Precisamos Falar Sobre: Ansiedade

por Carol Carlovich

Se você nos acompanha de pertinho, já deve ter percebido que, nos últimos meses, temos tentado abordar alguns temas mais abrangentes, que vão para além da moda e da beleza e tangem o que diz respeito ao comportamento, á vida e questões diárias com as quais nós, mulheres, temos que lidar. A verdade é que a série "Precisamos falar sobre..." surgiu de uma vontade da nossa equipe de trazer temas relevantes, importantes (e porque não polêmicos?) para o centro da nossa conversa - já longa e há muito tempo estabelecida - com as nossas leitoras. Para nossa surpresa - e felicidade - o retorno desses diálogos tem sido incrível e, cada vez mais, queremos usar o canal que a moda e a beleza nos abriram para discutir nossas questões - reais, pulsantes e femininas - com vocês.

Foi desse solo que nasceu a ideia de abordarmos o tema da Ansiedade. Há alguns meses, uma das look stealers, a Gio, falou um pouco sobre o seu diagnóstico e nos contou algumas das coisas que a ajudaram na sua trajetória com o transtorno, o que nos inspirou a continuarmos a conversa. Presente em quase todos os âmbitos da nossa sociedade pós-moderna, esse sentimento angustiante de não estar no controle de nada tem sido uma luta real e diária para muitas pessoas na nossa geração. No nosso grupo fechado no Facebook, pudemos conversar um pouco sobre o assunto e, em pouco tempo, muitas leitoras deram seus depoimentos e se identificaram umas com as outras:

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Foto: Depoimentos de leitoras que fazem parte do grupo fechado Steal The Look no Facebook

Por isso, para nos aprofundarmos ainda mais no assunto - e podermos compreendê-lo sob um ponto de vista clínico e até mesmo para sabermos que tipo de ajuda recomendar para pessoas ao nosso redor e para nós mesmas - decidimos conversar com duas psicólogas mega experientes no assunto. A primeira delas é a Shirley Stamou, que é psicóloga há 24 anos e atende principalmente meninas adolescentes e mulheres jovens. Com muita experiência em casos de ansiedade, ela recentemente deu uma palestra sobre o tema em Floripa (onde tem sua clínica) e já escreveu inúmeros textos sobre Psicologia que podem ser lidos no seu instagram. Além disto, ela já foi docente de graduação e de pós-graduação por 10 anos e contribuiu em várias matérias, mantendo também um blog desde 2008.

Já a Gabriela Maximo é formada em psicologia desde 2018 pela Universidade do Vale do Itajaí e atua na área clínica desde então. No seu currículo estão uma pós-graduação em psicanálise chamada Sujeito e Laço Social e um curso de Psicologia da Autoimagem pela École Supérieure Relooking. A Gabi também trabalha com consultoras de imagem falando sobre questões de autoestima, autoimagem e até mesmo a ansiedade do vestir (assunto sobre o qual ela tem publicado alguns vídeos em seu instagram) e escreve e pesquisa sobre a relação da moda com a Psicanálise, o consumo, a ansiedade, e a semiótica.

Por conviverem de pertinho com a ansiedade, as duas percebem como o assunto é importante e precisa ser debatido com responsabilidade e o mais rápido possível. Passamos, então, a palavra à elas, que vão nos contextualizar sobre o tema, tirar nossas dúvidas e nos dar dicas preciosas:

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 A Gabriela nos explica que "a ansiedade é uma sensação de medo de algo que eu não consigo nomear, mas que eu sinto que está para acontecer. Christian Dunker relata que a ansiedade é uma crise do desejo… Por exemplo, querer muito uma coisa e não saber se ela vai acontecer, ou ao contrário, não querer que algo aconteça e ter receio de aquilo se concretize.

De forma simplificada, a ansiedade se dá em volta de receios sobre o futuro, incertezas, medos, inseguranças. Estes podem ser reais, fatos que possuem alguma possibilidade de acontecer, ou não… São fantasias remotas de algo que está muito longe de vir a se concretizar, mas que tem 0,0001% de chances acontecer.

