Livros de mulheres malucas: entenda o termo e descubra quais são os melhores

por Izabela Suzuki

Cara amiga leitora, antes de qualquer coisa, calma: ninguém aqui está chamando nenhuma personagem (ou mulher) de “maluca” de forma pejorativa. Muito pelo contrário. Se você passou algum tempo no BookTok nos últimos meses, provavelmente já se deparou com vídeos indicando os famosos books about crazy women ou, na tradução livre, “livros de mulheres malucas”. Apesar do nome curioso, o termo virou uma forma quase carinhosa de reunir protagonistas femininas intensas, contraditórias, emocionalmente complexas e, principalmente, muito humanas.

São mulheres que erram, obsessivas às vezes, egoístas em outros momentos, apaixonadas, confusas, brilhantes e até um pouco caóticas. Em outras palavras: personagens que fogem da obrigação de serem sempre fortes, perfeitas ou moralmente corretas. E talvez seja justamente por isso que tanta gente se veja nelas. Se você ficou curiosa para entender de onde surgiu essa tendência e descobrir alguns dos melhores livros dessa categoria, vem comigo.

O termo nasceu dentro das comunidades literárias das redes sociais para descrever histórias protagonizadas por mulheres complexas, impulsivas e emocionalmente intensas, que fogem dos arquétipos tradicionais da “mocinha perfeita”.

São personagens que tomam decisões questionáveis, vivem relacionamentos complicados, enfrentam crises existenciais e, muitas vezes, narram suas próprias histórias de maneira pouco confiável. Justamente por isso, costumam provocar sentimentos contraditórios no leitor: ora despertam empatia, ora irritam profundamente — e essa é parte da graça.

Durante muito tempo, personagens femininas foram escritas para serem agradáveis, corretas e facilmente admiradas. Hoje, há um movimento crescente na literatura que busca justamente o contrário: permitir que mulheres também sejam contraditórias, imperfeitas e difíceis de compreender.

É por isso que essas protagonistas fazem tanto sucesso no BookTok. Elas lembram pessoas reais. Sentem inveja, raiva, desejo, culpa, obsessão e medo sem que a narrativa tente, o tempo todo, justificá-las ou transformá-las em heroínas. Em vez de oferecer respostas prontas, esses livros convidam a leitora a observar mulheres em toda a sua complexidade.

Se você gosta de romances em que as protagonistas são impecáveis e tomam sempre as melhores decisões, talvez essa categoria não seja a sua favorita. Agora, se prefere personagens que parecem pessoas reais, cheias de defeitos, conflitos e decisões questionáveis, existe uma boa chance de você encontrar aqui algumas das leituras mais marcantes da sua estante

Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso

A rotina da publicitária Fernanda vira de cabeça para baixo quando Majú, a babá de sua filha de dois anos, desaparece levando a criança. Conforme o desespero toma conta, a narrativa alterna entre os pontos de vista dessas duas mulheres, revelando um casamento em crise, o cansaço da vida corporativa e as fraturas sociais do cotidiano em São Paulo. Giovana Madalosso constrói personagens complexas e cheias de contradições, explorando maternidade, culpa e privilégios sem cair em respostas fáceis.

Eu amei Suíte Tóquio, da Giovana Madalosso: protagonistas intensas. Eu amei odiar e odiei amando elas.”Gabi Oliveira

Cleópatra e Frankenstein, de Coco Mellors

O casamento entre Cleo, uma jovem artista britânica, e Frank, um empresário bem mais velho, parece o início de um romance digno de cinema. Mas, aos poucos, a história revela que o amor nem sempre é suficiente para sustentar uma relação. Com personagens imperfeitos e emocionalmente caóticos, o livro se tornou um dos queridinhos das leitoras que gostam de dramas contemporâneos.

“Adoro casais improváveis que parecem que vão dar certo… e dão errado! Senti uma vibe Gossip Girl para adultos que amam Normal People.” Nicole Andreta e Gabi Travizzanutto

A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath

Considerado um dos maiores clássicos da literatura feminina, A Redoma de Vidro acompanha Esther Greenwood enquanto ela tenta entender quem é, o que deseja e qual lugar ocupa no mundo. Publicado originalmente em 1963, o romance aborda expectativas sociais, identidade e saúde mental de forma sensível e profundamente íntima, tornando-se uma das principais referências quando o assunto são protagonistas femininas complexas.

