Precisamos falar sobre: neutralidade corporal e edições exageradas

por Giulia Coronato

As redes sociais são uma poderosa ferramenta, tanto positivamente, como negativamente e traçam a forma como vivemos e como enxergamos toda a nossa vida. Em uma reflexão passada sobre o impacto dos filtros do Instagram na nossa autoestima, descobri o quão ligada está nossa saúde mental - principalmente a de jovens mulheres - com a constante exposição à conteúdos cada vez menos reais nas redes sociais. As edições cada vez mais exageradas e a imagem da mulher se tornando cada vez mais computadorizada e distante da realidade nos fazem duvidar do que somos e pensar que a aparência que temos, não é suficiente, e nunca vai ser. Com a iniciativa de caminhar em direção a um lugar mais seguro, não só na Internet, como no offline também, diversas empresas, plataformas digitais e celebridades, vem trazendo a neutralidade corporal como um pilar e banindo qualquer tipo de imagem e conteúdo que pode ser um gatilho para alguém.

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Foto: Lizzo (Reprodução/Instagram)

Somente durante a semana passada, tivemos três grandes movimentos de neutralidade corporal dentro do mainstream. O primeiro foi o anúncio de que a Noruega proibiu influenciadores de postarem fotos de seus corpos editados sem aviso de edição, como uma maneira de lutar contra a dismorfia corporal, e criar nas redes sociais um espaço mais real, evitando padrões de beleza inalcançáveis para os usuários. A lei vale para qualquer foto que altere o formato do corpo ou do rosto. Fotos tiradas com filtros que alteram características físicas também serão punidas. A partir de agora, qualquer foto com alteração e retoques devem ser sinalizada com um selo criado pelo Ministério da Criança e da Família norueguês.

Outra notícia que veio como uma vitória para o movimento da neutralidade corporal e do body positive nas redes sociais, foi o anúncio feito pelo Pinterest na semana passada, proibindo todo e qualquer conteúdo com linguagem e imagens sobre perda de peso e dieta. Essa postura faz da plataforma de fotos inspiracionais, a única plataforma a proibir todos os anúncios sobre perda de peso, complementando a políticas de anúncios, que já proibiam produtos ou declarações perigosas sobre perda de peso ou vergonha corporal. A nova política deve servir como incentivo à outras empresas do setor a fazer o mesmo e a reconhecerem como é absurda a noção de padrão de corpo perfeito, ainda mais quando está ligada à um corpo editado digitalmente e computadorizado. 

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Foto: Selena Gomez (Reprodução/LA'MARIETTE)

Mais recentemente, em uma campanha para sua coleção em colaboração com uma marca de beachwear, Selena Gomez apareceu nas fotos sem retoques em seu corpo, sem grandes edições, mostrando uma beleza real, palpável e identificável. Enquanto metade da Internet celebrou o ato de coragem e aceitação vindo de Selena, outra metade fez cara feia ao ver as fotos. Mostrando que ainda estamos muito longe de um lugar de neutralidade corporal e que ainda hoje, o corpo da mulher é visto como assembleia pública, aberto para debates e opiniões, quando na verdade deveria ser algo que diz respeito à ela, e somente a ela. 

Apesar dos movimentos de neutralidade corporal serem cada vez maiores e mais significativos, ainda parecemos estar distantes do ideal, do saudável e do seguro. As redes sociais ainda são nocivas e ainda oprimem o corpo e a aparência das mulheres. O caminho a ser percorrido é longo e árduo, mas o progresso é constante e fazer nossa parte, não compactuando com edições exageradas e corpos digitalizados, se tornou mais indispensável do que nunca. 

a modelo e influenciadora andy almeida, compartilhou com a gente a importância da neutralidade corporal:

A.A.: "O movimento do Body Neutrality é super importante pois coloca em evidência algo que deveria ser muito óbvio, que um corpo é um corpo, ponto. No mundo em que vivemos é difícil não atribuirmos julgamentos e adjetivos aos corpos, mas será mesmo que precisamos disso? É muito importante ver como as coisas vão evoluindo e nossas percepções mudando, como por exemplo, com o movimento Body Positive, muitas pessoas não conseguiam alcançar o tão sonhado amor próprio e daí surgia outra demanda que gerava outra frustração, o que não é, obviamente, o objetivo do movimento mas entendemos que não é possível estarmos sempre nos amando.

Mesmo querendo mudar você pode estar bem agora. Não "ter que" amar o corpo pode ser um ato de respeito ao seu momento, assim como não precisamos estar nos odiando, também não precisamos estar nos amando sempre. Acredito que aí entra a neutralização do corpo, respeitar você no momento sem necessariamente se sentir positiva, em relação a isso, tem muito valor pois neutralizando esses sentimentos você não irá sentir ódio também.

Claro que tudo é processo, cada uma tem o seu tempo e momento, não tem regra e nosso mindset não muda da noite pro dia, mas já parou pra pensar que você pode não estar satisfeita com seu corpo e não precisa se odiar por isso? As coisas apenas são, o peso mental vem conforme colocamos expectativas em cima. Ou seja, o corpo é o que é ou está como está, o resto são expectativas nossas. 

O movimento da neutralização do corpo se encaixa muito bem ao movimento de normalização do corpo, uma vez que entendemos que alguns aspectos físicos, que sempre foram colocados como nosso vilões, são normais, como por exemplo, dobras, celulites, cicatrizes e marcas que contam a história de cada uma. Respeitar o seu corpo de agora é um ato de amor próprio, você pode não estar satisfeita com seu corpo mas você é livre para ser."

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