vamos falar sobre o domínio da big tech no Met Gala 2026?

por Sophia Andrade

Criado em 1948 como um jantar beneficente para o Costume Institute, o Met Gala nem sempre foi esse fenômeno global que a gente acompanha hoje. Foi só a partir dos anos 1990, com Anna Wintour, que o evento ganhou o formato atual: uma mistura de arrecadação, exposição de moda e construção de imagem em escala internacional. Em 2026, ele continua cumprindo essa função (levantar fundos para o Metropolitan Museum of Art), mas com uma mudança mais visível em quem sustenta essa estrutura.

Neste ano, a presença de nomes como Jeff Bezos e Lauren Sánchez deixa mais claro um movimento que já vinha acontecendo nos bastidores: a entrada mais direta da Big Tech nesse ecossistema. Isso não apaga o papel da curadoria de Andrew Bolton nem o peso do tema anual, mas muda um pouco o eixo de atenção. Parte dele começa a sair da narrativa criativa e vai para quem faz acontecer, financeiramente e estrategicamente, o evento.

Na prática, o Met Gala segue sendo uma vitrine de moda, mas também passa a refletir quais setores estão mais interessados em ocupar esse espaço. O tapete vermelho continua ditando conversa, mas o que acontece fora dele ajuda a explicar por que certas presenças e movimentos ganham tanta força agora.

Met Gala 2026: o domínio da big tech

Foto: Getty Images (Getty Images)

quando a moda vira estratégia de imagem no Met Gala

Durante muito tempo, o Met Gala funcionou quase como um exercício criativo. A leitura do tema passava diretamente pelo trabalho dos designers, era sobre como transformar referência histórica em roupa. O resultado aparecia no tapete vermelho em forma de interpretação, nem sempre óbvia, mas intencional.

Nos últimos anos, essa lógica começa a dividir espaço com outra função mais estratégica. A moda continua ali, mas também passa a operar como ferramenta de imagem. Em vez de interpretações mais conceituais, parte dos convidados, especialmente vindos de outros setores, aposta em escolhas mais controladas, que comunicam status sem necessariamente dialogar de forma direta com o tema.

No caso de executivos da tecnologia, essa presença no Met Gala pode ser lida por esse lado. Agora, o foco é sobre o posicionamento, e como o uso de peças discretas, tecidos caros e uma estética mais polida, constroem uma imagem de sofisticação e aproximação, que contrasta com a percepção mais técnica e distante associada à moda em si.

Isso não significa que a dimensão criativa desapareceu, mas indica um ajuste de foco. O tapete vermelho segue relevante para a moda, mas também se consolida como um espaço onde diferentes indústrias articulam como querem ser vistas, e a escolha do look passa a fazer parte direta dessa narrativa.

O tech-washing no tapete vermelho 

A presença de Jeff Bezos no Met Gala não funciona só como um convite de prestígio, mas ajuda a evidenciar um movimento maior. Aos poucos, nomes da tecnologia passam a ocupar um espaço que sempre foi muito ligado à moda e ao entretenimento. E é aí que o tech-washing fica mais visível: ele aparece em looks propositalmente sóbrios, com cortes impecáveis, tecidos caros e uma estética limpa. 

Ela ajuda a reposicionar executivos associados a dados, escala e operação em um outro lugar, mais próximo da elite cultural do que do universo corporativo. O look funciona quase como uma tradução visual dessa mudança de imagem.

Ao mesmo tempo, isso impacta a leitura do próprio tapete vermelho. Em vez de interpretações mais literais ou experimentais do tema proposto por Andrew Bolton, entram produções mais controladas, que priorizam consistência de imagem. O resultado é um red carpet mais uniforme, onde a moda continua presente, mas dividindo espaço com estratégia.

Teyana Taylor Met Gala 2025

Foto: Teyana Taylor (Getty Images)

patrocínio e liberdade criativa no Met Gala

O tema “Moda é Arte” acabou deixando um contraste bem visível nesta edição. Enquanto a exposição reforça o vestuário como construção artística, o tapete vermelho seguiu por um caminho mais controlado. A diferença entre o que está dentro do Metropolitan Museum of Art e o que aparece na chegada dos convidados chama atenção.

Parte disso passa pelo peso de quem financia o evento. Com a Amazon entre os patrocinadores, cresce uma estética mais polida, que funciona bem em diferentes leituras e evita muito risco. Na prática, isso deixa o red carpet mais uniforme, com menos espaço para interpretações mais radicais do tema.

Ao mesmo tempo, o Met Gala continua sendo um atalho para capital cultural. Para a Big Tech, estar ali aproxima essas figuras de um circuito que a moda construiu ao longo de décadas. E isso, inevitavelmente, mexe no perfil de quem ocupa esse espaço, menos nomes ligados diretamente à indústria e mais lideranças de outros setores, o que muda a dinâmica da noite aos poucos.

Met Gala: mulher posa com vestido preto tomara que caia escultural e homem veste smoking preto, em clima sofisticado.

Foto: Jeff Bezos e Lauren Sánchez (Getty Images)

a reação do público ao “co-chair bilionário”

Se dentro do Metropolitan Museum of Art o discurso segue alinhado à celebração da moda, do lado de fora a leitura é outra. A nomeação de Jeff Bezos e Lauren Sánchez como co-chairs gerou uma reação imediata, principalmente nas redes sociais, onde o questionamento gira em torno de pertencimento e repertório dentro desse espaço.

Parte das críticas aponta para um desalinhamento entre o tema e quem está por trás do evento. A discussão não fica só na estética, mas avança para o contraste entre uma exposição que valoriza sensibilidade e um financiamento vindo de uma empresa como a Amazon, frequentemente associada a debates sobre automação e dinâmica de trabalho.

Também aparece uma percepção recorrente de que capital financeiro não se traduz automaticamente em capital cultural. Nos comentários, esse ponto surge de forma direta: estar presente no Met Gala não significa, necessariamente, fazer parte da construção histórica que sustenta o evento.

Outro aspecto que entra nessa leitura é o distanciamento em relação ao contexto da cidade. A ausência de figuras políticas locais e a diferença entre o universo do baile e o custo de vida em Nova York reforçam a ideia de um evento cada vez mais isolado da realidade ao redor.

Afinal, o Met Gala ainda define cultura?

Se dentro do Metropolitan Museum of Art o discurso segue alinhado à arte, do lado de fora, e principalmente nas redes, a leitura já é mais crítica. A escolha de Jeff Bezos e Lauren Sánchez como co-chairs, somada ao contexto ecônimico do mundo, onde o custo de vida segue em pauta, reforça essa sensação de distanciamento.

Isso não tira a relevância do evento, mas muda o tipo de cultura que ele projeta. O Met Gala continua definindo conversa, só que hoje essa conversa passa tanto por moda quanto por mercado, imagem e influência.