O efeito Matthieu Blazy: como a Chanel voltou a capturar o zeitgeist

por Izabela Suzuki

O que é a Chanel? A maison dos casacos de tweed impecáveis? Da sapatilha bicolor e do logo emblemático? A marca que transformou desfiles em espetáculo sob a direção de Karl Lagerfeld — ora um supermercado, ora um carrossel gigante, ora um cenário quase pós-apocalíptico? Ou seriam as bolsas: desejadas, disputadas e, para muitos, verdadeiros ativos de investimento?

Pode ser que o primeiro nome que venha à sua cabeça seja o de Coco Chanel. Talvez você lembre também da histórica rivalidade com Elsa Schiaparelli. Não importa exatamente qual imagem surge primeiro: é impossível pensar na Chanel sem evocar o que a maison foi, o que ela é e, sobretudo, o que ela será. Porque, mesmo para uma marca construída sobre a ideia de atemporalidade, permanecer relevante nunca é um dado garantido. Mas será o quê, exatamente? Sob nova direção, ainda em construção e quase como um esboço de sonho, o futuro da Chanel começa a tomar forma.

Chanel em clima confiante: homem caminha na passarela com malha azul-marinho, calça reta e tênis escuros diante do público.
Foto: Matthieu Blazy (Reprodução/Vogue Runway)


Essa pergunta sobre o futuro da Chanel não surge do nada. Nos últimos anos, parte da indústria passou a se perguntar se a maison estaria confortável demais em sua própria herança. O que por décadas foi visto como clássico e atemporal começou, para alguns críticos, a flertar com o antiquado. Não por falta de história, mas por parecer menos conectado às conversas estéticas e culturais do presente. Em um mercado onde relevância cultural se renova a cada temporada, até mesmo um nome como Chanel não está imune ao risco de perecer.

desejo x hype x herança

E é aqui que o desejo de permanecer relevante ganha um nome: Matthieu Blazy. O diretor criativo parece apontar não para uma revolução cataclísmica, mas para um movimento mais sutil. Uma transformação que ecoa tudo aquilo que sempre definiu a grife. Em suas palavras, trata-se de “uma revolução silenciosa, mas com estrondo”.

Estrondo esse que já alcançou as lojas. E não sou eu quem está dizendo isso do nada — embora, fã assumida de Matthieu Blazy, confesso que poderia muito bem ser. No início de março, a primeira coleção do designer chegou às lojas de Paris e desencadeou uma verdadeira euforia. “Editores, compradores, modelos e influenciadores, todos convenientemente em Paris para a Semana de Moda, juntaram-se a clientes fiéis e novos consumidores para disputar um pedaço da coleção Primavera 2026 antes que esgotasse”, escreveu Camille Freestone para a Harper's Bazaar.

Mas a pergunta que fica é: por quê? O que causou essa comoção, esse alvoroço em torno das peças de Blazy? A resposta mora nos detalhes — exatamente onde também vive o desejo pelas criações do francês, já que o seu diferencial é justamente seu domínio técnico e obsessão por matéria e construção de roupas.

Chanel destaca mule de salto bloco preto com estampa orgânica e biqueira verde, sob barra vinho com pompons.
Foto: Chanel SS26 (Reprodução/Vogue Runway)

Sapatos vamp que tiram o mule do óbvio, bolsas oversized — ora felpudas, ora bordadas — que transitam entre o pretinho básico e tons mentolados, sedas que lembram jeans, além de sapatilhas com estampas de cervo que dialogam com o hype entre as novas gerações. Tudo isso enquanto respeita, quase com reverência, os códigos que construíram a história da Chanel. É o melhor dos dois mundos: em vez de tentar reescrevê-los, Blazy parece mais interessado em reaprender a falá-los em 2026.

Modelo desfila com bolsa Chanel matelassê branca de corrente dourada e vestido floral texturizado em tons quentes.
Foto: Chanel FW26 (Reprodução/Vogue Runway)

E fica evidente que, enquanto algumas das outras grandes grifes ainda lutam por um lugar ao sol, esse não parece ser o caso da Chanel. De Nova York a Paris, filas se formam diariamente nas portas das boutiques com clientes dispostos a colocar as mãos em alguma peça da era Blazy. Só no último ano, de acordo com o perfil Data But Make It Fashion, a maison registrou um crescimento cerca de 30% superior ao de outras marcas de luxo.

quem veste chanel hoje?

