Décadas antes de Beckham e Hamilton, o Rei do Futebol já dominava a alfaiataria dos anos 60 e a extravagância dos anos 70, pavimentando o caminho onde o esporte e a alta moda se encontram. Longe dos gramados e dos uniformes pesados de algodão da época, Edson Arantes do Nascimento entendia o poder da própria imagem. Apesar de ter afirmado que não tinha o desejo de ser o maior jogador da história, ele se vestia como o homem mais importante do mundo.
Se hoje o sportswear de luxo e os contratos milionários com grifes são o padrão para os atletas de elite, é porque Pelé, com um olhar aguçado para estilo, abriu essa porta há mais de meio século.

Anos 60: o garoto de ouro e a gola rolê
Após consagrar o Brasil no cenário mundial com os títulos de 1958 e 1962, Pelé virou um cidadão do mundo. Sua estética nos anos 1960 acompanhou o ritmo da Swinging London e o visual dos astros do cinema da época. Era a transição do guarda-roupa clássico para algo mais jovem e urbano.
Fora dos gramados, Pelé adotou o corte inglês seco, com paletós bem ajustados ao peito e de lapelas estreitas. Sua assinatura estética mais forte no período foi a substituição da camisa social pela blusa de gola rolê (turtleneck) sob o blazer — uma escolha que conversava diretamente com o movimento modernista que fervilhava na música e no cinema.
Para arrematar, os óculos escuros de acetato e os relógios de pulso imponentes traziam um ar cosmopolita que descolava sua figura da imagem do “menino da Vila” e o inseria no circuito das celebridades globais.
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Anos 70: Studio 54 e Rolling Stones
Se nos anos 60 Pelé era o clássico cavalheiro, a década de 1970 trouxe o ápice da sua ousadia fashion. A mudança para os Estados Unidos em 1975, para jogar no New York Cosmos, transformou o craque em uma figura carimbada na noite nova-iorquina. Frequentador assíduo do lendário Studio 54, ele dividia a pista de dança com Andy Warhol, Mick Jagger e a nata da moda global.

Foi nessa era que o guarda-roupa de Pelé ganhou cores vivas, texturas ricas e muita personalidade. Nesse período, o visual rígido dos anos 60 deu lugar a silhuetas muito mais fluidas e expressivas. Pelé passou a usar camisas de seda e cetim com as golas alongadas e pontudas do estilo dog ear, quase sempre com os botões superiores abertos. A alfaiataria ganhou imponência com paletós de abotoamento duplo e lapelas generosas, combinados a calças de alfaiataria com o cós alto bem marcado por cintos de fivelas pesadas.
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O corte dessas calças, que descia ajustado até o joelho e se abria sutilmente em uma linha flare sobre sapatos de couro de salto carrapeta, alongava sua estatura e quebrava a sisudez tradicional do terno. Aliás, quantas pessoas você conhece que são capazes de fazer embaixadinhas com jeans e botas?

Essa evolução mostra que o impacto de Pelé na moda não se deu por uma excentricidade deliberada, mas sim pela habilidade de transitar entre a sobriedade exigida pelos chefes de Estado e o hedonismo das pistas de dança nova-iorquinas, estabelecendo um padrão de comportamento e vestuário que os atletas de elite buscam emular até hoje.
