Câncer de pele: a cor de dezembro é laranja

por The Look Stealers

por Bianca Ogliari

Parece que só começamos a observar as cores dos meses quando ela se aproxima de nós. Sempre notei o rosa de outubro ou o azul de novembro, mas confesso que só fui me dar conta de dezembro laranja quando minha pele gritou e então descobri que carregava o tipo de câncer de pele mais agressivo.

Eu sempre tive uma relação boa com o sol. Sem restrições e talvez até sem cuidado devido (talvez não, com toda certeza não), eu tomava sol como se não houvesse amanhã. Mas, em 2015 essa narrativa foi diferente - o amanhã pode demorar a chegar, mas ele sempre chega. E, no meu caso, chegou aos 18: eu tinha 18 anos quando descobri que a pinta que eu carregava em meu braço, desde o meu nascimento, era um câncer de pele. Ela cresceu, mudou de forma, cor e diâmetro, mas eu não olhei para ela. Era como se minha pele estivesse gritando no meu ouvido e eu não dava atenção. Meu primo notou. Ele viu que a pinta não estava normal naquele braço direito e insistiu mais de uma vez para eu procurar uma dermatologista. Procurei. E foi no dia 27 de janeiro que descobri que a pinta que havia sido tirada, além da sua metamorfose maligna, era o câncer mais agressivo de pele: o melanoma - o número um em morte por doenças de pele, o melanoma cutâneo é a neoplasia maligna que se dissemina como um crescimento de borboletas pelo corpo, ou posso até chamar de planta. É um crescimento de raízes tão rápido, que quando eu pisquei estava em um centro cirúrgico raspando meu músculo, criando margem de ampliação no meu braço e dizendo adeus aos meus linfonodos do lado direito. 

Não tive tempo de pensar e nesses 6 anos convivendo com o melanoma enraizado na minha pele, digo que tudo só precisou de 15 minutos: a transição mais rápida da minha vida saudável para uma pele extremamente sensível, um convívio constante com cirurgia e tratamento - e as raízes que carrego na minha derme e epiderme.

Bianca Ogliari - câncer de pele - melanoma - verão - street style - https://stealthelook.com.br
Foto: Bianca Ogliari (Reprodução/Instagram)


A importância em saber sobre Dezembro Laranja

A pele é nosso maior órgão, mas este importante órgão é também o primeiro a ser atingido pelos malefícios da atmosfera. Um dos primeiros a ser atingido por células malignas que compõem a formação e transformação de tumores. Considerado o câncer mais comum no Brasil, o câncer de pele, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), corresponde a 30% de todos os tumores malignos. As vítimas são majoritariamente as pessoas com a pele clara e sensível a raios solares ou com doenças cutâneas prévias, menos frequente em crianças e pessoas com a pele negra - atenção! Menos comum não é impossível!

Queria muito ter entendido antes que minha pele (e a sua) é como um elefante: ela tem uma memória indescritível e todo o resultado que o sol faz em nossa pele, ele conta nos nossos primeiros 18 anos de vida. Ou seja: a nossa pele precisa de atenção desde a nossa primeira exposição ao mundo.

É por isso que escrevo ao STL: para que você roube as dicas de uma dermatologista (neste caso, é a minha - e maravilhosa - que mantém minha pele aqui, vivendo, Dra. Isabela Gava) - mas pode ser a sua. Ou, após ler estas dicas - a principal é: procure um dermatologista e olhe suas pintas since baby. Gostaria muito de ter sido informada sobre o risco que corria e minha irresponsabilidade na exposição ao sol que eu tinha. Era uma menina da água e consequentemente do sol, achava que aquilo era tudo saudável, até mudar minha vida completamente. Então, não leva muito tempo você se informar sobre, mas te garanto que leva o resto da vida conviver com uma pele maligna.

Vamos à informação e à prevenção?! 

Isa, o quão grave é o câncer de pele e como identificar?

"Antes de tudo é legal a gente contextualizar que o câncer de pele é dividido em dois grandes grupos, o câncer de pele melanoma e o câncer de pele não melanoma. O câncer de pele do tipo melanoma é o tipo mais agressivo, ele é responsável por cerca de 70% das mortes por câncer de pele no mundo! Isso porque ele tem um tipo de crescimento vertical - para dentro da pele, atingindo nervos e vasos, tendo mais chance de causar metástase. Entre os cânceres de pele do tipo não melanoma, o carcinoma basocelular é o mais comum, seguido pelo carcinoma espinocelular, esses dois são responsáveis pela maioria dos cânceres de pele, são muito mais frequentes que o melanoma e menos agressivos, mas também podem ser agressivos localmente - então, por isso é importante diagnosticar precocemente, porque o tratamento cedo, impede esse crescimento.

