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Precisamos Falar Sobre Anorexia

por Carol Carlovich

É bem verdade que os avanços quanto a quebra de padrões de beleza em nossa sociedade são notórios. No entanto, como mulheres, certamente temos um ou outro relato, seja ele pessoal ou de amigas, irmãs, primas que já foram afetadas pela toxicidade das normas de aparência.

Altas demais, baixas demais, gordas ou magras demais, os rótulos que nos são dados diariamente podem, em últimas e perigosas instâncias, afetar de forma séria nossa saúde mental e corporal. Em alguns casos, nossa relação com coisas que deveriam ser comuns - como a alimentação, por exemplo - é intoxicada por esses pensamentos, gerando baixa autoestima, ansiedade, depressão e até distúrbios que nos afastam daquilo que realmente somos, criando conflitos internos que parecem não ter solução.

Diante de um cenário onde meninas e mulheres, todos os dias, encontram maneiras para se encaixarem em padrões irreais de beleza, acreditamos que é preciso abordar o assunto, trazendo informação e dando voz à mulheres reais, com desafios reais e vitórias reais. Precisamos falar sobre anorexia. E queremos começar a conversa com alguém que a encarou de perto. Clarice Caldas, com 32 anos, é atriz, mora em Los Angeles e decidiu compartilhar um pouquinho de sua história com a gente:

Clarice Caldas - anorexia - autoestima - anorexia - saúde
Foto: Clarice Caldas (Reprodução)
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Meu nome é Clarice, tenho 32 anos, sou atriz e moro em Los Angeles, na Califórnia.
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A primeira crise que tive eu tinha apenas 13 anos. Eu era parte da equipe do meu clube de tênis e tinha como objetivo me tornar profissional. Treinávamos muitas horas e viajávamos por todo o Brasil jogando campeonatos. NUNCA havia tido problemas com peso, pelo contrario, sempre fui magrinha, comia de tudo e bastante pois treinava muitas horas e todos os dias. Não sei dizer como descobri que tinha anorexia, muitas coisas dessa época eu não me lembro, é como se meu cérebro tivesse apagado ou bloqueado essas memorias ruins. Simplesmente lembro de começar a emagrecer semanalmente (tínhamos uma nutricionista na equipe que nos examinava toda semana para melhorar nosso rendimento) e lembro de gostar de ter controle sobre aquilo. Acho que começou como um jogo de números na minha cabeça e foi indo de mal a pior. 
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Bom, quando eu tive anorexia, ela ainda não era uma doença muita conhecida como hoje, quase ninguém tinha informação a respeito e como eu nunca havia tido problemas com peso minha família não entendia porque eu continuava emagrecendo. Fui levada a uma endocrinologista que me passou uma dieta para ganho de peso e mesmo assim eu continuava emagrecendo. Foi aí que ela falou para minha família que acreditava que meu problema era outro e não somente ganhar peso. Então ela nos indicou um profissional especializado no assunto.
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Minha família foi absolutamente TUDO, eles nunca desistiram de mim e, apesar de termos tido diversas brigas, seguiram unidos e determinados a me salvar e Graças a Deus conseguiram. Meus amigos também me apoiaram muito.
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Obviamente eu recebia diversos olhares assustados. Muitas pessoas, para não dizer praticamente todas, inclusive alguns familiares, achavam que o que eu tinha era algo completamente fútil que não era uma doença real. Apenas futilidade.
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Não posso dizer que foi bom pois eu estaria mentindo. Eu me negava a ganhar peso ou me tratar. Meus pais me levaram a todo tipo de médico, psiquiatra, psicanalista, até guias espirituais. Eu fechava a cara e não falava ou fazia nada. Até que um dia fomos a um médico especializado em distúrbios alimentares, NUNCA vou esquecer desse dia porque ele foi o melhor e o pior dia da minha vida.
Minha mãe, eu e meu pai sentamos em frente ao doutor e ele explicou aos meus pais EXATAMENTE o que eu estava sentindo, o que para mim foi um alívio gigantesco! Logo ele explicou como seria o tratamento e aí o bicho pegou. Não sou médica, porém acho que a abordagem que esse profissional adotou foi um tanto quanto exagerada, fazendo com que eu desencadeasse outros distúrbios e com que eu tomasse um certo gosto pela briga. Foi aí que me rebelei totalmente, virei um monstro, inventei mil e uma maneiras de boicotar a minha dieta, enganar meus pais, fazer exercício escondida, aquilo para mim era uma guerra.
As visitas eram semanais e eu me pesava antes de ir ao médico para saber com antecedência, e então tomava litros e mais litros de água, dependendo de quanto teria que ter engordado para que supostamente o número na balança fosse maior que a semana anterior.
Até que obviamente ele se deu conta, e viu que eu estava emagrecendo, muito pouco mas ainda assim emagrecendo. E essa foi a gota final, fui proibida de ficar sozinha, dormir na casa das minhas amigas, ficava acompanhada em todas as horas do dia. Me passaram uma dieta altamente calórica, em torno de 6000 calorias para que eu ganhasse peso rápido. Tinham coisas que eu precisava comer durante o dia como um doce, uma barra de chocolate de 200g, um litro de sorvete e a lista seguia. Meu estômago estava muito pequeno, lembro de chorar durante os recreios porque não conseguia mais comer e minhas amigas e minha irmã estavam sempre ao meu lado me ajudando e apoiando.
Tentei lutar com todas as forças para não comer aquilo tudo mas não houve saída e, no fim, não somente engordei o que tinha que engordar como engordei o dobro, ficando acima do peso e desencadeado uma compulsão alimentar. 
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NUNCA ameace uma pessoa com distúrbio alimentar, porque ela provavelmente tomará gosto por essa briga e se tornará uma pessoa completamente diferente do que ela é. Sofrer de Anorexia Nervosa é como se duas pessoas estivessem dentro do seu corpo, como um desenho animado onde há um anjinho e um diabinho e ambos falam ao mesmo tempo o que você deveria fazer. No entanto, na anorexia a voz ruim é MUITO mais alta e forte do que a voz boa. É um constante debate entre as duas vozes, e quanto mais magra a pessoa fica mais aquele lado ruim cresce. Porém, não ache que uma pessoa precisa estar magra para ter distúrbios alimentares, porque o emagrecer é apenas uma consequência da doença. Tudo se passa na mente. Eu tive 4 crises e as durante as 3 primeiras engordei mais que deveria - mesmo acima do peso, continuava anoréxica pois tinha o mesmo pensamento.
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Muito melhor. Mas ainda tenho muito o que melhorar, é um crescimento diário.
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Calma, você não está sozinha. Não se deixe vencer! Escute aquela vozinha boa que existe dentro de você, mesmo que ela seja baixinha, eu sei que ela existe. Seja fiel à ela porque é ela quem você realmente é!
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Acho que a internet e as mídias sociais são algo muito positivo, mas ao mesmo tempo muito perigoso. Hoje em dia existem milhares de sites e blogs com meninas sofrendo de ANA(anorexia) ou MIA (bulimia) dando conselhos para como conseguir seguir doente, seguir emagrecendo, fazendo dietas! Há meninas pedindo ajuda porque querem aprender a vomitar ou querem ficar anoréxicas! Isso é muito serio, e acredito que deveria existir algum tipo de legislação para que esse tipos de sites ou blogs não existissem. Temos que ter muito cuidado com esse tipo de informação. Isso é algo muito triste e assustador!

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