Tudo sobre a exposição da Schiaparelli “Fashion Becomes Art”

por Beta Weber

A exposição da Schiaparelli, “Fashion Becomes Art", que acaba de abrir no Victoria & Albert Museum em Londres, tem aqueles nomes meio clichês, grandiosos, que prometem muito e que, nesse caso, entregam. A visionária obra de Elsa Schiaparelli (1890-1973) se mantém incrivelmente relevante mesmo prestes a completar um século em 2027, justamente pelo olhar único que a guiava. Nas palavras da própria: 'Para mim desenhar vestidos não é uma profissão, é uma arte'.

E a frase ecoa a cada nova sala. Separada em categorias e tomando todo o andar inferior do museu, passeamos pelos principais aspectos que marcaram a história da Maison, tanto da fundadora quanto do atual diretor criativo, Daniel Roseberry.

Exposição da Schiaparelli reúne vestidos escultóricos em branco, vermelho, dourado e preto sob luz dramática e aura surreal.
Foto: Schiaparelli: fashion becomes art (Peter Kelleher)


tudo sobre a exposição da Schiaparelli, Fashion Becomes Art

Nascida em Roma em uma família de aristocratas e intelectuais, Elsa passou por Londres e Nova York antes de eleger Paris como lar. Sem nenhum treinamento formal, mas munida de intuição e criatividade, lançou sua primeira coleção em 1927. Seu início foi em sportswear, mas já trazendo um quê do surrealismo que se tornaria uma de suas marcas registradas. 

O que se sucede é uma verdadeira viagem pelos códigos da Schiaparelli: o uso de materiais inesperados, a atenção aos detalhes, as estampas autorais (foi ela quem criou, lá nos anos 30, a estampa de jornal nas roupas que seria imortalizada por John Galliano na Dior décadas depois), símbolos como cadeados e fechaduras, detalhes da anatomia humana, as jaquetas adornadas por bordados extraordinários. Em tudo, o que mais chama atenção é como a maioria das peças mantém um ar atemporal, mesclando nostalgia e contemporaneidade. A irreverência divide espaço com refinamento em todo momento.

A rival Coco Chanel se referia a ela como "aquela italiana que faz roupas", mas o comentário afiado não representa a realidade. Elsa construiu um negócio robusto com mais de 400 funcionários, foi a primeira mulher a estampar a capa da revista Time nos anos 30, e seu impacto na cultura pode ser conferido ao longo da exposição, com looks usados por clientes célebres como Marlene Dietrich e Wallis Simpson.

Mas é lógico que a arte é o ponto mais fundamental, em particular o surrealismo, com Schiaparelli sendo a principal expoente do movimento na moda. Dá para conferir as colaborações com Salvador Dalí e Jean Cocteau que renderam exemplos icônicos como o chapéu-sapato, os vestidos esqueleto e lagosta, além de obras de artistas como Man Ray e até um Picasso, todos dividindo espaço com seus designs e tornando a experiência ainda mais rica e sensorial.

Exposição da Schiaparelli com vestidos bordados em branco, preto e vermelho em vitrines, clima elegante e contemplativo
Foto: Schiaparelli: fashion becomes art (Peter Kelleher)

Honrando o legado da casa, as contribuições de Daniel Roseberry também brilham (algumas literalmente). Se Elsa mantinha silhuetas mais clássicas adicionando referências, estampas e acabamentos para transformá-las em algo inédito, Daniel brinca com formas insólitas. Ele capta perfeitamente o espírito da casa, como no vestido com pulmões usado por Bella Hadid no festival de Cannes. Um dos momentos mais impactantes é a sala com suas criações iluminadas por holofotes que vão passando de vestido em vestido, realmente sublime. A última galeria reúne alguns dos designs mais memoráveis de Roseberry, do vestido com rodado arquitetônico usado por Ariana Grande no Oscar aos modelos eleitos por Dua Lipa, passando pelo conjuntinho jeans inteiramente bordado, tudo ao lado das silhuetas mais ousadas idealizadas por Elsa.

Schiap era afeita a coleções temáticas que exploravam temas como circo, paganismo e astronomia, e caminhar ao redor das peças e poder vê-las de pertinho revela surpresas: um broche de sereia ali, um botão de cenoura aqui, trapezistas, tambores, um universo completo, incluindo um em formato de planeta terra.  A galeria dedicada às jaquetas exibe perfeitamente os bordados deslumbrantes (assinados pelo atelier Lesage), e o espaço dedicado aos acessórios é um deleite à parte: botões de tirar o fôlego, joias, chapéus, luvas em cores variadas com unhas aplicadas, e frascos de perfume inesquecíveis como o Shocking, baseado na silhueta de Mae West.

Programe-se: Quem for passar por Londres, a exposição "Schiaparelli: Fashion Becomes Art" fica no Victoria & Albert Museum até 9 de novembro.

Concorrida e extensa, vale comprar ingressos com antecedência e reservar umas duas horas na agenda para curtir sem pressa.