Como identificar esses cânceres? O câncer de pele tipo melanoma, geralmente surge como uma pinta diferente; então aqui entra a regra do ABCDE para autoexame (que é só dar um google que existem vários tutoriais de como notar), ficar atento a novas pintas, pintas com formação docente, assimétricas, com bordas irregulares, várias cores, diâmetro maior ou igual a 5 mm e evolução - se teve crescimento rápido, coceira, sangramento, mudança nas cores… A maioria dos câncer de pele tipo melanoma, surgem “de novo” - essa expressão é usada para dizer que a maioria surge de uma pinta nova e não da evolução de uma pinta já existente. Tem uma porcentagem, acho que é 20-30% que surge de pintas pré-existentes.

Como identificar o câncer de pele não melanoma? Feridas que não cicatrizam, lesões de pele que formam casquinha e sangram, ou aquelas casquinhas que nunca param de aparecer, geralmente as pessoas arrancam a casquinha e logo vem uma nova. Outra informação legal: 80% dos melanomas surgem em área de exposição solar intermitente - abdome, dorso, áreas que não se expõem diretamente ao sol sempre, isso porque a exposição solar intermitente (tipo uma vez no ano vai lá e toma um torrão) é muito importante como fator de risco pro melanoma. Por isso a questão da prevenção e uso de filtro solar sempre! Sempre! Principalmente se você associar os outros fatores genéticos… Existem estudos provando também que queimadura solar em criança, aumenta muito o risco de melanoma na vida adulta."

Quais são os fatores que contribuem para a doença, além do sol?

"Qualquer quantidade de radiação solar é capaz de causar mutação no DNA das células, que via de regra vão sempre se auto corrigindo e se recuperando... e por isso a incidência de câncer de pele, ou mesmo mancha e outras lesões vai aumentando com a idade.. é resultado do dano cumulativo da explosão solar.. Então, mesmo pensando no câncer não melanoma por exemplo, ele é muito mais prevalente em idosos, mas é decorrente da exposição solar cumulativa durante a vida. Inclusive a maioria conta que hoje não se expõe mais, mas se expôs durante a vida porque trabalhava exposto ao sol, por exemplo."

Como prevenir?

Aqui entra um monte de coisa, mas evitar o fator de risco ambiental principal - o sol, é a maior forma de prevenção, se tiver fator de risco genético então, redobrar esse cuidado. Se fototipo muito baixo (1 ou 2) usar filtro solar com FPS 50 no mínimo; filtros com menor FPS precisam ser reaplicados com maior frequência, evitar queimadura solar na infância e em qualquer idade, mas principalmente na infância, evitar o sol das 10-16h porque é o período de maior incidência de raio UVB, que é o responsável por essa alteração no DNA celular... Para quem pratica esporte ao ar livre, escolher os horários de menor incidência solar, antes das 10h ou depois das 16h, usar filtro solar, roupas com FPS e outros cuidados que seu médico indicar.

Qual profissional cuida da nossa pele e como criar uma rotina saudável à pele? Prevenindo doenças como o câncer?

"O profissional é o dermatologista, médico especialista em pele que vai saber conduzir desde um câncer de pele ou uma doença de pele. Para manter especificamente essa rotina, ou criar a rotina saudável da pele - que é relativo a cada pele, mas de modo geral, podemos dizer que: uso de protetor solar diariamente - isso previne não só o envelhecimento da pele, como também previne muito o câncer de pele não melanoma. O principal fator de risco para esse tipo de câncer é a exposição solar, então o fato de diminuirmos esse dano solar acomulativo ao longo dos anos, nas áreas expostas ao sol cronicamente, que são dorso das mãos, rosto e colo, a gente previne muito a incidência de câncer de pele do tipo não melanoma. 

Já o câncer de pele do tipo melanoma, também, mas principalmente naqueles fototipos mais baixos: que tem pele muito clara, sardinha, histórico na família, cabelo claro, ruivo, que tem esse fator genético, também é muito importante usar protetor solar diariamente porque ele vai prevenir não só o envelhecimento como a incidência de melanoma nessas áreas. Quem vai ter mais melanomas nessas áreas cronicamente expostas ao sol são essas pessoas com fototipo mais baixo. 

O resumo é: fundamental o protetor solar! Uso de antioxidante que protege as células, como vitamina c ou ácido hialurônico - ativos que protegem a pele e isso também previne o câncer de pele do tipo não melanoma, já o melanoma, como é mais complicado, não tem comprovação que ácidos auxiliam na prevenção. Mas, fazer o autoexame ao menos uma vez ao ano, principalmente com quem tem muitas pintas, com dermatologista conta MUITO. Cada tipo de pinta tem um acompanhamento diferente assim como cada tipo de pele tem uma rotina e acompanhando diverso."

Melanoma é o câncer mais agressivo de pele e o único que comete o paciente à óbito, como se identifica um melanoma?

