Afinal, será que a indústria da moda mudou nos últimos 20 anos?

por Izabela Suzuki

A estreia do mini documentário da Netflix sobre o fenômeno cultural que foi o America’s Next Top Model reacendeu um desconforto que estava ali, latente, esperando a gente revisitar os anos 2000 com o distanciamento que só o tempo oferece. Em um dos trechos que mais circularam nas redes, Tyra Banks justifica determinadas dinâmicas do programa com um “mas essa era a indústria da moda nos anos 2000”. E é impossível não se perguntar: era mesmo “só” isso? Ou aquilo era simplesmente a versão televisionada de um sistema que sempre operou sob as mesmas regras, só que com filtros diferentes?

Modelos caminham com postura confiante em desfile da indústria da moda usando peças brancas delicadas.
Foto: Desfile D&G 2011 (Reprodução/Pinterest)


Nos anos 2000, o ideal de beleza era quase didático na sua crueldade: corpos extremamente magros, uma relação com a comida tratada como obstáculo profissional; a padronização racial e estética; a romantização do sofrimento como parte do “processo”. O que o reality fazia era amplificar — com trilha sonora dramática e edição afiada — um modus operandi que já existia nas passarelas, nos editoriais e nos bastidores. A câmera não inventou o problema, ela só o transformou em entretenimento puro.

De lá para cá, a indústria passou por transformações inegáveis. Vimos o discurso da diversidade ganhar força, a ascensão do movimento body positive, a entrada de modelos plus size em grandes campanhas, debates sobre saúde mental, representatividade racial e identidade de gênero ocupando capas e passarelas. Marcas que antes vendiam um único tipo de corpo passaram a, pelo menos, simular amplitude. O Instagram substituiu a sala de casting como vitrine inicial. A palavra “inclusão” virou pauta, estratégia e, muitas vezes, branding.

mas a pergunta que fica é: a indústria da moda mudou ou apenas se sofisticou?

Se antes a pressão vinha de um booker, de um diretor de casting ou de um painel de jurados, hoje ela também vem do algoritmo. O corpo ideal deixou de ser exclusivamente magro para se tornar paradoxal: cintura mínima, quadril e busto volumosos, pele perfeita, “natural” sem parecer produzida demais. A régua continua existindo, só foi recalibrada. E, talvez, democratizada no pior sentido: agora qualquer pessoa com um smartphone pode se submeter a ela.

Há também um deslocamento curioso. A magreza extrema que marcou os anos 2000 parecia ter sido substituída por uma estética mais “saudável”, mas basta observar o retorno de silhuetas ultrafinas nas passarelas e campanhas recentes para perceber que certos ciclos nunca desaparecem completamente — eles apenas aguardam a próxima validação cultural. A diferença é que hoje o discurso vem embalado em termos como “bem-estar”, “disciplina” e “autocuidado”, o que torna tudo mais difícil de contestar.

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Modelo posa reclinada com top cropped e legging pretos de tecido liso, destacando minimalismo e conforto.
Foto: Kaia Gerber (Reprodução/Instagram)

Isso não significa que nada tenha mudado. Mudou, sim, e seria injusto ignorar as conquistas reais de modelos e profissionais que tensionaram o sistema por dentro. O que talvez não tenha mudado com a mesma intensidade é a lógica estrutural: a moda ainda trabalha com escassez, com idealização, com a construção de desejo a partir de um “outro” inalcançável. O corpo feminino continua sendo território onde se projetam tendências, crises econômicas, e conservadorismos.

Quando Tyra diz que “era a indústria da moda nos anos 2000”, ela aponta para um contexto histórico específico. Mas também, sem querer, nos provoca a olhar para o presente com menos complacência. Porque se antes o problema estava concentrado em um estúdio de TV, hoje ele pode estar no feed, no filtro, no reels, na obsessão por performance estética.

Talvez a grande mudança não esteja no padrão em si, mas na narrativa que o sustenta. A indústria aprendeu a falar a linguagem da crítica, a absorver a contestação e a transformá-la em produto.