Exemplo real: Ficar ansioso com o novo corte de cabelo com medo do resultado, por mais que você queira.

Aqui há realmente uma chance de você não gostar do corte, ou de seus amigos não curtirem o seu novo estilo… Por mais que você conheça o profissional, tenha olhado mil referências no pinterest e esteja decidida que esse é o seu corte. Em casos de quem sofre com ansiedade, o medo de não gostar, de não agradar a todos, de ficar ruim em pode levar a ter crises nervosas, não conseguir ir no horário marcado, desistir de fazer o corte, ter uma dor de barriga, suar frio, tremer… Os efeitos de um corte de cabelo podem ser vários.

Exemplo irreal: Não realizar uma prova, pela qual você estudou muito, com medo de não acertar nenhuma questão.

Neste exemplo eu coloco como irreal ou com aquele 0,0001% de chance de acontecer. Se você estudou muito, o suficiente ou nem que seja um pouco… é um tanto quanto improvável que você não acerte nenhuma questão. Mas esse sentimento de insegurança acaba também levando a pessoa a ter crises ou de simplesmente desistir, por ansiar por algo ruim que pode, muito remotamente, acontecer.


Essas questões parecem tão “pequenas”, não é? Um corte de cabelo, uma prova… Como estas teríamos questões com reuniões do trabalho, idas ao médico, jantares em família, sair com os amigos e tantos outros… Questões cotidianas, mas que para quem sofre de ansiedade, são questões que podem mobilizar o sujeito de formas distintas.

Sem falar também dos medos que o sujeito não consegue nomear, apenas sentir essa angústia sem conseguir explicar muito bem o por quê."

A Shirley completa: "quando esses sentimentos são controlados, não causam maiores problemas. Já a ansiedade excessiva está na raiz do aparecimento de diversos transtornos mentais, entre eles o Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), Fobias e Síndrome do Pânico.

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A Shirley nos conta que o "frio na barriga que a gente sente em algumas situações tende a ser passageiro e não causa maiores prejuízos. Quando a ansiedade começa a prejudicar o dia a dia da pessoa, trazendo sintomas físicos e uma sensação de medo e/ou preocupação constantes, provavelmente já existe um transtorno mental que precisa de cuidados especiais. "A diferença", completa a Gabriela, "é que, nessas situações cotidianas o sujeito que não sofre de ansiedade, não ficará tão mobilizado. O que isso quer dizer? Que a pessoa pode até sentir um frio na barriga, pensar não ser capaz de realizar tal atividade…Mas seguirá em frente, não terá grandes efeitos em sua vida.  Já a pessoa que sofre com ansiedade tem pensamentos constantes, que pode acometer a não só a um evento da sua vida. Sem falar os efeitos psicossomáticos (quando o corpo  dá um destino para o que é sentido). Estes podem ser acometidos por doenças gastrointestinais, dermatológicas, alergias, infecções, e dores variadas, como de garganta, ouvido, pelo corpo etc. É importante também, não confundir uma grande expectativa, excitação, felicidade com a ansiedade. Por exemplo “Estou ansiosa para chegar o show da Sandy e Junior”, você está feliz, animado, esperançoso… Gosto de usar o termo ansiedade apenas para casos clínicos. Muitas pessoas que realmente sofrem de ansiedade acabam se sentindo ofendidas e até mesmo banalizadas “Ah, ela só está ansiosa”, quando na verdade isso representa algo de seu sofrimento."