"O melanoma pode ter várias caras, o mais comum é uma pinta escura ou com várias cores. Então, ela pode ter um tom mais azulado, marrom, vermelho, preto ou até mais esbranquiçada. O melanoma é um câncer de pele que vem dos melanócitos, então dependendo onde ele está na pele, vai ser uma cor diferente. O melanócito na junção entre a epiderme e a derme tem uma cor marrom, que é uma pintinha normal, quando tem uma proliferação dessas células naquela área, ela vai mudar de cor. Varia muito, mas precisa ficar sempre em alerta, investigar. Além de pintas que mudam o formato, assimétrica, etc... - por isso a regrinha ABCDE

Temos também que ter cuidado com pintas embaixo da unha, pintas embaixo do pé, ou no olho/gengiva, boca! Ficar sempre de olho em pintas que existem e mudam com o tempo e pintas novas depois dos 30 anos. Pinta de nascença grande ou que também mudou. E se tem muito fator de risco e tem muitas pintas é recomendado fazer dermatoscopia todo ano! 

Diagnóstico precoce tem chance de cura, ao contrário do diagnóstico tardio que leva a metástase e se torna bem agressivo, levando o paciente a óbito. A expectativa de vida de um paciente com melanoma é em média de 5 anos."

Podemos tomar sol? Qual é o limite? Ou, qual a proteção?

"Assunto super polêmico, ainda mais agora na pandemia com todo mundo falando do nível de vitamina D… Bom, não é necessária exposição solar agressiva para absorção de vitamina D, então você pode tomar o sol que tomamos diariamente da casa ao trabalho, no carro… pequenas exposições ao sol já converte em vitamina D, mas em relação a pele, qualquer radiação solar pode causar alteração ao DNA celular e levar ao câncer da pele e claro, que fototipo mais baixo têm maior risco, como já falamos. 

Não existe bronzeado saudável - isso é o nosso melanócito desenvolvendo uma proteção ativa a nossa pele - nenhuma exposição ao sol é saudável. O bronze pelo sol é a pele tentando defender nossa pele. Porém, temos um posicionamento de tomar sol antes das 10h da manhã e depois das 16h da tarde, porque neste período o nível de UVB, que é o mais perigoso, é menor nesses. Já o UVA é o dia todo igual de incidência. Então, evitar o período de mais intensidade para exposição! Peles mais claras precisam de proteção maior que o FPS 50 e, pele mais escura, pode usar protetor solar de FPS 30. A proteção sempre muda de acordo com a cor da pele. 

De preferência: tomar sol, com grande exposição e sem proteção, nunca é o adequado."

Melanoma é um tipo de câncer de pele, mas quais são os outros que precisamos ficar em alerta e que também é comum?

"Existem vários, mas os que são mais comuns, são os cânceres de pele não melanoma - que é o carcinoma basocelular e espinocelular: eles são mais frequentes, quanto maior a idade e maior exposição solar. É um câncer de pessoa mais idosa, bem frequente, pode acometer pessoas mais jovens, mas é comum em mais velhas. São feridinhas, bolinhas que surgem em áreas expostas ao sol, feridas que não cicatrizam e machucados com casquinhas. O importante é sempre estar de olho na pele e seus sinais sempre investigar."

_dicas da dermato:

Depois de 6 anos com a doença, o que mais dói são comentários e a habilidade frequente com uma baixa autoestima. Abrindo o meu coração: o nosso amor próprio muda. O nosso armário muda. A nossa rotina. Tudo muda. E muda desde o primeiro segundo.

Se eu pudesse voltar na minha infância, ou na minha adolescência, eu teria mais cuidado. Mas, eu não posso. Hoje, o que me resta é me adaptar e esperar sempre o grito que minha pele vai dar - enquanto ela grita, eu tento sobreviver e cuidar de cada "ai" que ela diz. Mas, como jornalista, o que posso fazer é o que eu queria que tivessem feito por mim: informar.

Além do esclarecimento da minha dermatologista, queria reforçar que todo mundo precisa ter uma dermato de confiança - e, todo mundo precisa ir ao dermatologista ao menos uma vez ao ano. A nossa pele é a roupa que a gente veste - é o que protege tudo o que somos e todos os nossos órgão, não custa nada cuidar dela

No mais, além da informação, fica aqui algumas dicas da minha dermato, sobre rotina, que pode te ajudar neste verão, mas lembre-se: PROCURE UM DERMATOLOGISTA E ESCUTE A SUA PELE!

  • Para crianças, é legal sempre o filtro solar infantil Mustela, ou Anthelios Kids, chapeuzinho e roupinhas com proteção UVA e UVB.
  • Para quem faz esportes ao ar livre: Fusion Water da Isdin, viseira, blusa com FPS.
  • Para quem é mais claro e sensível: Isdin foto ultra cream FPS 90!
  • E para o corpo no verão: Neutrogena Sunfresh ou Hydrolotion Isdin (biodegradável), ou Photoderm Max Spray, ou Episol Intense Mantecorp.

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