De Miu Miu a Celine: por que tantas collabs de moda estão acontecendo nos pés?
Existe um lugar onde a moda e o esporte parecem ter encontrado o ponto de encontro perfeito: os nossos pés. Nos últimos anos, tênis se tornaram muito mais do que uma alternativa confortável ao salto e, agora, também são território fértil para algumas das colaborações mais desejadas da indústria.
De Miu Miu + New Balance a Simone Rocha + adidas, passando por Cecilie Bahnsen + ASICS, Wales Bonner + adidas, Jacquemus + Nike, Sandy Liang + Salomon e, mais recentemente, Celine + Reebok, a lista não para de crescer. Mas o que exatamente as marcas estão procurando quando decidem dividir espaço em um par de sapatos?

O tênis virou uma plataforma para experimentação
A resposta mais óbvia seria: atenção. Afinal, poucas coisas geram tanto burburinho quanto colocar duas marcas reconhecíveis em um mesmo produto, mas não é possível reduzir esse fenômeno puramente a marketing. Isso seria perder uma parte importante da história, especialmente porque o tênis reúne características que interessam aos dois lados da parceria: a tecnologia, a escala e a experiência esportiva de uma marca especializada em calçados e o desejo.
É uma combinação naturalmente eficiente porque o produto já carrega uma identidade própria. Uma New Balance, uma ASICS, uma adidas, uma Nike ou uma Salomon não começa do zero: existe um legado por trás, legiões de fãs e um reconhecimento visual ali. A colaboração, então, funciona como uma espécie de laboratório para descobrir o que acontece quando esse repertório encontra uma linguagem completamente diferente.

A parceria entre Miu Miu e New Balance é um dos exemplos mais evidentes desse modelo. Desde 2022, as marcas vêm revisitando diferentes silhuetas da New Balance, transformando modelos originalmente associados ao universo esportivo em produtos alinhados à estética da grife. O mesmo princípio aparece em colaborações como Simone Rocha + adidas e Cecilie Bahnsen + ASICS, nas quais elementos característicos das designers são incorporados a modelos desenvolvidos para performance.
O interesse é dos dois lados
As colaborações também resolvem necessidades diferentes para cada parte da parceria. Para as marcas esportivas, trabalhar com designers e grifes amplia a presença do produto em ambientes nos quais a comunicação tradicional de performance nem sempre alcança o mesmo público, como semanas de moda, street style e redes sociais. Para as marcas de moda, a parceria permite acessar a infraestrutura, a tecnologia e a escala de empresas especializadas em calçados esportivos.
A Cecilie Bahnsen + ASICS, por exemplo, combina a construção técnica dos modelos da marca japonesa com elementos recorrentes do trabalho da designer dinamarquesa, como volumes, aplicações e uma abordagem mais delicada do vestuário. Já Sandy Liang + Salomon aproxima o repertório esportivo e outdoor da Salomon de referências associadas ao ballet e à feminilidade presentes no trabalho da designer.

Não se trata, portanto, apenas de uma troca de público. Existe também uma troca de repertório: cada marca oferece à outra algo que seria mais difícil construir sozinha.
Por que o sneaker funciona bem para esse modelo
Entre as categorias de moda, o tênis reúne algumas características particularmente interessantes para uma colaboração. É um produto funcional, tem forte reconhecimento visual, costuma ser usado com frequência e circula entre diferentes contextos, do esporte ao trabalho e ao street style. Também permite trabalhar com diferentes faixas de preço dentro de uma mesma marca, o que pode tornar a colaboração mais acessível do que outras categorias de produtos.
Isso não significa que os sneakers colaborativos sejam necessariamente baratos. Uma edição especial pode custar significativamente mais do que o modelo original, mas ainda representar uma porta de entrada relativamente mais possível para consumidores interessados na estética de determinada grife. É uma dinâmica diferente da de uma bolsa ou de uma peça de ready-to-wear de luxo, por exemplo.
Há ainda o componente de escassez. Lançamentos limitados, datas específicas e sistemas de sorteio ajudam a transformar um produto de uso cotidiano em um item de coleção, enquanto a procura pode continuar depois do lançamento no mercado de revenda.

A colaboração também cria valor para o produto original
Outro ponto importante é que a parceria não precisa necessariamente apresentar uma tecnologia inédita para gerar interesse. Muitas vezes, o valor está em modificar a percepção que o consumidor tem de um modelo já existente.
O trabalho de Wales Bonner com a adidas mostra isso de maneira consistente. Ao longo das coleções, a designer incorporou referências de diferentes culturas e do futebol ao repertório da adidas, trabalhando sobre modelos como Samba, Gazelle e Predator. A colaboração ajudou a colocar produtos tradicionalmente ligados ao esporte em um contexto mais amplo de moda e cultura.
O mesmo acontece com Jacquemus e Nike, que já trabalharam sobre diferentes modelos da marca esportiva e chegaram a reinterpretar a Moon Shoe, um dos primeiros tênis desenvolvidos por Bill Bowerman, cofundador da Nike. Nesse caso, a colaboração conecta um produto histórico do esporte à linguagem contemporânea da Jacquemus.
Quando a parceria funciona, os códigos das duas empresas aparecem na construção do objeto. Materiais, cores, proporções, acabamentos ou referências são modificados de maneira que o resultado não poderia ser atribuído integralmente a apenas uma das partes. É o que acontece em diferentes momentos de Simone Rocha + adidas, por exemplo, em que elementos como pérolas, fitas e referências de sapatilha alteram a leitura de modelos originalmente esportivos.
E por que, afinal, essas collabs importam na indústria?
Para as empresas esportivas, isso significa ampliar a relevância de modelos que já possuem tecnologia, distribuição e reconhecimento. Para as marcas de moda, representa uma maneira de trabalhar com uma categoria de alta circulação e alcançar consumidores que talvez não tenham contato com outros produtos da grife.
Por isso, mais do que uma sequência de lançamentos, a proliferação dessas parcerias aponta para uma mudança na maneira como moda e esporte estão construindo produtos. O tênis oferece uma combinação difícil de encontrar em outras categorias: é suficientemente familiar para ter escala e suficientemente aberto à transformação para gerar novidade.

