O que faz o estilo de Carolyn Bessette-Kennedy tão especial?

por Beta Weber

O fenômeno de fotos de paparazzi, com flagras de celebridades em situações mundanas se tornando fonte de inspiração na hora de vestir, ganhou força nos anos 90. Exatamente nesse período, uma jovem relações públicas da Calvin Klein, chamada Carolyn Bessette, foi alçada aos holofotes e ao posto de ícone de estilo, posição que segue ocupando mais de 25 anos depois de seu precoce falecimento. Famosa por associação, já que o interesse público veio do seu envolvimento com John Kennedy Jr., e avessa à atenção (não existe nenhuma entrevista com ela), o culto à sua imagem foi ditado pelos cliques pelas ruas de Manhattan e algumas aparições públicas ao lado do marido. Mas afinal, por que ela se tornou essa referência inescapável e continua relevante tanto tempo depois?

Com o lançamento da série "Love Story: John F. Kennedy Jr & Carolyn Bessette", disponível na Disney+ a partir de 12 de fevereiro, uma nova geração terá a chance de conhecer sua figura e o visual tão venerado. E a gente garante: você pode até achar que não foi impactada por ela, mas com certeza seu estilista preferido foi.

tudo sobre o estilo de Carolyn Bessette-Kennedy

A comprovação de seu impacto está no frisson que rolou online no ano passado, quando as primeiras imagens da produção foram divulgadas. Protestos e opiniões a respeito da cor exata das luzes no cabelo, da escolha de sapatos, do corte da jaqueta e até do tamanho correto da Birkin surpreenderam o criador Ryan Murphy e deixaram claro que a expectativa é imensa e que nada vai passar batido. Depois da polêmica, uma nova figurinista foi contratada, sob a promessa de ser milimetricamente fiel à imagem de Carolyn e a todas as suas particularidades.

Nos dias de hoje, com inúmeras fórmulas replicadas do Pinterest e acesso a especialistas da área, se vestir bem é muito mais fácil. No caso das celebridades, com stylists 24/7, então, nem se fala. Mas com uma profusão de novas tendências por minuto e a pasteurização do conteúdo, ver pessoas com estilo autêntico é raro. Na maior parte das vezes em que celebramos os looks de alguém, eles são fruto de uma equipe profissionalmente treinada para isso, quando não vêm direto do lookbook de alguma grife. E tudo certo, isso faz parte do sistema, mas não dá para negar que algo autoral tem um peso diferente.

O que nos traz de volta ao assunto Carolyn: os que argumentam que seus looks tinham nada de especial e que suas produções eram básicas perdem justamente o ponto crucial: a capacidade de reinventar clássicos sem esforço, mas com personalidade. É infinitamente mais fácil criar uma composição de impacto com peças statement, mas saber atualizar pilares do guarda-roupa através de (pequenos) detalhes é outra história.

É claro que o glamour e a história trágica também colaboraram para a criação do mito: alta, magra, loira, vivendo um romance com um dos homens mais famosos do mundo, membro de uma dinastia considerada quase a família real americana. Não existem dúvidas de que esses elementos têm papel na maneira como Carolyn é lembrada. Esse recorte é importante, mas não resume o fascínio.

Contexto é tudo, e ele é fundamental para entender o efeito duradouro de CBK. Em uma época sem stylists e com todo o acesso que ela tinha, as escolhas eram genuinamente ditadas por suas preferências, e não pautadas por status, moda ou atenção externa.

nada de tendências

Por que produções usadas há quase 30 anos seguem atuais? Justamente pela aversão a tendências. O armário com mais ou menos 40 peças era composto fundamentalmente por itens atemporais, e é por isso que a maioria dos looks poderia ser replicada exatamente agora e parecer tão moderna quanto antes.

designers fora da caixa

Dinheiro não era uma questão, mas com tantas opções à disposição, sua lista de preferidos não se encaixava no padrão esperado. Em vez das casas mais óbvias, sua marca favorita era Prada e, apesar de mainstream, Miuccia, principalmente nos anos 90, era conhecida por seu apelo intelectual, com uma moda pensante e instigante, que fugia dos clichês de glamour e interrogava noções de beleza e feminilidade. Além disso, seu amor por nomes avant-garde como Helmut Lang, Ann Demeulemeester e Yohji Yamamoto reforçava o desejo claro de escapar do previsível, mesmo existindo em um dos círculos sociais mais conservadores e tradicionais do mundo.

