Afrofuturismo na moda: ancestralidade, futuro e protagonismo negro

por Karen Merilyn

O afrofuturismo é um movimento estético, cultural e político que reimagina o futuro a partir de um passado sem a interferência do colonialismo, onde a cultura, a arte, a ciência e a tecnologia do povo negro podem se desenvolver plenamente, sempre com a ancestralidade como ponto central.

O conceito surgiu entre as décadas de 1950 e 1970, a partir de escritores, músicos e pensadores, com o propósito de corrigir o apagamento da população negra e reimaginar a história além do trauma da escravidão, propondo novas visões sobre o que é futurista e tecnológico.

A partir daí, o movimento se expandiu e está presente nos filmes, nas músicas, nos livros e, é claro, na moda. Designers e figurinistas negros e africanos traduzem o afrofuturismo através de suas criações, gerando impacto visual e trazendo o conceito para o centro das discussões.

Modelo posa com jaqueta colorida oversized em patchwork vibrante, blusa de tela preta e calça cargo jeans. Afrofuturismo
Foto: Selly Raby Kane (Reprodução/Instagram)


designers que ajudam a definir o afrofuturismo na moda

Selly Raby Kane

Selly Raby Kane é uma estilista e artista senegalesa que combina streetwear, surrealismo e afrofuturismo. O resultado são criações à frente do seu tempo, que traduzem a estética futurista com rebeldia e reinventa a visão de seu país de forma fantástica.

Modelo posa inclinada com vestido verde de babados geométricos, meias coloridas e sandálias verdes, evocando afrofuturismo.
Foto: Laduma Ngxokolo (Reprodução/Instagram)

Laduma Ngxokolo

Através de sua marca Maxhora Africa, Laduma propõe um futuro onde a estética africana é moderna, indo de encontro às crenças de que a Europa é o centro da inovação. Além disso, ele usa os padrões tradicionais da cultura xhosa, seu grupo étnico, e a insere como tecnologia cultural. 

afrofuturismo
Foto: Meninos Rei (Ze Takahashi / Agência Fotosite)

Júnior e Céu Rocha 

No Brasil, os irmãos, da Meninos Rei, usam um conceito central do afrofuturismo em suas criações: usar a ancestralidade para projetar futuros possíveis para corpos negros. Assim, eles posicionam símbolos africanos como potência estética e redefinem a ideia do que é luxo. 

Modelo posa com vestido de afrofuturismo de couro marrom estruturado e saia ampla com tule branco, em cenário minimalista.
Foto: Dendezeiro (Reprodução/Instagram)

Hisan Silva e Pedro Batalha

Hisan Silva e Pedro Batalha, da Dendezeiro, se apropriam do afrofuturismo através de uma abordagem conceitual, poética e política. Suas criações, imaginam um futuro que nasce do cotidiano e se afasta da ideia de sci-fi. O resultado é uma moda experimental e performática, profundamente brasileira. 

Modelo posa com máscara facial de afrofuturismo feita de placas douradas, combinada a vestido preto.
Foto: L'Enchanteur (Reprodução/Instagram)

Dynasty e Soull Ogun 

Os gêmeos Dynasty e Soull Ogun, fundadores da L'Enchanteur, têm sua marca profundamente enraizada no afrofuturismo e utilizam o design como uma forma de cura espiritual, principalmente através das joias. Assim, eles transformam espiritualidade africana em linguagem de futuro, transformando saberes tradicionais em tecnologias ancestrais. 

Trio caminha com postura firme em cenário futurista, vestindo peças afrofuturistas com modelagens estruturadas em preto,
Foto: Pantera Negra (Divulgação)

afrofuturismo através do figurino

Além das passarelas, a relação do movimento com a moda também se dá através do figurino de produções. Dois exemplos recentes que marcaram o mainstream foram os dois filmes do Pantera Negra e o álbum visual Black is King, da Beyoncé. 

Pantera Negra

A história do filme faz exatamente o que o afrofuturismo propõe, através da cidade fictícia de Wakanda: reimaginar um futuro, um presente e um passado sem a interferência da escravidão, onde o povo negro pode se desenvolver sem amarras e apagamento. 

Ruth E. Carter, figurinista do filme, traduziu esse conceito através do figurino, com peças que unem ancestralidade, tecnologia e espiritualidade — visualizando um mundo onde pessoas negras são protagonistas do avanço científico, cultural e simbólico. 

Modelo posa com macacão e luvas de animal print em tecido brilhante. Afrofuturismo
Foto: Black is King (Divulgação)

Black is King

Na produção, Beyoncé cria imagens de poder combinando tradição, arte e futuro, principalmente através dos looks. Ela usa mitologias, símbolos e performances africanas para construir um universo onde a negritude é central, unindo moda, ancestralidade e futuro.

O afrofuturismo mostra que futuro e ancestralidade não são opostos, mas complementares. Na moda, essa visão amplia repertórios, desafia padrões estéticos e coloca o protagonismo negro no centro da construção do amanhã.