Como ter ansiedade impactou na maneira que me relaciono

por Giovana Marcon

Muita coisa ficou muito mais clara na minha vida depois que tive o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada - que aconteceu só com 24 anos. Ou seja, foram 24 anos de muitos sentimentos incompreendidos, de uma timidez absurda e de relações pouco profundas. Na verdade, eu só entendi que algo estava errado quando de fato entrei na primeira relação “profunda”. Não que antes eu fosse uma pessoa completamente rasa e sem amigos, mas eu tinha uma dificuldade tremenda de me sentir íntima com alguém. Nunca fui melhor amiga da minha mãe, nunca dividi minhas paixonites com a minha irmã e sempre fui muito (muito) discreta com a minha vida pessoal. Ficar menstruada e ter que usar sutiã me deixava apavorada pelo simples fato de que em algum momento da minha vida eu teria que conversar sobre aquilo com alguém. Então imagina só minha vida amorosa.

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Foto: Foto: (Reprodução/Tumblr)


Não que fosse muito turbulenta, pelo contrário. Ela sempre andou, e ainda anda, muito devagar. Mas tanto com novas amizades quanto romanticamente, era muito difícil me conectar 100% com as pessoas. Então pra não ter que discutir a relação, eu sempre fiz tudo o que a outra pessoa queria. Tentava ser tudo o que ela esperava e acabava não sendo eu mesma. Era sempre uma relação travada, em que eu tinha medo de falar o que eu estava sentindo e fazer a outra pessoa questionar se gostava mesmo de mim. Tinha pavor de iniciar uma conversa, às vezes eu congelava e nem conseguia falar. Não conseguia me expressar porque sempre estive muito preocupada com o que se passava na cabeça do outro.

Tinha pavor de iniciar uma conversa, às vezes eu congelava e nem conseguia falar. Não conseguia me expressar porque sempre estive muito preocupada com o que se passava na cabeça do outro.

Então quando eu comecei a ficar muito próxima de um cara, eu entrei em pânico. Entrei em um estado de negação, no qual mostrar qualquer tipo de vulnerabilidade não era uma possibilidade. Eu tinha muita vontade de falar tudo o que eu estava sentindo e ser sincerona, mas a antecipação da rejeição nunca deixava. Aí eu passava todos os dias extremamente ansiosa, tendo mil conversas imaginárias e pensando em cada detalhe do que eu iria falar quando estivesse com ele. E foi aí que eu passei por desinteressada e levei meu primeiro fora. E quando eu penso que entrei em depressão por causa de um pé na bunda parece tão ridículo! Levei algum tempo pra entender que foi uma reação em cadeia e que o fora talvez tenha sido a faísca final. Eu achava que ia morrer, era desesperador, eu achava que ia ficar sozinha pra sempre e foram meses de insônia pensando “O que eu fiz de errado? Será que eu devia ter falado? Ou não ia adiantar nada?”.

Agora as deslizadas para a esquerda no Tinder se sobressaem aos matches, mas isso porque também aprendi que meu tempo é valioso.

Até que eu comecei a achar um absurdo estar me sentindo tão mal por causa de outra pessoa e decidi procurar ajuda. No começo foi só terapia, mas percebi que o buraco era mais fundo e marquei uma consulta psiquiátrica - melhor decisão dos meus 27 anos. O diagnóstico de TAG e a explicação do médico acendeu uma luzinha e tudo passou a fazer sentido. Não foi o cara que me deixou ansiosa, ele só contribuiu para que eu me desse conta de que tinha um problema. E eu posso afirmar com toda certeza do mundo que a terapia e o tratamento me transformaram em outra pessoa. A pessoa que eu provavelmente deveria ter sido todos esses anos mas que a ansiedade não deixou.

Aprendi a desabafar com as amigas e ser muito sincera com o que eu estou sentindo. Aprendi a respeitar meus limites e a desapegar da opinião alheia. Entendi que tenho que encontrar alguém que caiba na minha vida, e não alguém que vai me moldar para eu caber na dela. Fiquei mais exigente, acho que posso até dizer “menos trouxa”. Agora as deslizadas para a esquerda no Tinder se sobressaem aos matches, mas isso porque também aprendi que meu tempo é valioso. Também não sou mais a que não pode sair no dia de lavar o cabelo porque a ansiedade de ter que secá-lo fala mais alto do que a vontade de ter companhia. Agora, por incrível que pareça, eu dificilmente sou a pessoa que quase não fala no date! Se eu estou ali, é pra fazer valer. E se eu sentir que o santo não bateu, é thank u next mesmo!

(a ansiedade) é a antecipação de que tudo sempre vai dar errado, o medo de ser sincera, a vergonha, a timidez, o desconforto, a raiva repentina, a insegura e a repressão de sentimentos. Mas ela definitivamente não é frescura.

É muito difícil parar para analisar se você é ansiosa ou não até que ela te consuma e se somatize. Eu não achava que era uma pessoa ansiosa, mas talvez porque eu não entendesse a ansiedade. Ela não é só o ataque de pânico e a taquicardia. Ela é a antecipação de que tudo sempre vai dar errado, o medo de ser sincera, a vergonha, a timidez, o desconforto, a raiva repentina, a insegura e a repressão de sentimentos. Mas ela definitivamente não é frescura.

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