hi-lo e contrastes

É verdade que ela carregava uma Birkin com frequência, mas a maioria dos seus jeans eram Levi’s garimpados em brechós. Mesmo vivendo em um universo luxuoso, ela sempre entendeu que estilo não tinha a ver com etiquetas, mas sim com qualidade e com fazer ou não sentido dentro da sua realidade. Vestido floral, mais delicado e romântico, era quebrado por acessórios pretos que traziam peso e deixavam tudo com a sua cara. O famoso look black-tie de camisa branca e saia longa, mais ajustada, trazia a tensão entre masculino e feminino e demonstrava sua personalidade.

autoconhecimento

Carolyn repetia roupas livremente, comprovando na prática que não é necessário um armário infinito nem novidade constante para se vestir bem. Ter domínio do próprio guarda-roupa e confiança para manter suas próprias fórmulas vale muito mais. Saber identificar as proporções do corpo e perceber quando algo precisa ser alterado, como a barra de uma calça ou a manga da camisa, são fatores essenciais que ela possuía intuitivamente (e também graças aos anos na Calvin Klein), mas que podem ser desenvolvidos por qualquer um.

Carolyn Bessette-Kennedy exibe estilo minimalista com casaco preto de gola de pelo, jeans flare, camiseta branca e óculos
Foto: Carolyn Bessette-Kennedy (Lawrence Schwartzwald/Getty Images)


assinaturas

Os óculos escuros da Selima Optique, o jeans bootcut, a bolsa Spazzolato da Prada. Ter itens que se tornam assinatura visual é uma forma de ancorar seu estilo pessoal, até quando você sente o desejo de experimentar algo diferente. Por exemplo, quer usar uma estampa ou uma silhueta que nunca usou? Manter alguns pontos consistentes faz com que você ainda se sinta segura, mesmo se aventurando fora da zona de conforto. CBK fazia isso como ninguém, deixando uma produção simples ou mais especial igualmente coerente com seu estilo, precisamente por essa atitude.

adequação e simplicidade

Ela sabia se vestir de maneira apropriada para os mais diversos ambientes, mas não abria mão de suas preferências. Em eventos black tie, usava roupas dignas da ocasião, mas mantinha a posição de não usar jóias, exceto por exceções discretas, por uma questão de gosto pessoal. Às vezes incluía uma pequena clutch vintage dourada ou luvas longas, que traziam mais polidez e um toque de glamour, sem comprometer seu estilo.

minimalismo não precisa ser chato

Sim, muitas vezes ela surgia em produções minimais, e seu guarda-roupa era dominado por itens clássicos, mas também adorava incluir elementos que impediam que ficasse presa a um estereótipo. Os casacos estampados eram frequentes, em especial o de oncinha. Aliás, o animal print também se fazia presente em loafers de cobra. Ainda no quesito calçados, os chinelos de dedo usados com jeans slouchy figuravam seguidamente, trazendo um toque cool e despojado. E claro, seu truque favorito: o mix de texturas, receita ideal para trazer dimensão a composições monocromáticas ou em paleta de tons neutros.

estilo de Carolyn Bessette-Kennedy
Foto: Carolyn Bessette-Kennedy e John F. Kennedy Jr. (Reprodução/Denis Reggie)

escolhas emocionais

Na hora de decidir quem faria seu vestido de casamento, ela poderia ter eleito um modelo de alta-costura de qualquer maison histórica, sedentas por vestir a futura esposa de John F. Kennedy Jr., mas optou por pedir ao amigo Narciso Rodriguez, que conheceu trabalhando na Calvin Klein quando ambos ainda eram desconhecidos, para idealizar o slip dress do grande dia. O modelo, estilo camisola, se tornou referência eterna e um dos looks de noiva mais copiados da história, ajudando também a catapultar a carreira do designer.