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Segundo a Shirley, "os Transtornos de Ansiedade podem aparecer de diversas formas e os sintomas variam de acordo com o tipo: se a pessoa tem uma Fobia vai sentir um medo irracional diante daquilo que é o gatilho para sua angústia (um animal, altura, lugares fechados, etc), se ela tem TOC vai tentar aliviar sua ansiedade através de um ritual específico (como lavar as mãos de forma compulsiva, verificar se trancou a porta diversas vezes, etc), se a pessoa desenvolveu Síndrome do Pânico é comum que apareçam sintomas físicos tais como palpitações, dores no peito e enjoo.  
Se você tem sentimentos de preocupação ou apreensão (medo, angústia) que não passam, inquietação, fadiga (cansaço maior que o normal), irritabilidade, sintomas físicos como taquicardia, suor excessivo e tensão muscular, dificuldade de concentração e/ou perturbação do sono (insônia, pesadelos, despertar precoce), você pode estar desenvolvendo um Transtorno de Ansiedade Generalizada." 
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"O tratamento da ansiedade pode incluir somente psicoterapia (com psicólogo ou médico psiquiatra) - as sessões são semanais e a duração do tratamento varia de pessoa para pessoa, ou ainda unir a psicoterapia com medicamentos específicos para amenizar os sintomas (as medicações devem ser prescritas por médico psiquiatra). A medicação isolada não deve ser usada como tratamento pois os efeitos mais duradouros e profundos vem da psicoterapia. Além da psicoterapia o psicólogo ou o médico psiquiatra também podem sugerir atividades físicas, atividades que promovam o relaxamento e meditação, especialmente uma técnica chamada mindfulness, que já teve sua eficácia científica comprovada e tem resultados ótimos contra a ansiedade.", comenta a Shirley. E a Gabriela reitera: "não são todos os casos em que o uso de medicamentos é recomendado e até mesmo necessário. Mas se você está usando algum tipo de ansiolítico, não deixe de fazer o seu acompanhamento psicológico com a psicoterapia, ou psicanalítico com a análise. É através das suas palavras que será possível trabalhar o seu sintoma, pensar sobre as suas angústias… Não deixe de ir nesses profissionais por tomar alguma medicação, não cale os seus sentimentos."
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Segunda a Shirley, "uma das coisas com as quais mais tenho trabalhado com meus pacientes que tem ansiedade são estratégias para interromper os pensamentos negativos que surgem durante uma crise. Aqui estão algumas dicas:

1. Respire fundo pelo nariz contando mentalmente de 1 até 5, segure o ar nos pulmões contando até 3 e solte o ar pela boca contando de 5 até 1. Repita pelo menos 3 vezes ou até se acalmar 

2. Pergunte-se o que você falaria para um amigo que estivesse com os mesmos problemas, e dê este “conselho” para você mesma 

3. Faça algo que exige atenção aos detalhes, como pintar as unhas ou cozinhar 

3. Crie um álbum de fotos no seu telefone com fotos e memes divertidos/fofos para olhar sempre que se sentir invadida por pensamentos negativos 

4. Escute uma música que a deixe feliz e relaxada e, se puder, dance e/ou cante 

5. Faça uma lista de coisas positivas que você tem na vida e releia sempre que se sentir desanimada

6. Anote os pensamentos ansiosos e depois pique o papel em pedaços bem pequenos"

Já a Gabriela diz o seguinte:

Existem várias dicas que circulam pela internet e até mesmo que vários profissionais dizem. Eu gosto de indicar sempre o autoconhecimento! 

Assim todas essas dicas de relaxamento, atividades físicas, alimentos… farão sentido para você de uma determinada forma. Há pessoas que se sentem bem fazendo meditação, outras que se sentem ainda mais ansiosas… Há algumas que amam um tipo específico de atividade física, outras que não suportam… Então é algo muito singular! Cada um no seu processo encontrará a melhor forma de lidar com a sua ansiedade. Pois não há uma ansiedade, há várias, pois para cada sujeito ela é dada e significada de uma forma.

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Para a Gabi, "antes de falarmos sobre isso é importante saber que o Brasil é o país que tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), totalizando 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população). Há muitas questões implicadas nesse número, seja a questão da distribuição gratuita e errônea de diagnósticos, quanto desse número alarmante. É válido lembrar que a ansiedade está longe de ser um assunto atual… visto que Freud já escreveu sobre o tema em 1926. Entretanto, temos um aparelho 24 horas por dia que nos atualiza a cada clique, a cada segundo. O mundo digital é sim um agravante e um gatilho para as pessoas que sofrem com ansiedade e combatê-la é algo da ordem do impossível. 

