Certo dia, ouvi a expressão cankles pela primeira vez. Fiquei curiosa e fui pesquisar. Descobri que o termo se refere a canelas grossas. Antes disso, já tinha visto alguém falando sobre como gostaria de ter ballerina breasts. Ok, esse eu entendi rápido: seios pequenos. E, antes de tudo isso, já conhecia o famoso hip dips. Aliás, por que raios tudo precisa estar em inglês?
Foi aí que meu limite transbordou. Em um momento de raiva, pensei: precisamos urgentemente parar de dar nomes às nossas características físicas. Coisas pequenas, sabe? Microdetalhes que, na correria do dia a dia, ninguém realmente repara.
Sendo bem direta: precisamos sair da bolha da internet onde isso virou pauta relevante. Não vou pedir para você “sair da internet” — isso já é praticamente impossível. Mas diminuir o tempo de tela talvez seja um bom começo. Porque esse tipo de conversa, na maioria das vezes, só alimenta novas frustrações internas.
Outra discussão que surgiu recentemente foi a do “umbigo vertical ou horizontal”. E, como bem pontuou a Paola Stornebrink em seu TikTok: o que aconteceu com a época em que a conversa era apenas sobre o umbigo ser para fora ou para dentro? E a partir de qual momento deixamos nossos umbigos definirem se o nosso corpo é ou não desejável ou bonito?
Será que agora, além de ser magríssima, ter braços hiperdefinidos e tornozelos finos, eu também preciso ter um umbigo perfeitamente vertical? Aliás, depois de estarmos todos magros, qual é o próximo passo? Para onde o algoritmo vai nos levar? Quais serão os próximos ideais de beleza que devemos perseguir para nos sentirmos minimamente satisfeitos com aquilo que vemos no espelho?
Em algum momento, deixamos de enxergar nossos corpos como um todo e passamos a analisá-los em partes. O algoritmo aproxima o zoom até transformar características completamente comuns em pequenas “falhas” que precisam ser observadas, corrigidas ou escondidas. E esse é o aspecto mais cansativo de tudo isso: a sensação de que sempre haverá um novo detalhe para monitorar.
A hipervigilância de nanodetalhes não só desvia o foco de coisas realmente importantes, mas também cria inseguranças que nos impedem de estar plenamente felizes com características únicas — e muitas vezes lindas — de quem somos. Aos poucos, vamos nos moldando para caber em uma caixa cada vez menor (quase uma caixa de fósforos). Pequena demais para comportar a complexidade de um corpo real.
Mas, reforço: ninguém está, de fato, reparando na grossura do seu tornozelo, nas veias das suas mãos ou se o seu quadril é mais largo ou mais estreito do que o dos outros — e isso é reconfortante. É válido lembrar que ninguém liga tanto assim para nós (e escrevo isso até dando risada). Ninguém liga. Sim, nossos amigos e familiares ligam, mas provavelmente não para o formato do seu umbigo.
Por isso, amiga leitora, diminua o zoom (e o tempo de tela também). A vida real ainda acontece em uma escala muito mais humana do que a internet faz parecer.
