O filme mais fashion do ano? Entenda o impacto do figurino de Marty Supreme
Dirigido por Josh Safdie, Marty Supreme chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira (08/01) cercado de expectativa, não só pela performance de Timothée Chalamet, mas pela atenção aos detalhes que atravessam toda a produção. Aqui, o figurino não entra como mero complemento estético, mas como parte essencial da narrativa, ajudando a contar quem são esses personagens, de onde vêm e, principalmente, quais a suas ambições e sonhos.
Assinados por Miyako Bellizzi, os figurinos foram pensados para parecerem reais, usados e vividos. Por isso, muitas peças foram criadas do zero pela própria equipe, justamente para que pudessem ser desgastadas, ajustadas e “estragadas” até atingirem a textura certa da vida cotidiana. De Marty e Kay a figurantes em pistas de boliche em Nova Jersey, hóspedes de hotéis baratos e até uniformes de tênis de mesa de 16 seleções nacionais, tudo foi cuidadosamente construído para sustentar o universo do filme. Um trabalho minucioso que ajuda a entender por que Marty Supreme é um dos projetos mais comentados do momento.

por trás do figurino de Miyako Bellizzi e ambição de Marty Mauser
Responsável por outras produções como Joias Brutas (2019) e por editoriais de revistas que vão da Love Magazine ao New York Times, Miyako Bellizzi contou, em entrevista à Vogue, que a ideia era mostrar quem Marty Mauser (Timothée Chalamet) era para o mundo e, principalmente, quem ele desejava parecer ser. Afinal, o filme acompanha a trajetória de um vendedor de sapatos com a ambição de se tornar o maior jogador de tênis de mesa da história.
Para isso, o figurino se inspira nos ternos zoot da cena nova-iorquina. Desde o comprimento das calças usadas pelo personagem — que, na década de 1940, representava riqueza (quanto mais longa a perna, mais tecido era necessário; quanto mais tecido, mais dinheiro você tinha) — até as ombreiras marcadas dos blazers, tudo ajuda a traduzir visualmente o desejo de ascensão e a ambição de Marty ao longo da narrativa.
Esses detalhes também evidenciam o poder da caracterização na construção de um personagem. Ainda na mesma entrevista, Bellizzi comentou que, ao acertarem o caimento das peças e a silhueta de Marty, até a forma como Timothée caminhava mudou — um reflexo direto de como o figurino influencia o corpo, postura e presença em cena.

A extravagância da personagem Kay
Kay (Gwyneth Paltrow), uma atriz hollywoodiana da época, teve seus figurinos inspirados nos primórdios da Balenciaga e da Dior. Como curiosidade, estima-se que Bellizzi tenha produzido mais de meia dúzia de réplicas de colares da Cartier usados por estrelas nas décadas de 1940 e 1950.
Para a figurinista, o principal objetivo das roupas da personagem era apresentá-la como uma figura majestosa e sofisticada. Nesse processo, nomes como Grace Kelly e Marlene Dietrich serviram como referências centrais de estilo e atitude.
Mas não foi apenas o glamour que entrou em cena. O figurino também traduz o confinamento emocional de Kay em um relacionamento que não a fazia feliz. Para isso, Bellizzi recorreu à psicologia das cores: no início da história, a personagem aparece em uma paleta escura, dominada por cinzas e pretos. Já em um momento crítico da relação com Marty, surge usando um vestido vermelho vivo, um contraste visual que marca intensidade e também conflito.

As roupas de Rachel Mizler
Em contraste com Kay, a personagem Rachel (Odessa A’zion) se mantém fiel a peças de lã tricotadas à mão e a roupas mais básicas. Bellizzi contou, em entrevista à Harper’s Bazaar, que Odessa era sua “Bonnie”, em referência ao filme Bonnie and Clyde (1967).
Para ajudar a sustentar esse tom, a figurinista encomendou cerca de 50 malhas diretamente da Turquia — uma mescla entre vestidos de tricô justos e cardigãs mais encorpados, usados para sobrepor uma série de camisas com gola Peter Pan, inspiradas em modelos vintage. O resultado é um guarda-roupa que parece simples à primeira vista, mas carregado de intenção e construção.
Mas não se deixe enganar. Bellizzi não chamou a personagem de Bonnie à toa. Mesmo com um figurino mais enxuto e menos extravagante quando comparado ao de Kay, o próprio diretor definiu o visual de Odessa e Timothée como “malandros da cidade no campo.”

Tudo isso foi pensado a partir de um Lower East Side pós-guerra, muitas vezes carregado, abarrotado e caótico. Nesse contexto, surgiu o desafio de definir o tom visual do filme e de seus personagens. “Miyako achou que deveríamos fazer o Lower East Side parecer que estava preso ao passado, enquanto o Upper East Side seria alta-costura novinha em folha, recém-saída das passarelas”, comentou Safdie em entrevista à Vogue.
Daí nasce o contraste entre as roupas dos protagonistas, que vai além da estética e ajuda a contar a história de onde eles vieram, para onde desejam ir e quais mundos estão tentando atravessar.
marty supreme: o filme mais fashion e viral do ano?
Ainda é cedo para cravar, mas há quem já associe os elogios a Marty Supreme não só à profundidade do estudo por trás da composição dos figurinos, como também à estratégia de divulgação conduzida por Timothée Chalamet e pela produtora A24 ao longo dos últimos meses. De pop-ups a jaquetões vintage, a repercussão cultural do filme foi gigante.
Inspiradas em modelos vintage dos anos 90, as jaquetas foram distribuídas entre amigos do ator e personalidades de universos distintos — até Michael Phelps entrou na jogada. O resultado foi um marketing quase orgânico, que atrelou a imagem de Chalamet à de Marty como figuras movidas por uma busca quase absurda pela grandeza. Uma estratégia que colocou o filme em evidência nas premiações, gerou buzz genuíno com o público e, de quebra, subverteu os modelos tradicionais de divulgação em Hollywood.

Mas não é só isso que coloca o filme em um possível pódio dos figurinos. As colaborações entre designers e a própria produção do longa também ajudam a sustentar esse lugar de destaque. Isaac Mizrahi, designer norte-americano, atuou como agente da personagem de Gwyneth Paltrow e foi uma das principais referências consultadas por Bellizzi ao longo do processo criativo.
Já Tyler, The Creator, entra em cena dentro e fora da narrativa: além de participar do universo do filme, sua estética — marcada pelo vintage com pegada streetwear — ajudou a ampliar o diálogo entre moda, cultura pop e construção de imagem, reforçando o impacto visual de Marty Supreme.
