Eu não posso ser a única pessoa que está cansada do discurso sobre “pessoas bonitas versus pessoas feias” na televisão. A última vez que um conteúdo como esse apareceu no meu feed, fiquei extremamente desgostosa (amo essa palavra!). E a verdade é que o discurso vazio e raso sobre não assistir determinada série ou filme só porque o protagonista não te agrada visualmente nunca deveria nem ter virado pauta.
Você pode até chamar isso de opinião pessoal, mas opiniões também são construídas socialmente. Quando milhares de pessoas repetem que não assistem a uma série porque a protagonista é “feia”, elas não estão apenas revelando um gosto individual. Estão reforçando a ideia de que apenas determinados rostos merecem ocupar o centro da narrativa. E quem decidiu isso?

Eu lembro como se fosse ontem quando foi anunciada a adaptação de Um Dia e a quantidade de comentários dizendo que Ambika Mod “não era bonita o suficiente” para protagonizar a história. Muita gente afirmava que nem assistiria à série por causa disso. Minha timeline foi inundada por esse tipo de comentário. Culpa minha; se eu estivesse cuidando da casa, não estaria passando raiva lendo tanta bobagem.
Não importava que a história fosse linda, que o roteiro fosse impecável e que as atuações fossem de cair o queixo. O que importava era que a atriz não estava dentro daquilo que as pessoas consideram belo e, portanto, era “impossível terminar a série”.
Parece que hoje um personagem não pode apenas ser inteligente, engraçado, corajoso ou complexo. Antes de qualquer coisa, ele precisa ser bonito. Como se a aparência fosse um requisito para que sua história merecesse ser contada.
Me parece cômico que ainda tenhamos que bater nessa tecla sobre belezas fora do padrão e representatividade depois de tantos anos. Mais estranho ainda é perceber que retrocedemos a ponto de muitas pessoas declararem, com orgulho (ou prazer?), que não ligam, não fazem questão ou simplesmente não querem representatividade na televisão.
Hollywood passou décadas fabricando estrelas. Narizes eram afinados, dentes substituídos, cabelos mudados, nomes americanizados, pesos controlados. A indústria não apenas escolhia seus protagonistas: ela fabricava um padrão de beleza que seria exportado para o mundo inteiro. Décadas depois, continuamos olhando para esses rostos como se fossem o parâmetro natural — e quase inevitável — da beleza.
Não é à toa que Stuart Hall, um dos principais estudiosos da representação cultural, defendia que a representação produz significado. Se determinados tipos de corpos, rostos e pessoas aparecem constantemente como protagonistas, heróis, interesses amorosos e pessoas desejáveis, enquanto outros surgem apenas como alívio cômico, vilões ou simplesmente desaparecem da narrativa, o público aprende quem “merece” existir naquele espaço.
Ou seja, não é que pessoas bonitas estejam na televisão porque são “naturalmente mais interessantes”. Nós aprendemos que elas são mais interessantes porque só elas ocuparam esse lugar durante décadas. E, quando uma pessoa diferente daquilo que estamos condicionados a enxergar como atraente ocupa esse espaço, a reação é quase imediata.

A televisão sempre foi um espelho imperfeito da sociedade. O problema é que, quando esse espelho reflete sempre os mesmos rostos, ele deixa de mostrar quem somos e passa a nos dizer quem deveríamos ser.
E, no meio disso tudo, me dói perceber que estamos perdendo espaço para uma diversidade de rostos e belezas em favor de um ideal cada vez mais homogêneo. Em troca, ganhamos protagonistas que parecem seguir a mesma cartilha estética, como se a repetição de um único padrão tivesse se tornado sinônimo de beleza. Com isso, fisionomias memoráveis vão desaparecendo aos poucos.
Se aceitarmos isso sem questionar, deixamos de discutir quem define o que é belo, por que esse padrão foi construído e quem fica de fora quando transformamos beleza em requisito para existir na ficção.
Bom, sempre dizem que a arte imita a vida. Curioso, então, que exista tanta gente exigindo que a televisão seja povoada apenas por pessoas que dificilmente encontramos na vida real. Talvez o problema não seja ver pessoas “feias” na tela. Talvez seja perceber que elas se parecem mais conosco do que gostaríamos de admitir.

