Eu, a pandemia e a minha válvula de escape

por Izabela Suzuki

Sabemos que em tempos de pandemia nada é fácil para ninguém, cada pessoa se apoiou em alguma válvula de escape e saber lidar com o que está acontecendo parece ser o ato mais nobre de resiliência que conseguimos imaginar. Acredito que cada um está tentando lidar com tanta informação e mudanças da maneira que consegue, seja através de novas descobertas, novos hobbies dentro de casa, ou no meu caso, a re-descoberta de uma antiga paixão. 

Essa paixão tem nome, e há 10 anos é ela quem vem trazendo diversas pequenas alegrias no meu cotidiano, que me arrancam um sorriso e me aliviam o coração em horas que tudo parece desmoronar. A minha válvula de escape pode parecer boba ou algo difícil de se compreender e garanto que é mesmo, eu costumo dizer que só quem é fã de algo ou alguém sabe transformar em palavras um sentimento tão profundo e pouco discutido. 

E por que é tão difícil falar disso abertamente? Será que as nossas alegrias são motivos de chacota ou até mesmo de vergonha? A recriminação do que nos faz felizes, em momentos como esse que estamos vivendo, chega a ser injusto! Já que como dito anteriormente, cada um está lidando da maneira como lhe convém. E a forma que eu encontrei foi a de reviver vários momentos que a banda One Direction me proporcionou durante 5 anos.

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Foto: One Direction (Reprodução/Pinterest)

Sim, a banda que já acabou tem 6 anos é a grande responsável por tornar meus dias durante o isolamento mais leves e “fáceis”. Foi durante março do ano passado que a chama reacendeu. Assim como outras pessoas, tive que encontrar uma maneira de sair do tédio durante os primeiros meses incertos da quarentena, e como resultado eu me rendi ao TikTok e descobri que lá, várias outras meninas estavam passando pelo mesmo processo que eu, e então, me senti feliz mais uma vez.

_a tiete

Desde que me conheço por gente, sempre fui a menina que tinha a válvula de escape em cima de alguma banda. Começou em 2007 com os Jonas Brothers e em 2011 evoluiu para a One Direction, e eu me entregava de corpo e alma. Comprava todas as revistas, colava todos os posteres na parede, escrevia inúmeras declarações, passava horas e horas a fio do meu dia ouvindo as músicas e falando sobre eles. E lógico, como qualquer menina adolescente na casa dos 13 ou 15 anos, eu escutava piadinhas sobre essa minha “obsessão” (como era classificada). 

“Você já não está muito grande para gostar deles?” ou “você sabe que eles não têm a menor ideia de quem você é, né?” eram frases comuns e que muitas vezes me chateava, me fazia chorar e ficar emburrada. Mas nunca tive vergonha, muito pelo contrário, quanto mais batiam na tecla de que eu estava sendo boba, mais vontade de mostrar o meu amor por eles eu tinha. E para o meu desespero, essas frases voltaram a aparecer agora, a diferença é que hoje eu lido de uma forma diferente.

A recriminação do que nos faz felizes, em momentos como esse que estamos vivendo, chega a ser injusto!

Hoje eu não choro, não fico emburrada e nem brigo com ninguém. Talvez seja o fato de ter amadurecido dos 14 até os 24 anos ou talvez a ideia de que conforme vamos “envelhecendo”, menos ligamos para o que os outros pensam a nosso respeito. Muito menos em tempos de pandemia, onde nós precisamos dessa válvula de escape. Hoje eu apenas sorrio e digo "mas eu estou, e sou muito feliz assim".

Precisamos de algo que nos de um empurrãozinho para continuar um dia difícil, precisamos de algo que nos permita sonhar e colocar a cabeça nas nuvens às vezes, é preciso reviver alguns momentos que foram bons! Não estou dizendo para esquecer a realidade e se perder em um mundo irreal, entendo que também é importante manter os pés no chão, mas estaria mentindo se dissesse que não sou a favor de poder se desassociar de vez em quando.

_moral da história

É preciso parar para refletir que nós, meninas e mulheres, quase sempre temos nossos sentimentos reprimidos. Ser fã de alguém é assinar um termo de “fanática” aos olhos de outras pessoas que não sentem o mesmo, e ser fã de alguém depois da época da adolescência é mais complicado ainda. 

Precisamos desmistificar isso urgentemente. Não deixe que algo que te faz feliz, pode ser uma banda, seu time esportivo, sua paixão por literatura, sua alegria em desenhar, seja reprimido por algo ou alguém, ainda mais quando estamos falando sobre aquilo que faz seu olho brilhar, que te arranca um sorriso do rosto, que te alivia o coração e que te motiva a continuar seguindo com força o dia a dia. 

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