Quando falamos sobre figurinos inesquecíveis do cinema — daqueles que ajudam a construir mundos inteiros na tela — é impossível não mencionar o trabalho de Ruth E. Carter. Ao longo de mais de quatro décadas em Hollywood, a figurinista transformou peças de roupas em diferentes narrativas, capazes de revelar identidade, cultura e história com precisão quase arqueológica.
Agora, às vésperas do Oscar 2026, seu nome volta a dominar as conversas da indústria. Indicada mais uma vez ao prêmio de Melhor Figurino pelo filme Sinners, Carter se tornou a mulher negra com mais indicações da história da Academia, um marco que reafirma sua importância não apenas para o design de figurino, mas para a representação cultural no cinema.
afinal, quem é Ruth E. Carter?
Nascida em 1960 em Springfield, Massachusetts, nos Estados Unidos, Ruth E. Carter construiu uma carreira de peso no cinema americano. Formada em Artes Teatrais pela Hampton University, ela começou a se destacar em Hollywood nos anos 1980, período em que iniciou colaborações com cineastas como Spike Lee, parceria que ajudaria a moldar sua trajetória criativa.
Desde então, Carter trabalhou em mais de 60 produções entre cinema e televisão, consolidando-se como uma das figurinistas mais respeitadas da indústria. Seu estilo se destaca pela pesquisa histórica profunda e pela habilidade de traduzir identidade cultural em roupas que funcionam como extensão dos personagens.

Ao longo da carreira, ela acumulou cinco indicações ao Oscar: por Malcolm X (1992), Amistad (1997), Black Panther (2018), Black Panther: Wakanda Forever (2022) e, mais recentemente, Sinners (2025). Com isso, tornou-se a mulher negra mais indicada da história da premiação.
Além das indicações, Carter também fez história ao vencer duas vezes o Oscar de Melhor Figurino, sendo a primeira mulher negra a conquistar o prêmio e também a primeira a ganhar duas estatuetas na categoria.
seus trabalhos na indústria do cinema
Malcolm X (1992)
Um dos primeiros grandes marcos da carreira de Ruth E. Carter foi o filme Malcolm X, dirigido por Spike Lee. O longa acompanha diferentes fases da vida do ativista Malcolm X, o que exigiu que o figurino acompanhasse também as transformações pessoais e políticas do personagem.
Para isso, Carter recriou com precisão o estilo das décadas de 1940 a 1960, incluindo ternos zoot suits, roupas religiosas e alfaiataria elegante que marcou a fase mais conhecida do líder. O trabalho lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Figurino.
Segundo a própria figurinista, em entrevista à Academia, aquele momento foi determinante para sua carreira: ao perceber que era a primeira mulher negra indicada na categoria, ela entendeu que estava abrindo espaço para outras profissionais na indústria.
Amistad (1997)
Dirigido por Steven Spielberg, Amistad é um drama histórico ambientado no século XIX que retrata a revolta de africanos escravizados a bordo de um navio negreiro.
Para desenvolver os figurinos, Carter mergulhou em extensas pesquisas históricas sobre tecidos, cortes e códigos visuais da época, tanto do lado europeu quanto das culturas africanas retratadas no filme. O resultado foi um figurino que ajudou a reforçar a tensão entre mundos e identidades presentes na narrativa.
O trabalho garantiu à figurinista sua segunda indicação ao Oscar.
Black Panther (2018)
Talvez o trabalho mais famoso de Ruth E. Carter seja o figurino de Black Panther, da Marvel. O filme não apenas marcou um momento histórico para o cinema de super-heróis, mas também redefiniu como cultura africana poderia ser representada em blockbusters.
Para criar o visual de Wakanda, Carter combinou referências de diversas etnias africanas com elementos futuristas — estética conhecida como Afrofuturismo. O resultado foi um universo visual que celebrava tradições culturais enquanto projetava uma visão de futuro.
O impacto foi imediato: Carter venceu o Oscar de Melhor Figurino em 2019, tornando-se a primeira mulher negra a conquistar a estatueta nessa categoria.
Black Panther: Wakanda Forever (2022)
A sequência ampliou ainda mais o universo visual criado por Carter. Além de expandir os trajes da nação fictícia de Wakanda, o filme introduziu o reino submarino de Talokan, exigindo figurinos adaptados para cenas aquáticas e novas referências culturais.
O trabalho rendeu à figurinista seu segundo Oscar, consolidando seu nome na história da premiação. Com a vitória, Carter se tornou a primeira mulher negra a ganhar duas vezes o Oscar em qualquer categoria.
o figurino de sinners
O trabalho mais recente de Ruth E. Carter chega com o filme Sinners, dirigido por Ryan Coogler e ambientado no Mississippi durante a era das leis Jim Crow, nos anos 1930.
Para criar o figurino, a designer mergulhou em registros históricos da comunidade negra da época, analisando fotografias e documentos para entender como as pessoas se vestiam no cotidiano. Em entrevista à imprensa, Carter explicou que buscou capturar as camadas culturais e sociais presentes na vida da população negra naquele período.
A produção também apresenta um contexto visual complexo: além do drama histórico, o filme incorpora elementos sobrenaturais e musicais, o que exigiu figurinos capazes de transitar entre realismo histórico e atmosfera estilizada.
Um dos exemplos mais interessantes dessa construção visual aparece nos figurinos dos irmãos Smoke e Stack, interpretados por Michael B. Jordan. Embora os dois compartilhem a mesma origem e trajetória, seus trajes revelam personalidades bastante distintas.
Em entrevista à Harper's Bazaar, Carter explicou que Stack é extremamente consciente da própria imagem e usa um terno inspirado no corte típico dos anos 1920, com três botões na frente e diversos acessórios cuidadosamente escolhidos. “Ele tem presilha de colarinho, presilha de gravata, botões de punho — ele tem tudo”, contou a figurinista. Segundo ela, o personagem provavelmente mandaria fazer seus ternos sob medida em Chicago, o que reforça seu cuidado meticuloso com a aparência.
Já Smoke foi pensado como o oposto do irmão. O personagem usa um terno mais amplo e menos ajustado, sem gravata, refletindo uma personalidade mais prática e direta. “Ele representa o homem comum”, explicou Carter à publicação, acrescentando que o corte mais largo também fazia sentido narrativamente: o personagem precisava esconder armas e outros objetos sob a roupa.
O resultado é um guarda-roupa que mistura autenticidade histórica com escala cinematográfica, algo especialmente visível nas grandes cenas ambientadas em clubes de música e espaços sociais da comunidade negra da época.
Com esse trabalho, Carter recebeu sua quinta indicação ao Oscar, tornando-se oficialmente a mulher negra mais indicada da história da Academia.
