejo como fator principal

Existe ainda uma camada mais profunda nessa transformação: o envelhecimento feminino como ruptura. O medo da indústria nunca foi exatamente a idade, mas sim a mulher que deixa de precisar ser desejável para existir. Durante muito tempo, a juventude foi tratada como o principal capital narrativo feminino. Uma personagem jovem ainda pode ser moldada, desejada, projetada. Já uma mulher madura carrega história, cicatriz, opinião, autonomia. E isso, para uma indústria construída sob o olhar masculino, sempre foi mais difícil de enquadrar.

Aqui, o desejo deixa de ser o eixo central enquanto a complexidade vira o novo foco. Ambição, raiva, trauma, sexualidade madura, contradição — tudo aquilo que antes era suavizado para não “afastar o público” passa a ser o motor da narrativa. O envelhecimento, nesse contexto, deixa de ser descarte.

Atriz posa contra parede de tijolos com vestido preto de tecido fluido e decote profundo.
Foto: Phoebe Waller-Bridge na segunda temporada de Fleabag (Reprodução/Internet/Divulgação)

e o streaming com isso?

Outro fator decisivo nessa virada é o streaming. A lógica das plataformas rompeu, ainda que parcialmente, com o modelo tradicional de bilheteria que privilegiava histórias consideradas “universalmente vendáveis” — leia-se: masculinas. Com catálogos extensos e públicos segmentados, abriu-se espaço para nichos e para narrativas mais densas, menos "formulaicas". Séries limitadas, dramas psicológicos e adaptações literárias ganharam viabilidade comercial.

Não é coincidência que muitas dessas produções tenham florescido em ambientes como a HBO, a Netflix ou a Amazon. O formato seriado permite desenvolvimento emocional, ambiguidade moral e protagonismos femininos que não precisam caber em duas horas nem se resumir a um arco romântico. Lógico, o streaming não resolveu o problema estrutural da indústria, mas criou brechas significativas!

O movimento não elimina o etarismo nem resolve a desigualdade da indústria. Mas altera um ponto crucial: a origem das histórias. Quando mulheres passam a produzir, o filtro muda. E quando o filtro muda, o que chega à tela também muda. No fim, o que une todas elas não é apenas talento, mas pragmatismo, e ao ocupar cadeiras executivas, deixaram de disputar os papéis disponíveis e passaram a definir quais papéis existem.