Estão te vendendo um glow up inatingível e você não deve cair nessa

por Izabela Suzuki

Ultimamente, uma das pautas mais discutidas na internet é o uso da inteligência artificial. Seja na criação de conteúdo, no aprimoramento de dados, para facilitar o dia a dia ou gerar imagens, todos esses tópicos rendem debates profundos. Mas há um recorte que merece atenção especial neste momento: o impacto da IA na vulnerabilidade das mulheres online e na venda constante de um glow up que simplesmente não existe.

o que está acontecendo?

Recentemente, viralizaram vídeos de mulheres em busca do “glow up perfeito”, sob a justificativa de não deixar que a “genética vencesse”. As imagens seguem um roteiro já conhecido: o “antes”, fora dos padrões que o mundo parece exigir cada vez mais, e o “depois”, com um corpo magro, cintura e braços definidos, pele lisa, cabelo brilhante e absolutamente impecável.

O problema, ou melhor, os problemas, é que, no fim das contas, esses vídeos não passavam de conteúdos gerados por inteligência artificial, criados com um único objetivo: vender um produto milagroso que promete levar ao tal glow up dos sonhos.



quais os problemas disso?

A questão aqui vai além da propaganda enganosa. Quando a tecnologia passa a fabricar corpos irreais com aparência hiper-humana, o impacto psicológico é imediato, especialmente para mulheres que já crescem sob pressão estética constante. Não estamos mais falando apenas de filtros ou edições exageradas, mas de imagens que nunca existiram, embora sejam consumidas como referência possível.

Esse tipo de conteúdo se aproveita de inseguranças reais para vender soluções falsas. A narrativa do “é só se esforçar” ou “é só não deixar a genética vencer” ignora fatores como saúde, contexto social, financeiro e, principalmente, a própria realidade física dos corpos humanos. O resultado? Frustração, comparação excessiva e a sensação de falha pessoal diante de um padrão inalcançável.

Além disso, há um ponto perigoso nessa equação: a falta de transparência. Em muitos desses vídeos, o uso da inteligência artificial não é explicitado. O que deveria ser tratado como simulação ou experimento tecnológico acaba sendo apresentado como transformação possível  e imediata.

como identificar vídeos de glow up criados por inteligência artificial

Com a evolução da inteligência artificial, distinguir o que é real do que foi gerado digitalmente se tornou um desafio, mas ainda existem sinais. Em muitos desses vídeos, o corpo parece “perfeito demais”: proporções irreais, pele sem textura alguma, músculos definidos de forma simétrica e quase genérica. Expressões faciais rígidas, piscadas estranhas, movimentos corporais pouco naturais e transições excessivamente suaves também costumam denunciar o uso da tecnologia.

Outro ponto importante é o contexto. A narrativa do “antes e depois” segue um roteiro simplificado e apelativo, sem qualquer explicação real sobre processos, tempo ou limitações — porque, na prática, eles não existem.

por que precisamos, com urgência, de leis sobre o uso da inteligência artificial

Sem regulamentação, a inteligência artificial segue sendo usada livremente para criar conteúdos enganosos, explorar vulnerabilidades e vender soluções que não existem — sem qualquer responsabilização.

A discussão sobre leis não é sobre frear a tecnologia, mas sobre estabelecer limites éticos claros. Transparência no uso de IA, identificação obrigatória de conteúdos gerados artificialmente e responsabilização em casos de propaganda enganosa são passos essenciais para proteger quem consome esse tipo de conteúdo diariamente.

Sem regras, o risco é que a internet se torne um espaço onde tudo parece possível, menos ser real. E, nesse ambiente, quem mais perde são justamente as pessoas que já estão em posição de maior vulnerabilidade.

Três mulheres com tops brancos ajustados posam sorrindo para selfie, celebrando o glow up com pele radiante e maquiagem.
Foto: O glow up perfeito não existe, imagens são muito fáceis de serem manipuladas (Reprodução/Inteligência Artificial/Chat GPT)

No fim das contas, a consequência direta é uma sensação constante de inadequação, como se o problema estivesse sempre no corpo real, nunca na imagem fabricada. Para mulheres, que historicamente já são cobradas por juventude, magreza e perfeição, essa lógica apenas reforça um ciclo de insatisfação e consumo.

Por isso, o glow up vendido pela inteligência artificial não é um objetivo e sim, uma armadilha. Aprender a identificar esses conteúdos, questionar padrões inalcançáveis e exigir limites para o uso da tecnologia talvez seja o verdadeiro movimento de autocuidado que precisamos fazer agora.