Com a valorização da magreza extrema e as canetas emagrecedoras em alta, qualquer pessoa que foge do padrão é considerada errada, mesmo que ela seja uma das artistas mais talentosas do mundo. O corpo da Beyoncé foi alvo de críticas por uma simples aparição e acende um alerta: estamos retrocedendo e voltando ao julgamento do corpo tão comum nos anos 2000?

Com a nova corrida pelo emagrecimento rápido, parece que só há espaço para o corpo extremamente magro. A popularização dos medicamentos, impulsionada pelo acesso mais fácil e pela viralização nas redes, fez celebridades e pessoas comuns aparecerem com muitos quilos a menos em um curto espaço de tempo.
Para se ter uma ideia, o mercado global desses medicamentos foi estimado em US$ 13,84 bilhões em 2024, com projeção de alcançar US$ 48,84 bilhões até 2030, segundo a Grand View Research. Não é apenas um crescimento de consumo: é uma reorganização da forma como a sociedade enxerga (e valoriza) determinados corpos.
Esse movimento impacta tudo: das buscas por roupas, que estão cada vez menores, a uma nova percepção coletiva do que seria o “corpo ideal”. O “corpo de Ozempic” foi rapidamente naturalizado, enquanto qualquer pessoa que não se enquadra nele passa a ser julgada.

o corpo da Beyoncé no GP de Las Vegas
A cantora compareceu ao Grande Prêmio de Las Vegas com um look justo e decotado — e isso bastou para ser atacada nas redes sociais. Comentários sobre o peso, os seios e as coxas tomaram conta das timelines, como se existisse algo de errado em Beyoncé simplesmente existir fora do padrão estético do momento.
O corpo da Beyoncé sempre foi politizado, desde o início da carreira. Suas curvas nunca se encaixaram na estética “magérrima” dos anos 2000, e isso tem muito a ver também com como corpos de mulheres negras são lidos pela mídia: hipersexualizados, observados e quase nunca dentro da categoria do “corpo ideal”.
Quando Beyoncé foge da expectativa atual de magreza extrema, o incômodo não é só sobre ela — é sobre um padrão que não tolera outros tipos de corpos.
Esse comportamento de fiscalização corporal lembra o que víamos nos anos 2000. Revistas de fofoca caçavam celulites. Paparazzis registravam “defeitos” com zoom. As mudanças de peso das celebridades eram tratadas como entretenimento.

Com o crescimento do movimento body positive, especialmente a partir de 2015, esse tipo de conteúdo passou a ser criticado. Modelos plus size ganharam espaço, marcas ampliaram tamanhos e parecia que estávamos caminhando para uma moda mais inclusiva.
Mas o retorno estético dos anos 2000 trouxe junto o culto à magreza extrema. E isso aparece nos dados: em 2024, dos 8.763 looks apresentados em 208 desfiles das semanas de moda, apenas 0,8% eram plus size, segundo o report da Vogue. Ou seja: a indústria, que já tinha recuado lentamente em diversidade de corpos, agora parece acelerar na direção contrária.
Se nos anos 2000 a pressão vinha das capas de revista, hoje vem da timeline. TikTok, Instagram e X amplificam discursos gordofóbicos e criam microtendências corporais que mudam mais rápido do que a moda consegue acompanhar.
O resultado? Uma sensação coletiva de inadequação. E um padrão atualizado: agora não basta ser magra, é preciso ser magra com ajuda farmacológica.
Quando até Beyoncé, uma artista que redefiniu música, moda e performance, é reduzida (e julgada) pela forma do próprio corpo, fica claro que o problema não é ela, nem seu peso, nem sua aparência. O corpo da cantora só incomoda porque estamos mirando em um padrão que nunca foi real.