A mother das mulheres malucas. A Syl sabe colocar nas melhores palavras — e em 300 páginas — o melhor sobre o desejo de ter e o tédio de possuir. Afinal, resumir pra quê?” Nicole Andreta

Belo Mundo, Onde Você Está, de Sally Rooney

Se você gosta de personagens difíceis de defender, Sally Rooney provavelmente já conquistou um espaço na sua estante. Neste romance, quatro protagonistas lidam com amor, amizade, carreira e inseguranças enquanto tentam encontrar algum sentido para a vida adulta. Os diálogos longos e as reflexões existenciais são marca registrada da autora.

“Às vezes, tudo o que a gente precisa é se identificar com um personagem detestável — ou quatro.”Nicole Andreta

À Sombra de Vossas Asas, de Fernanda Young

Com muito humor ácido, ironia e um perigoso jogo psicológico, o segundo romance de Fernanda Young mergulha na mente de Carina, uma jovem obcecada que traça um elaborado plano de transformação física e vingança para prender um fotógrafo famoso em uma teia de casamento, ciúme e manipulação. É uma narrativa visceral sobre obsessão, dependência emocional e as pequenas tragédias e bizarrices das relações humanas.

“Se a Fleabag fosse brasileira.”Nicole Andreta

Animal, de Lisa Taddeo

Joan é uma protagonista intensa, imprevisível e movida por traumas que atravessam toda a sua vida. Em Animal, Lisa Taddeo constrói um romance psicológico marcado por desejo, violência, obsessão e culpa, criando uma personagem que dificilmente passa despercebida pelo leitor.

“Amei, amei, amei Animal, da Lisa Taddeo. Foi um livro muito marcante e eu simplesmente não consegui largar até terminar.”Giovanna Ferrante

Meu Ano de Descanso e Relaxamento, de Ottessa Moshfegh

O ponto de partida é simples e completamente absurdo: uma jovem decide passar praticamente um ano inteiro dormindo para escapar da própria vida. A partir dessa premissa, Ottessa Moshfegh constrói uma protagonista extremamente sarcástica, egoísta e pouco preocupada em agradar qualquer pessoa — justamente uma das razões pelas quais tantas leitoras adoram esse livro.

“Esse eu amo de paixão porque me tirou da ressaca literária! Achei a protagonista extremamente ácida e desagradável, e eu gosto muito quando personagens femininas são tiradas desse lugar de agradáveis e queridas.”Larissa Trindade

O Primeiro Homem Mau, de Miranda July

Estranho, desconfortável e surpreendentemente engraçado, o romance acompanha Cheryl, uma mulher solitária que vê sua rotina virar de cabeça para baixo quando passa a dividir a casa com uma jovem completamente diferente dela. Miranda July cria uma protagonista peculiar e absolutamente sem filtros, explorando desejos, obsessões e relações humanas de forma bastante original.

“Também vai muito nesse lugar da personagem ácida, numa vibe 100% unapologetic.”Larissa Trindade

De Quatro, de Miranda July

Miranda July volta a explorar personagens femininas inquietas neste romance que acompanha uma artista atravessando uma profunda crise de identidade durante uma viagem que deveria ser simples. Entre desejos reprimidos, questionamentos e decisões impulsivas, o livro investiga tudo aquilo que normalmente fica escondido sob a superfície.

A Vegetariana, de Han Kang

Vencedora do Nobel de Literatura, Han Kang apresenta uma protagonista que decide, de forma aparentemente simples, parar de comer carne. A escolha desencadeia uma série de conflitos familiares, sociais e psicológicos, transformando o romance em uma poderosa reflexão sobre autonomia, violência e o controle exercido sobre o corpo feminino.

“Os dois livros têm histórias ficcionais com mulheres em conflitos internos e reviravoltas que despertam repulsa e empatia ao mesmo tempo. Fiquei chocada, intrigada e querendo conhecer essas personagens tão ‘malucas’. Eu não indico a leitura — acho que só os corajosos podem se aventurar.”Tati Carvalho