Se você já leu a sinopse de All Her Fault, viu que a trama é resumida a um fato trágico: o desaparecimento de uma criança e o esforço dos pais para recuperá-la. No entanto, quem assiste percebe, desde os primeiros minutos, que esse incidente é apenas o pano de fundo de uma questão muito maior: o papel das mulheres (especialmente das mães) na sociedade.

A série retrata a vida de casais com boa condição financeira, filhos que estudam em um colégio particular de prestígio e que, à primeira vista, parecem viver a típica rotina da família de comercial de margarina.
Tudo muda quando Milo, uma criança de 5 anos, desaparece depois que sua mãe, Marissa, acredita que ele estava brincando com um colega de sala, Jacob. A partir daí, tanto Marissa quanto Jenny, a mãe de Jacob, passam a ser apontadas como as grandes culpadas pelo ocorrido. Afinal, foi Marissa quem confiou em uma mensagem de desconhecidos, acreditando se tratar de outra mãe da escola, e foi Jenny quem contratou a babá que supostamente sequestrou o menino.

Ao longo dos episódios, fica clara a diferença entre a vida das mães e a dos pais. Eles trabalham sem culpa, chegam tarde quando precisam, são vistos como os responsáveis legais que brincam com os filhos e que não podem abrir mão do próprio tempo livre.
Já as mães precisam dar conta de todas as responsabilidades, mesmo quando também têm um trabalho fora de casa. Cabe a elas encontrar uma boa babá, buscar na escola, organizar compromissos importantes, administrar a casa e tudo o que envolve criar uma criança.

Até mesmo Ana, a mãe que não trabalha fora e se dedica integralmente aos filhos e às atividades escolares, vive essa realidade. O marido dela nunca está em cena. Seja na festa dos pais, na escola ou até quando a comunidade se mobiliza em busca de informações sobre a criança desaparecida.
Além disso, quando os homens são solicitados para que as esposas possam, não ter um tempo para si, mas comparecer a um compromisso profissional, o que se vê é que eles não encaram isso como uma obrigação, e sim como um favor com hora para acabar. E, diante de qualquer inconveniente (como o choro de um filho), não pensam duas vezes antes de ligar para as mulheres.
Todo esse cenário expõe uma estrutura presente na rotina de muitas mães: a sobrecarga, a culpa, a solidão e tantas outras questões que afligem as mulheres, porque é sobre elas que recai toda a responsabilidade.

Enquanto isso, os homens não parecem afetados por culpa ou arrependimento por passarem menos tempo com os filhos ou priorizarem o trabalho, simplesmente porque não se veem como igualmente responsáveis pelas crianças.
No fim, a série incomoda tanto justamente por deixar explícito como essa engrenagem social funciona. Mesmo dentro de uma família de classe alta, que pode contar com ajuda extra, o básico — a logística da rotina, o dever — continua recaindo sobre a mulher.
Quem tem o direito de ficar parado no carro rolando o feed, de não ser interrompido no trabalho, de ter um tempo para si e decidir quando quer, ou não, ficar com o filho? E quem fica sem escolha, porque precisa pensar sozinha em tudo, 100% do tempo?
