A cada ano fica mais difícil usar a palavra “feio” para definir uma peça de roupa ou acessório. Afinal, não só temos lutado cada vez mais por uma quebra de padrões de beleza, mas também celebrado as diferenças de estilo e a autenticidade. Mas, de tempos em tempos, os designers ainda conseguem arrancar um choque dos consumidores, e parece que isso fica mais evidente ao olharmos para os sapatos. O calçado que um dia era sinônimo de funcionalidade hoje recebe adaptações com materiais modernos, transparências e shapes no mínimo diferenciados. O argumento do “não ter mais o que inventar”, em referência ao volume de lançamentos que permeia a moda temporada após temporada, aparece com frequência na discussão. Mas, se você pesquisar sobre a estratégia de negócio por trás dos modelos “bizarros” do mundo fashion, uma ou duas informações com certeza vão te surpreender.
Podemos começar pelo nosso tópico favorito: o de estilo. Existe um grupo de pessoas que pensa no sapato como um complemento do look, mas, para outro grupo, eles são os verdadeiros protagonistas de uma boa produção. E, se queremos falar em protagonismo, a atenção é um ponto-chave do visual. Algo esteticamente belo chama uma atenção diferente de uma peça que sai do óbvio, comunicando um estilo menos sério, mais ousado e disponível. A maior prova disso? Hoje é quase tão comum encontrar Tabis passeando por aí quanto a própria sapatilha Mary Jane.

“The Wrong Shoe Theory”
Assim que a comunidade fashion percebeu o crescimento desse apelo, a atenção se virou para a tal da “teoria do sapato errado”, que defende justamente esse destaque que o calçado dá para o look. O foco é totalmente voltado para criar contraste em prol de um visual mais interessante, quebrando a “rigidez” de uma produção impecável, como a própria empresária e designer Tory Burch contou para o BoF: “As pessoas estão cansadas da perfeição e do elemento óbvio. Elas estão se atraindo por aquilo que é inesperado, e os sapatos conseguem criar esse tipo de tensão”.
O conforto é outro elemento-chave. Mesmo que não se aplique a todos os últimos lançamentos, a mudança de geração e de estilo de vida tem priorizado o conforto como uma declaração quase cultural. Então, sapatos que têm ergonomia, suporte e formato ortopédico se tornam cada vez mais procurados.
sapatos como estratégia de negócio
Mas sabemos que não é só do desejo do consumidor que sobrevive uma tendência. Para as marcas, criar uma peça inovadora como um par de sapatos é não só uma maneira de se destacar e repercutir, mas de oferecer um produto que tem a capacidade de gerar conversa ao observar os debates entre o público. Essa conversa é insumo para dados de pesquisa daquilo que o consumidor deseja, pensa e procura, sempre existem os que amaram, os que odiaram e até mesmo os que não necessariamente entenderam, mas todos eles estão mantendo o nome da marca relevante na mídia.

E por que dedicar a criatividade aos sapatos, mesmo em meio a coleções que celebram tantos elementos clássicos? É o caso do Resort 2027 da Chanel, que produziu looks com blazers de tweed elegantérrimos e sandálias diferentonas (ou devemos dizer meia-sandálias?). O Business of Fashion tem dados de que o estoque de sapatos disponíveis para venda online no mercado de luxo cresce 32% a cada ano. Se as marcas confiam em manter essa alta de produtos no e-commerce, é porque os indicadores são de que eles irão gerar vendas. Segundo a interpretação de uma das líderes da plataforma, apostar em sapatos é uma excelente categoria para trabalhar o branding, afinal, é mais fácil criar em cima deles com formas, resultando em peças que perduram por mais de uma temporada, até porque não necessariamente seguem uma tendência passageira.
relembre alguns lançamentos de sapatos polêmicos

Sapatilha Tabi – Maison Margiela
Lançado por Martin Margiela em seu desfile de estreia em 1988, o Tabi desafia as convenções da silhueta tradicional. Com seu design disruptivo de dedos divididos, ele se tornou o maior símbolo de status cult da moda atual.
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Five Fingers – Vibram
A proposta do Five Fingers nasce com um design anatômico que abraça o pé, permitindo que seus dedos se movam naturalmente. Com uma pegada mais esportiva, solado antiderrapante e tecnologia ergonômica.
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Big Red Boots – MSCHF
As botas lançadas pela MSCHF lembram as de desenho animado (como Astro Boy), elas se tornaram um fenômeno mundial na internet. Feitas de borracha macia e volumosa, são calçados puramente conceituais, divertidos e feitos para causar impacto total no visual.

Crocs de salto alto – Balenciaga x Crocs
O Crocs de Salto da Balenciaga é uma das colaborações mais ousadas e comentadas do mundo da moda. A grife de luxo pegou a icônica sandália de borracha e a transformou em um sapato de salto fino (stiletto) em uma criação altamente conceitual.
os “ugly shoes” invadiram o streetstyle

Five fingers com saia midi
O sapato que separa os cinco dedos do pé logo conquistou as fashionistas que gostam de looks com um elemento conceitual. Nas produções casuais ele traz o toque esportivo mais peças básicas como t-shirt e saia midi.

Bota de borracha
As botas de borracha não são tão incomuns, principalmente em looks pensados para dias de chuva. A pegada fashionista da vez está no design mais volumoso e nas cores vibrantes.

Sapatênis
2026 com certeza é o ano dos sapatos esportivos. Sejam os tênis ou releituras das sapatilhas, o sucesso desse calçado híbrido está no contraste com as peças clássicas de alfaiataria, tornando o look mais inesperado.

Tabis
As Tabis com certeza são as favoritas da vez. O visual clássico da sapatilha ganga uma releitura quase discreta com a divisão entre os dedos. O shape é super contemporâneo e ame ou odeie, não podemos negar que ela deixa qualquer look com uma pegada mais fashionista.

Sapatos confortáveis
Os sapatos estilo clog também são favoritos do momento, mas ainda despertam uma certa estranheza para muitas pessoas. Ame ou não, não dá pra negar que ele entrega uma proposta bem confortável, quentinha e com um calce muito facilitado.

