Por que a indústria cinematográfica parece um grande déjà-vu?

por Karen Merilyn

Atualmente, parece que a indústria cinematográfica foi tomada por reboots, continuações depois de anos e live actions. Em um momento em que as produtoras disputam atenção com as redes sociais, a nostalgia parece ser a principal cartada para criar filmes lucrativos e incentivar o público a voltar às salas de cinema. Mas será que, em vez de atrair, essa fórmula já não está saturando o público? A sensação de que nada novo é feito parece cada vez maior — e não é por falta de novos filmes. 

Indústria cinematográfica em preto: mulheres posam de óculos escuros, alfaiataria elegante e clima sofisticado.
Foto: O Diabo Veste Prada (Divulgação)


Nos últimos anos, a nostalgia tomou conta da cultura pop: na música, na moda, no comportamento e, é claro, no cinema, tudo o que remete a ícones que marcaram a memória coletiva voltou para os holofotes. Foi assim que bandas dos anos 2000 retornaram com turnês especiais, a temida cintura baixa retornou ao topo das tendências e o analógico tomou conta das redes sociais. 

Quando se trata de filmes, uma lógica muito clara passou a operar: a indústria viu uma oportunidade de refazer clássicos do cinema e TV para garantir um público já cativo e que, em tempos incertos, busca o conforto do que já conhece e dos sentimentos que aquela época evoca. 

Produções como Barbie, O Diário de Bridget Jones, a sequência de O Diabo Veste Prada, o live action de A Pequena Sereia, a versão realista de O Rei Leão e a extensão do universo de Harry Potter são alguns exemplos recentes desse fenômeno. 

Para se ter uma ideia, dos filmes lançados em 2024, mais da metade foram sequências, spin-offs ou expansões de franquias já existentes, segundo um artigo da Universidade de Wollongong da Austrália. Nesse mesmo ano, nove dos dez filmes de maior bilheteria foram sequências, de acordo com dados da Forbes.

Paralelo a isso há uma crise financeira na indústria. A pandemia impactou significativamente o lucro das bilheterias, que não retornou ao que era antes desde então, principalmente porque em 2019 o setor global atingiu US$ 42 bilhões, um recorde histórico. Com a queda em 2020, que impactou não só as vendas de ingressos, mas também como as pessoas consumiam conteúdo, as produtoras começaram a investir em produções que fossem mais certeiras para atrair os consumidores.

Indústria cinematográfica em rosa: modelo sorri com vestido xadrez rodado, acessórios florais e cenário lúdico de boneca.
Foto: Barbie (Divulgação)

por que os grandes estúdios focam em ideias já existentes?

Talvez a maior motivação esteja justamente no investimento x lucro. Enquanto um filme novo de alto orçamento pode ou não dar certo com o público, produções já conhecidas pelo público representam menos riscos financeiros, além de demandarem menos custos em marketing. Títulos como Batman ou O Diabo Veste Prada já estão no imaginário coletivo e não é preciso tanto esforço para gerar interesse. 

tá, mas como ver coisas novas em uma indústria dominada por remake?

A resposta pode estar no cinema independente. Esse setor que não tem orçamentos bilionários costuma valorizar ideias criativas e formatos experimentais, mesmo que isso vá contra a lógica de produzir rápido para lucrar mais. É daí que surgem filmes que surpreendem e ajudam a tirar a ideia de que tudo tem que ser reciclado. 

como será o futuro da indústria?

Com o reboot de “De repente 30” anunciado recentemente, além do retorno de clássicos ao cinema, parece que os estúdios continuarão bebendo da fonte da nostalgia. No fim, a diferença entre o mais do mesmo e uma releitura relevante não está na ideia, mas na forma como ela é atualizada. É bem mais interessante fazer uma nova versão de uma produção de sucesso se ela vai agregar e atualizar contextos culturais que já não fazem sentido em vez de apenas refazer a história com mais recursos tecnológicos ou estereótipos dos tempos atuais.