Parte das análises internacionais também apontam que Matthieu Blazy tem revisitado o espírito original da Chanel, especialmente a estética La Garçonne que marcou os anos 1920. Silhuetas mais retas, alfaiataria inspirada no guarda-roupa masculino e peças pensadas para acompanhar o movimento do corpo. Curiosamente, esse retorno ao passado acaba soando extremamente contemporâneo.

Chanel em terno risca de giz preto oversized; Harry Styles posa sereno no tapete vermelho. Texto: BRIT AWARDS 2026.
Foto: Harry Styles (Reprodução/Mike Marsland/WireImage via Getty Images)

Portanto, essa nova fluência também aparece em quem veste Chanel hoje. Nos últimos meses, nomes como A$AP Rocky — que é embaixador da grife — Harry Styles e Jacob Elordi foram vistos incorporando as criações da maison em seus próprios guarda-roupas. Um movimento que amplia o alcance da marca para além do imaginário feminino que tradicionalmente a define. Esse movimento alimenta especulações de que a grife possa até expandir sua presença no vestuário masculino no futuro.

Chanel no tapete vermelho: modelo posa em vestido sereia preto e branco com brilho, transparência e plumas.
Foto: Teyana Taylor (Reprodução/Kevin Mazur via Getty Images)

Esse novo momento da Chanel também começa a se refletir em outro termômetro importante da moda: o tapete vermelho. Durante o Oscar 2026, diversas celebridades foram vistas usando criações da grife, reforçando o alcance cultural da marca neste novo capítulo. No after-party da Vanity Fair, Kendall Jenner surgiu com um look custom da maison, enquanto Pedro Pascal, Teyana Taylor e Jessie Buckley também apostaram na marca. Já Nicole Kidman, embaixadora de longa data da Chanel, reforçou o vínculo histórico da grife com Hollywood.

a chanel nas passarelas

Mas o movimento vai além de uma noite de premiação. Nos desfiles recentes da casa, a primeira fila tem reunido nomes de diferentes gerações e linguagens culturais — de Fernanda Torres a Tilda Swinton e Jon Bon Jovi — sinalizando uma aproximação deliberada com personalidades de forte presença cultural. Em um momento em que o tapete vermelho funciona como uma das vitrines mais poderosas da moda, garantir que esses looks custom circulem com visibilidade global é parte essencial da estratégia.

Não por acaso. A construção minuciosa das roupas sempre foi uma das especialidades de Matthieu Blazy — e é justamente esse nível de detalhe que ganha nova dimensão quando visto sob os holofotes de grandes premiações. Em um cenário em que muitos looks de red carpet parecem cada vez mais padronizados, ver uma celebridade usando Chanel hoje carrega um certo frescor: um lembrete do cuidado artesanal e da precisão estética que definem essa nova fase da maison.

Chanel: modelo caminha com moletom bege amplo, jeans claro e bolsa de corrente dourada em clima urbano elegante.
Foto: Bhavitha Mandava (Reprodução/WWD)

Esse reposicionamento também aparece nas escolhas de casting. Para o desfile Métiers d’Art da Chanel em dezembro, Matthieu Blazy escolheu a modelo indiana Bhavitha Mandava para abrir a apresentação — tornando-a a primeira modelo indiana a ocupar esse lugar em um desfile da marca. A escolha ganha ainda mais significado quando se considera o cenário do show: uma estação de metrô abandonada em Nova York, cidade onde Mandava começou sua carreira como modelo e que, ao sair do Grand Palais, em Paris, dialoga de maneira muito mais cool com uma possível nova geração de consumidores.

Decisões como essa indicam um movimento claro de Blazy em direção a uma Chanel mais internacional e representativa. Nas passarelas recentes da marca, o designer também tem ampliado a diversidade de perfis ao dar destaque a mulheres mais velhas e a modelos com trajetórias distintas daquelas tradicionalmente associadas ao universo da moda. Em vez de apenas atualizar a estética da maison, Blazy parece interessado em atualizar também quem ocupa esse espaço. Todos esses momentos indicam como a marca volta a ocupar um lugar central no mundo da moda, transformando eventos globais em vitrines para essa nova fase que, a princípio, tem tudo para ser histórica.