Mulheres no cinema: a diferença que faz o nosso olhar em produções audiovisuais

por Giulia Coronato

Você sabe o que é male gaze? O termo em inglês que foi popularizado pela crítica de cinema, Laura Muvey, em 1975 no seu ensaio Visual Pleasure and Narrative Cinema, significa basicamente "olhar masculino", isso é, a perspectiva masculina sob as personagens femininas do cinema e da televisão. Apesar da tradução, o termo vai muito além da aparência e das construções físicas das personagens, ele engloba tudo o que é atribuído às personagens quando são construídas como um objeto de desejo ou dependentes do interesse ou jornada de um homem, sendo sempre sexualizadas e diminuídas. 

É claro que há 46 anos, quando Laura popularizou o termo, a representação de mulheres no cinema e na televisão era ainda mais superficial e secundária do que hoje, sempre colocando a mulher como um mero objeto nas narrativas masculinas. Com o passar das décadas e com a maior inclusão de mulheres no cinema em posições de criação, produção e desenvolvimento, nossa representação nas telas tem sido mais honesta, profunda e complexa, mas ainda assim, estamos longe do ideal.  

Em 2020, batemos o recorde de filmes dirigidos por mulheres na lista das maiores bilheterias do ano. De acordo com um estudo da San Diego State University, as histórias dirigidas por mulheres representaram um recorde de 16% dos filmes de maior bilheteria do ano passado, com dois deles dentro do Top 10, um deles foi o longa da DC Comics, Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa.

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Foto: Margot Robbie (Reprodução)


Nas duas representações cinematográficas de Arlequina vemos um exemplo claro do male gaze em prática, ao compararmos as duas abordagens da personagem. Primeiro em Esquadrão Suicida, dirigido por David Ayer, e depois em Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa, dirigido por Cathy Yan. 

No filme de 2016, quando Arlequina é construída a partir do olhar masculino, o foco da personagem é, na maior parte do tempo, em sua aparência e seu corpo, tendo sua imagem completamente sexualizada. Logo no início do filme, a personagem de Margot Robbie protagoniza uma cena em que se veste na frente de um grupo de homens enquanto a câmera caminha devagar pelo seu corpo. 

Já quando temos uma mulher no papel de diretora, a realidade e a abordagem da vilã é completamente diferente. E não vemos isso só a partir do figurino escolhido, que passa de roupas extremamente justas e curtas para algo mais criativo, brilhante e colorido, como também na forma em que ela é filmada e em como a personagem se porta em cenas de luta. Apesar da Arlequina de Aves De Rapina possuir a mesma sensualidade e irreverência da de Esquadrão Suicida, ela não é constantemente sexualizada pelas câmeras. Discrepâncias como essas mostram o quão urgente é a inserção de mais mulheres no cinema. Não só para ser justa em representações femininas, como também para ir contra uma cultura de hiper sexualização que só prejudica as mulheres. 

discrepâncias como essas mostram o quão urgente é a inserção de mais mulheres no cinema.

It girls - Wonder Woman - Mulheres no cinema - Verão - Red Carpet - https://stealthelook.com.br
Foto: Lynda Carter, Gal Gadot (Reprodução)

Outro exemplo marcante é no filme Mulher-Maravilha, que estreou em 2017 e foi dirigido Patty Jenkins. O longa foi um avanço imenso para mulheres no cinema e inaugurou um novo tipo de filme de herói. Apesar de ainda seguir as mesmas "regras" tradicionais dos longas baseados em quadrinhos, existia algo completamente diferente no filme, que era difícil de colocar em palavras, mas era extremamente fácil de ser percebido, principalmente pelo público feminino. O jeito que a heroína se movimentava, lutava e mostrava sua força era inédito. O poder da personagem era representado de uma forma diferente do que já havíamos visto em outras versões da Mulher Maravilha para o cinema ou para a televisão.

No longa dirigido por Jenkins, a maior e mais notável diferença não foi o traje da personagem, e sim a forma como ela foi retratada. Os ângulos em que ela era filmada e o jeito em que sua força era representada foi totalmente novo para um papel feminino. Enquanto em a Liga Da Justiça, filme dirigido por Joss Whedon e Zack Snyder, a heroína era sempre filmada de baixo e sua participação em cenas de ação completamente secundária, em Mulher-Maravilha, Jenkins se coloca no mesmo nível da personagem, sempre a filmando na mesma altura e não precisamos nem falar das cenas de ação, né? 

o poder da personagem foi representado de uma forma diferente do que já havíamos visto em mulheres no cinema ou na televisão.

Para entendermos um pouco mais sobre o papel da mulher no cinema, convidamos Valentina Pulgarín, apresentadora da Warner Channel e autoridade no assunto para bater um papo com a gente. 

_além de ir contra o male gaze, qual você considera a importância de termos mais mulheres como diretoras e produtoras no cinema e na televisão?

