A estreia do mini documentário da Netflix sobre o fenômeno cultural que foi o America’s Next Top Model reacendeu um desconforto que estava ali, latente, esperando a gente revisitar os anos 2000 com o distanciamento que só o tempo oferece. Em um dos trechos que mais circularam nas redes, Tyra Banks justifica determinadas dinâmicas do programa com um “mas essa era a indústria da moda nos anos 2000”. E é impossível não se perguntar: era mesmo “só” isso? Ou aquilo era simplesmente a versão televisionada de um sistema que sempre operou sob as mesmas regras, só que com filtros diferentes?

Nos anos 2000, o ideal de beleza era quase didático na sua crueldade: corpos extremamente magros, uma relação com a comida tratada como obstáculo profissional; a padronização racial e estética; a romantização do sofrimento como parte do “processo”. O que o reality fazia era amplificar — com trilha sonora dramática e edição afiada — um modus operandi que já existia nas passarelas, nos editoriais e nos bastidores. A câmera não inventou o problema, ela só o transformou em entretenimento puro.
De lá para cá, a indústria passou por transformações inegáveis. Vimos o discurso da diversidade ganhar força, a ascensão do movimento body positive, a entrada de modelos plus size em grandes campanhas, debates sobre saúde mental, representatividade racial e identidade de gênero ocupando capas e passarelas. Marcas que antes vendiam um único tipo de corpo passaram a, pelo menos, simular amplitude. O Instagram substituiu a sala de casting como vitrine inicial. A palavra “inclusão” virou pauta, estratégia e, muitas vezes, branding.
mas a pergunta que fica é: a indústria da moda mudou ou apenas se sofisticou?
Se antes a pressão vinha de um booker, de um diretor de casting ou de um painel de jurados, hoje ela também vem do algoritmo. O corpo ideal deixou de ser exclusivamente magro para se tornar paradoxal: cintura mínima, quadril e busto volumosos, pele perfeita, “natural” sem parecer produzida demais. A régua continua existindo, só foi recalibrada. E, talvez, democratizada no pior sentido: agora qualquer pessoa com um smartphone pode se submeter a ela.
Há também um deslocamento curioso. A magreza extrema que marcou os anos 2000 parecia ter sido substituída por uma estética mais “saudável”, mas basta observar o retorno de silhuetas ultrafinas nas passarelas e campanhas recentes para perceber que certos ciclos nunca desaparecem completamente — eles apenas aguardam a próxima validação cultural. A diferença é que hoje o discurso vem embalado em termos como “bem-estar”, “disciplina” e “autocuidado”, o que torna tudo mais difícil de contestar.
Você também vai gostar: O que a busca pelo braço definido diz sobre a indústria do bem-estar e da moda?

Isso não significa que nada tenha mudado. Mudou, sim, e seria injusto ignorar as conquistas reais de modelos e profissionais que tensionaram o sistema por dentro. O que talvez não tenha mudado com a mesma intensidade é a lógica estrutural: a moda ainda trabalha com escassez, com idealização, com a construção de desejo a partir de um “outro” inalcançável. O corpo feminino continua sendo território onde se projetam tendências, crises econômicas, e conservadorismos.
Quando Tyra diz que “era a indústria da moda nos anos 2000”, ela aponta para um contexto histórico específico. Mas também, sem querer, nos provoca a olhar para o presente com menos complacência. Porque se antes o problema estava concentrado em um estúdio de TV, hoje ele pode estar no feed, no filtro, no reels, na obsessão por performance estética.
Talvez a grande mudança não esteja no padrão em si, mas na narrativa que o sustenta. A indústria aprendeu a falar a linguagem da crítica, a absorver a contestação e a transformá-la em produto.
