Entre o palco e o mercado: como o BTS redesenha a influência

por Izabela Suzuki

Quando falamos em k-pop, você pode até não gostar do gênero musical e tudo bem. Mas ignorar o tamanho do impacto que ele exerce hoje nas indústrias da música, da beleza e da moda já não é uma opção. Esse movimento não surgiu do nada. De geração em geração, diferentes grupos caminharam para que o BTS pudesse correr, e isso não diminui sua relevância, pelo contrário, ajuda a dimensionar o quanto eles conseguiram expandir esse alcance.

O que antes era nichado, hoje mobiliza milhões de pessoas. Não se trata apenas de acompanhar sete integrantes, mas de consumir uma cultura inteira que se desdobra em comportamento, estética e desejo.

Com ingressos esgotados para três shows no Brasil, segundo dados da CNN Brasil e da Ticketmaster, a demanda ultrapassou 3,7 milhões de entradas — o equivalente a mais de 40 estádios do MorumBIS lotados. O BTS evidencia, assim, um poder que vai muito além da música. Na moda e na beleza, esse impacto se traduz de forma quase imediata. Basta uma aparição, um look ou um detalhe de styling para que marcas e produtos se esgotem, buscas disparem e o número de engajamento exploda. 

BTS posa em grupo com alfaiataria preta e jaquetas de couro diante de fundo vermelho, em clima marcante e confiante.
Foto: BTS (Reprodução/Rolling Stone/Pak Bae)


O crescimento exponencial da Ásia — especialmente na forma como influencia o que assistimos, ouvimos e vestimos — ajuda a explicar por que grupos como o BTS ganharam tanta visibilidade nos últimos anos. E não estamos falando de um fenômeno isolado, mas de uma mudança estrutural no eixo cultural global, que há algum tempo deixou de ser exclusivamente europeu ou norte-americano.

Esse movimento aparece em diferentes frentes. No entretenimento, o sucesso de produções sul-coreanas como Round 6 e Parasita abriu espaço para uma demanda crescente por narrativas asiáticas, incluindo o avanço mais recente de produções tailandesas, que começam a ganhar tração internacional nas plataformas de streaming. Na música, o k-pop deixou passou a operar em escala global, com números que rivalizam com artistas do mainstream ocidental. 

BTS posa em grupo com couro preto, alfaiataria e jeans largos em fundo claro, criando clima elegante e intenso.
Foto: BTS (Reprodução/Rolling Stone/Pak Bae)

Na moda, esse deslocamento também é visível e mensurável. Um dos exemplos mais claros é o hype em torno das Tabi boots, modelo popularizado pela Maison Margiela, mas inspirado em calçados tradicionais japoneses. Nos últimos anos, o item saiu de um lugar conceitual para se tornar peça recorrente no street style e nas buscas globais, impulsionado por stylings que circulam fortemente nas redes asiáticas.

O mesmo vale para movimentos mais recentes, como o lançamento de jaquetas com fechamento de nó chinês por parte da Adidas, que rapidamente se esgotaram e geraram aumento de buscas por termos relacionados à estética oriental. São sinais claros de que referências antes tratadas como regionais passaram a operar como tendência global.

@ron.guevarra08

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E é nesse contexto que o BTS se insere. O grupo não apenas acompanha esse movimento, mas é um dos maiores reposnáveis por amplificar seu alcance. Em termos de números, isso se traduz em impacto direto: segundo relatórios de plataformas como a Launchmetrics, aparições do grupo e de seus integrantes podem gerar milhões de dólares em Media Impact Value (MIV) para marcas de moda e beleza em poucas horas.

Durante a temporada de fashion weeks de primavera/verão 2026, por exemplo, os integrantes do BTS geraram juntos cerca de US$ 39,2 milhões em Earned Media Value (EMV), segundo a plataforma Lefty — valor que considera alcance, engajamento e exposição de marca em redes sociais.

O dado fica ainda mais preciso quando analisado individualmente. Em uma única aparição no desfile da Dior, em Paris, Jimin gerou US$ 33,8 milhões em Media Impact Value — o equivalente a 18% de todo o valor midiático da marca naquele evento.