VP: Uau! Eu sinto que a importância desse momento é estarmos finalmente vivendo nossas primeiras vezes. Por exemplo, como não lembrar da Chloé Zhao com essa pergunta? Essa mulher está fazendo história e a gente tem a sorte de ver isso ao vivo. Ela é a diretora do filme Nomadland que está agora nas premiações. No Globo de Ouro, ela foi: a primeira mulher a levar o prêmio de Melhor Direção, a primeira mulher asiática a produzir um filme que levou Melhor Filme e o mais importante, essa foi a primeira vez que o longa que levou Melhor Filme foi dirigido por uma mulher. Em um dos seus discursos depois de levar seus prêmios, ela mesma disse que já era hora de todas essas primeiras vezes acontecerem e que se mais pessoas como ela puderem seguir os seus sonhos e fazer o que amam na vida depois disso, tudo valeu a pena.

_no exemplo da personagem Arlequina, quais foram as maiores diferenças que você notou na visão feminina e masculina?

VP: Meu deus, por onde começar? Eu vejo pelo menos quatro grandes diferenças entre a Arlequina do filme Esquadrão Suicida e de Aves de Rapina. A mais gritante pra mim foi o figurino, claro. Em seguida, vimos as novas parcerias da Arlequina sob a visão da diretora Cathy Yan (que, inclusive, é uma das pessoas mais inteligentes que já entrevistei). Finalmente Arlequina se junta a outras mulheres pra mostrar o que girl power e sororidade significa no mundo dos super heróis. Em terceiro lugar, a história da personagem se desprende da personalidade do Coringa, afinal de contas, já era hora dela ser independente, convenhamos. E por fim, os diálogos entre as personagens femininas são tantos, tão engraçados e inteligentes que devem estourar qualquer teste de bechdel.

_nos filmes de herói, é comum vermos personagens mulheres como secundárias na narrativa masculina, você acredita que isso está mudando?

VP: Infelizmente, acredito que ainda não chegamos lá. O universo nerd ainda é machista e isso é refletido em alguns roteiros de filmes, na hiper sexualização dos corpos das mulheres nos games e por aí vai. Pra mim o diagnóstico é que existe um caminho longo e trabalhoso para trilhar, mas nunca seremos impedidas de continuar trilhando ele! Ainda bem que temos respiros no meio das produções de super heróis. Minha dica é a série Supergirl, que como você deve imaginar, tem uma mulher bem poderosa e kryptoniana como protagonista, e além disso, a série fala de assuntos delicados como preconceitos com imigrantes, mulheres em posições de poder em grandes empresas e é uma das séries com a maior representatividade de atores, personagens e arcos LGBTQIA+.

_nas séries de televisão, é mais frequente vermos histórias de mulheres complexas e profundas, diferente do cinema, por quê você acha que isso acontece?

VP: Olha, não sei se vejo com tanta clareza essa diferença entre as narrativas das mulheres nas séries e nos filmes, mas uma coisa é fato: o mercado das séries tem MUITAS mulheres em diversos níveis, principalmente grandes showrunners (ou seja, o cargo da dona e proprietária da série). É incrível como vemos e admiramos tantas showrunners mulheres como Shonda Rhimes, Julie Plec, Michaela Coel, Phoebe Waller-Bridge, Misha Green e tantas outras que amamos e falamos em alto e bom som: que mulherão da porra!

_e por último, indique pra gente três filmes dirigidos por mulheres que todo mundo deveria assistir!

VP: Pra começar: Nomadland! Se você só puder assistir um filme dessa temporada de premiações, pode apostar nele. Quando o Oscar chegar, você vai tirar onda com as amigas por já ter visto faz tempo um dos grandes indicados da noite. Em seguida: Retrato de Uma Jovem em Chamas. Esse filme é de 2019, foi dirigido pela Célina Sciamma e é ótimo para quem quiser ouvir um pouquinho de francês e ver mulheres intensamente maravilhosas. Por último, vamos de indicação BR! Pra quem quiser relaxar com uma história nostálgica dos anos 80 no Brasil, pode assistir Califórnia, da Marina Person.

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Foto: Califórnia (Reprodução)

Ao incluirmos mais mulheres no cinema e em outras posições de poder e influência, espalhamos por aí o "olhar feminino" e caminhamos contra a visão machista e sexualizada que a mídia ainda tem sobre as mulheres. Sim, o número de mulheres dirigindo e desenvolvendo produções cinematográficas é maior do que nunca, mas ainda assim é baixo, principalmente pela falta de espaço e visibilidade que as mulheres têm. 

E o que podemos fazer para ajudar? Consumir conteúdos feitos por mulheres. Assista mulheres, ouça mulheres, fomente a arte produzida por mulheres. Isso em si, já é um começo e um avanço e tanto. 

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