O que se pode fazer é voltar para a questão do autoconhecimento. Se conhecendo, você entende os seus limites, entende qual público se aproxima da sua realidade, quais te geram desconforto e inclusive, quais você gosta de acompanhar, mas que tem efeitos que não são bacanas na sua vida. Por exemplo, seguir uma blogueira fitness. Pode ser legal, pode te trazer uma inspiração, dicas de receita… mas também pode afetar ainda mais a sua relação com a comida (lembra? Comer mais ou comer menos) te deixando ansiosa quando vai comer, o que vai comer e até mesmo se sentir culpada ou constrangida referente à questões financeiras. Pode ser que alguns produtos estejam fora do seu orçamento ou da sua realidade (isso para todos os tipos de influenciadores), fazendo que possa ter mais um gatilho.

Mas e agora? Deixo de seguir todo mundo que eu gosto? Não necessariamente! É importante avaliar quem vale a pena ter nas suas redes e priorizar a sua saúde mental. Se conhecendo você entende quais são seus limites, até mesmo de tempo de uso dessa ferramenta. As redes sociais e a internet de forma geral podem ser uma ferramenta muito bacana e sua aliada!"

E a Shirley completa: "de acordo com uma importante pesquisa realizada no Reino Unido, as redes sociais são mais viciantes que álcool e cigarro e as taxas de ansiedade e depressão entre os jovens aumentaram 70% nos últimos 25 anos. O uso excessivo das redes sociais aumenta sintomas de ansiedade e depressão, além de contribuir para a baixa autoestima e insônia. O fato de o Instagram ter ocultado a visualização das curtidas pode contribuir para a diminuição da ansiedade, mas mesmo assim é importante cada pessoa tentar não acessar as redes sociais o dia inteiro, tentando estabelecer pelo menos um horário offline - deixar de acessar a Internet pelo menos 1 hora antes de dormir é uma boa ideia. Dar Unfollow nas contas que servem como gatilho para a ansiedade e a tristeza também ajuda a gente a se blindar contra os efeitos negativos  das redes sociais na nossa vida - tente seguir apenas aquelas pessoas que de fato lhe fazem bem."

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Por fim, a gente passa a palavra final pra elas:

Shirley: Se a gente tem dor de dente logo corre pro dentista, né? Então não sofra sozinha! Não fique com vergonha de procurar ajuda profissional se a cabeça e o coração não estiverem bem. Fazer psicoterapia ajuda muito a gente a se compreender melhor e pode ser um divisor de águas na sua vida. Se cuide!

Gabriela: Se você se identificou com algum dos sintomas, não hesite em conversar com um profissional! Se você se interessou pelo tema por já ter sido diagnosticado com ansiedade… Eu preciso te falar algumas coisas:

  • A ansiedade não te define. Você tem ansiedade, você não é a sua ansiedade.

  • Com o tempo, você conseguirá lidar com a sua ansiedade.

  • Muitas vezes a sua ansiedade está mentindo para você.

  • Você está no processo. Isso não quer dizer que daqui para frente tudo vai melhorar, isso quer dizer que terá momentos bons, ruins, mas que você está aprendendo a lidar com você nesse tempo.

  • Se você toma algum tipo de medicação, não sinta vergonha por isso! Faz parte do seu processo de recuperação.

E claro, a compreensão dos amigos e da família é fundamental no processo de autoconhecimento. O acolhimento é fundamental! Se você conhece alguém que possui algum desses sintomas, ofereça ajuda! Uma conversa é ótimo, uma ida ao cinema também é legal… Mas tenha uma conversa franca e a indique um profissional de sua confiança! Ainda é um tabu ir ao psicólogo, ou dizer “Você precisa fazer terapia”. No senso comum, pode soar como algo desagradável, quando na verdade é importante que todos passem por esse processo de autoconhecimento.

Afinal, “cuidar da sua saúde mental, nunca sai de moda”.

Foto de capa: Ilustração da artista Ana Zequin (@anazequin)

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