Jimin, do BTS, posa sorrindo em blazer preto de alfaiataria e calça ampla de couro, com joias douradas em escadaria clara.
Foto: Jimin no desfile da Dior SS26 (Reprodução/Instagram)

Além disso, individualmente, os membros já ocuparam posições de destaque em rankings como o Lyst Index, que mede os produtos e marcas mais desejados do mundo com base em buscas, vendas e engajamento online. Na prática, isso significa que um look usado em aeroporto ou uma campanha específica é suficiente para alterar o comportamento de consumo em escala global.

Para efeito de comparação, esse número supera o impacto total de muitas celebridades e até de algumas marcas inteiras durante a mesma temporada. Esse tipo de métrica — o MIV, calculado por empresas como a Launchmetrics — existe justamente para traduzir visibilidade em valor financeiro, considerando fatores como alcance, relevância e engajamento. Na prática, ele permite mensurar quanto a presença de uma celebridade “vale” para uma marca.

BTS posa deitado em tapete laranja com moletom branco, jeans e cintura Calvin Klein à mostra; clima sensual.
Foto: Jungkook para Calvin Klein (Reprodução/Calvin Klein/Divulgação)

Nessas ocasiões o BTS opera em outro nível: grande parte desse valor não vem de campanhas pagas, mas de buzz orgânico — ou seja, engajamento espontâneo de fãs, mídia e público, que amplia exponencialmente o alcance sem investimento direto. Por exemplo, no lançamento de sua campanha com a Calvin Klein, Jungkook acumulou mais de 2 milhões de menções e 10 milhões de engajamentos em apenas um dia, evidenciando a capacidade de mobilização imediata do fandom.

Esse padrão se repete entre outros membros. Na mesma temporada de desfiles, J-Hope gerou US$ 6,68 milhões em EMV em sua aparição pela Louis Vuitton, enquanto Jin e RM lideraram volume de menções durante a semana de moda de Milão, concentrando uma fatia significativa das conversas digitais.

BTS caminha à noite com jaqueta texturizada, jeans amplos degradê, boné e bolsa marrom em clima urbano confiante
Foto: J-hope para a Louis Vuitton (Reprodução/Instagram)

Esse crescimento também se reflete no comportamento de consumo. Segundo relatórios de mercado, termos como “glass skin” e rotinas de skincare em múltiplas etapas registraram aumentos expressivos de busca nos últimos anos, enquanto ingredientes antes pouco conhecidos — como centella asiática — passaram a integrar o vocabulário global de beleza.

E, novamente, o BTS aparece como catalisador desse processo. Ao longo dos anos, o grupo firmou parcerias com marcas como Mediheal e VT Cosmetics, além de influenciar diretamente o interesse por skincare masculino — um segmento que cresce de forma consistente e que encontra na estética do k-pop uma de suas principais vitrines.

BTS posa em grupo com looks pretos de couro e camadas fluidas diante de palácio iluminado, em clima solene e poderoso
Foto: BTS (Reprodução/BIGHIT MUSIC/Netflix/Divulgação via REUTERS)

Bom, se os números explicam o impacto, o estilo ajuda a sustentá-lo ao longo do tempo. Desde o debut, o BTS passou por uma evolução estética clara: de uma imagem mais alinhada ao hip-hop, com códigos mais rígidos de styling, para uma abordagem mais aberta, que transita entre alfaiataria, streetwear e elementos de gênero fluido. Parte disso vem da própria estrutura do k-pop, em que figurinos de videoclipes, performances e turnês são pensados de forma estratégica, quase como extensões visuais da narrativa musical.

Ao longo dos anos, essa construção ficou mais sofisticada. Parcerias com stylists e diretores criativos passaram a incorporar peças de arquivo, coleções recentes e até customizações de grandes casas como Dior, Louis Vuitton e Celine, criando uma mistura que equilibra tendência e identidade. 

O resultado é um grupo que participa ativamente da forma como moda e cultura circulam, seja antecipando movimentos, construindo narrativas visuais próprias em videoclipes, retornando de hiatos com recordes quebrados ou esgotando estádios em questão de minutos. A essa altura, não se trata mais de gosto pessoal ou afinidade estética: ignorar o BTS já não é uma opção plausível dentro da indústria.